quarta-feira, 16 de junho de 2010

A tijela voadora

Isto da Felicidade é uma coisa com muito pouca explicação. Há momentos em que parece que temos tudo para ser felizes e a chamazinha não se acende, sem se vislumbrar razão para essa falta e outros, singelos, sem nada de especial (aparentemente) em que nos sentimos a irradiar luz.

Hoje à tarde eu era completamente feliz. O sol aquecia-me os ombros, a saia longa do vestido roçava-me ondulantemente os tornozelos, em cada mudança de pedal, e eu volteava, volteava, nas curvas da estrada entre a Marinha Grande e S. Pedro de Moel. De repente, eu já não estava ali, mas num longínquo Verão da minha adolescência, quando os carroceis acamparam na pequena aldeia da zona de Sintra, para as festas anuais. E eu volteei, volteei como nunca mais, numa tijela voadora.

Éramos inseparáveis as três. Elas as duas, irmãs, residentes na aldeia, eu, a forasteira de fins de semana e férias. A festa anual era uma emoção! O Rossio ficava cheio de cores e som e o cheiro do algodão doce enchia o ar durante seis ou sete dias. Naquele ano estávamos mais crescidas, sentíamo-nos muito crescidas.

O rapaz do carrocel encantou-se pelos cabelos louros da Amélia e, com uns olhos doces, pedia-nos para vir à feira, para estar na feira.

Tinha os cabelos aos caracois negros e usava sempre o mesmo blusão de ganga, já muito ruço e pequeno demais. Também ele estava a crescer...

Indicava-nos a tijela mais veloz e passava toda a volta ali perto, empurrando, dando velocidade, criando emoções que nos saíam em gritinhos agudos de donzelas indefesas.

A Amélia queria fazer-se esquiva, que parecia mal, que os pais iam trancá-la em casa...e fugia do carrocel, com os olhos baixos. Eu, ficava para trás e, furtivamente - num gesto com sabor a aventura dos livros que eu lia - ele deixava nas minhas mãos muitas senhas de cartolina, que nos garantiam muitas e muitas voltas de felicidade. Para todos.

Hoje senti-me transportada àquele carrocel, àquele Verão, à assimetria daquela situação de garotos que, todos da mesma idade, enfrentavam situações tão diferentes: ele, trabalhava sem pausas, dormia em caravanas e trocava senhas por gritinhos de emoção, nós, de férias, a crescer com a segurança da cama fôfa, da sopa quente, dos mimos dos gelados e da praia.

Foi um Verão de emoções, de olhares doces, de cumplicidades fugazes...como aquelas voltas de carrocel, numa tijela voadora.

Que será feito de todos nós? Eram 6 horas. Estacionei em frente ao mar. Completamente feliz!

2 comentários:

Ninguém.pt disse...

Mais um para o tal livrito... Já faltou mais!

Claro que não gostei... bem, talvez um pouquito, não muito.

Bons sonhos, voando em tigelas!

Ninguém.pt disse...

"Carrossel", palavra-despertador, fez-me trautear isto:

O bairro do amor

No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de cor
Por gente que sofreu por não ter ninguém
No bairro do amor o tempo morre devagar
Num cachimbo a rodar de mão em mão
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
Será que ainda cá estamos no fim do Verão?

Eh pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair um pouco
Eu sei que tu compreendes bem

No bairro do amor a vida corre sempre igual
De café em café, de bar em bar
No bairro do amor o Sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar
O bairro do amor é uma zona marginal
Onde não há hotéis, nem hospitais
No bairro do amor cada um tem que tratar
Das suas nódoas negras sentimentais

Eh pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair um pouco
Eu sei que tu compreendes bem


Jorge Palma

(Gosto bem este trovador rebelde! Aliás, gosto sempre dos rebeldes: pensam pela sua própria cabeça!)