quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Mundo visto assim

A história de hoje não é minha. Ouvi-a da boca de uma avó, no café, de manhã, mas fez-me pensar como as crianças encaram sempre tudo com simplicidade, como é bom quando não percebemos a palavra «Fim» como definitiva...

"Quando eu perdi o meu pai, tomava conta do meu neto mais velho e ia muitas vezes para junto do mar. Gostava de ficar ali, a reflectir ou simplesmente a olhar o mar. E levava-o comigo.
Num desses dias, estávamos dentro do carro e ele perguntou:
- Costumas falar com o teu pai?
- Não, filho, o avô morreu. Tu sabes...
- Eu sei. Mas não tens falado com ele?
- Não...penso muito nele...mas não posso falar, falar, com ele.
- Podes sim.
- Mas...porque é que tu dizes isso?
- Porque, quando fui com o pai ao cemitério, junto do retrato do avô, estava um número: podes-lhe telefonar.
Confirmei com o meu filho. Tinha ido à campa do pai e levado o filho. O miúdo não tinha feito comentários, mas, pelos vistos, assumira os «jardins de pedra», como uma grande e original lista telefónica."

4 comentários:

Ninguém.pt disse...

«O mundo não se fez para pensarmos nele […] mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...»

Por isso as crianças aceitam mais facilmente o mundo como ele é, não acha?

O mundo não se fez para pensarmos nele

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


Alberto Caeiro

Ninguém.pt disse...


Inocência


Vou aqui como um anjo, e carregado
De crimes!
Com asas de poeta voa-se no céu...
De tudo me redimes,
Penitência
De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irmãos,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as mãos.


Miguel Torga

Torga é o meu vício: dê as voltas que der, acabo sempre nele...

Escrivaninha disse...

E eu tenho aprendido imenso com o seu vício!
Li Torga na escola, como os outros meninos, obrigada. Mas, ao contrário de outros escritores, a que voltei mais tarde (Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e até o Júlio Dinis...), nunca voltei ao Torga.
Nunca até me armar em blogista!
Obrigada. Ambos os poemas são lindos. O Mundo como só os poetas e as crianças conseguem ver.

Ninguém.pt disse...

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.


António Gedeão

Universo somos nós, com nebulosas e tudo...