Hoje, nas aulas, sobre o rotativismo, referi aquela deliciosa Farpa sobre os quatro partidos políticos. Antigamente lia-a nas aulas. Agora sei que ela é inacessível para a maior parte dos alunos, mas não desisto de falar dela, a propósito do rotativismo, da crítica e das pessoas que pensam Portugal (ou das pessoas que em Portugal pensam? Talvez seja a mesma coisa...)
Chegada a casa, dispus-me a ver um noticiário, para suprir a lacuna (grave, tenho consciência) de não ter ouvido ontem a comunicação ao país e de não conhecer, directamente da fonte, as medidas de austeridade que vou ter de sofrer.
Comecei, disciplinadamente, a ver o noticiário, com o respectivo destaque para o debate de hoje, transmitido, em directo pela ARtv.
Livre de decisões disciplinares, o meu espírito fugiu daqui, como quando era aluna, perante as aulas desinteressantes. De corpo sentado no sofá e olhos dirigidos para a televisão, rodei os dedos lestos pelo teclado em busca de uma referência que hoje me pareceu apelativa: O Reino da Estupidez de Jorge de Sena.
Apropriadamente num espaço chamado «o que faço eu aqui?» li um texto sobre o livro de Jorge de Sena e sobre a sua poesia, terminando nesta pérola:
"A Portugal
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. ƒÉs cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não. "
O que custa é que só nos zangamos com as pessoas ou entidades para as quais temos planos, ou fé ou expectativas. Por isso tantos nos temos zangado com a Pátria!...
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
«A nossa fruta é tão boa que a desfizemos em elogios»
São as palavras inscritas nas tacinhas de fruta esmagada, da "Sonatural", que começaram a ser comercializadas no bar da minha escola e que proporcionam excelentes sabores para as pausas entre aulas ou reuniões (com colher de plástico desmontável, para comer em qualquer lugar). Uma espécie de Blédine para adultos...
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Ironia
"Que ironia tem o tempo misterioso
Que diz que passa velozmente sempre andando,
Mas afinal esse tempo é mentiroso,
Porque ele fica e a gente é que vai passando!...
Dizem que é velho, mas o tempo é sempre novo.
Não tem idade, pois ninguém o viu nascer,
Tal como o enigma da galinha e do ovo,
Não sabe ao certo se existia antes de o ser!...
Comanda tudo sem ter dó nem piedade
E eu perplexo fico olhando sem o ver
Imutável e, sempre em celeridade.
Rendo-me enfim, pois não sei compreender,
Apenas sinto com toda a fragilidade,
Que o tempo é rei ... e de rei tem o poder!..."
Euclides Cavaco , colhido no blogue belos poetas
Que diz que passa velozmente sempre andando,
Mas afinal esse tempo é mentiroso,
Porque ele fica e a gente é que vai passando!...
Dizem que é velho, mas o tempo é sempre novo.
Não tem idade, pois ninguém o viu nascer,
Tal como o enigma da galinha e do ovo,
Não sabe ao certo se existia antes de o ser!...
Comanda tudo sem ter dó nem piedade
E eu perplexo fico olhando sem o ver
Imutável e, sempre em celeridade.
Rendo-me enfim, pois não sei compreender,
Apenas sinto com toda a fragilidade,
Que o tempo é rei ... e de rei tem o poder!..."
Euclides Cavaco , colhido no blogue belos poetas
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010
domingo, 26 de setembro de 2010
«Tell me why, I don't like mondays»
O tempo vai ficando escasso para escrever.
Encerrada em horários rígidos, foge-me a inspiração...
O trabalho acumulado em casa, sem esperança de ser realizado de semana, corta-me os passeios no mar. E eu escrevo bem é no mar, em frente ao mar, no cheiro do mar, num passeio à beira-mar.
Sinto o sol a escoar-se numa nostalgia outonal que me esfria por antecipação a vontade de caminhar, de cheirar, de escrever...
Todos os dias passo por palavras que me apetece guardar, desdobrar, conversar, recordar: o guarda-vestidos, a demasia, a iogurteira, a sombrinha...
Hoje gastei a tarde a sorver o sol de outono no meu terraço, enquanto procurava as memórias locais da república.
É estranho falar em memórias da República. Nós vivemos numa República. Desde 1910 nunca mais o país deixou de ser uma República. Mas quão esquecidos estão os ideais fundadores!...
Mergulho no dourado escuro do fim da tarde a pensar que amanhã é segunda-feira. Que tenho uma rotina pela frente. Que o despertador vai tocar amanhã e nos outros dias às sete horas, que vai estar frio, que um dia destes tenho de calçar meias e luvas, meter os pés em botas e proteger as orelhas com gorros.
Este ano não me apetecia Inverno, nem rotinas, nem horários...Queria dourar mais um bocadinho ao sol e sorver o som das gaivotas na beira-mar...
Eu não queria que amanhã fosse segunda-feira e com este não-querer perco o domingo, antecipando as contrariedades. Que desperdício!
Encerrada em horários rígidos, foge-me a inspiração...
O trabalho acumulado em casa, sem esperança de ser realizado de semana, corta-me os passeios no mar. E eu escrevo bem é no mar, em frente ao mar, no cheiro do mar, num passeio à beira-mar.
Sinto o sol a escoar-se numa nostalgia outonal que me esfria por antecipação a vontade de caminhar, de cheirar, de escrever...
Todos os dias passo por palavras que me apetece guardar, desdobrar, conversar, recordar: o guarda-vestidos, a demasia, a iogurteira, a sombrinha...
Hoje gastei a tarde a sorver o sol de outono no meu terraço, enquanto procurava as memórias locais da república.
É estranho falar em memórias da República. Nós vivemos numa República. Desde 1910 nunca mais o país deixou de ser uma República. Mas quão esquecidos estão os ideais fundadores!...
Mergulho no dourado escuro do fim da tarde a pensar que amanhã é segunda-feira. Que tenho uma rotina pela frente. Que o despertador vai tocar amanhã e nos outros dias às sete horas, que vai estar frio, que um dia destes tenho de calçar meias e luvas, meter os pés em botas e proteger as orelhas com gorros.
Este ano não me apetecia Inverno, nem rotinas, nem horários...Queria dourar mais um bocadinho ao sol e sorver o som das gaivotas na beira-mar...
Eu não queria que amanhã fosse segunda-feira e com este não-querer perco o domingo, antecipando as contrariedades. Que desperdício!
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Sons do Café
Alguém me enviou um daqueles lindos e longos powerpoints com ensinamentos para a vida. Qualquer coisa entre o bonito, o piroso e o inútil, a dizer que somos nós que fazemos o nosso destino e que perante as adversidades devemos fazer como o café que, quando enfrenta a água fervente, a transforma numa mistura saborosa e calorosa...
Enquanto via o powerpoint e avaliava a boa intenção de quem mo enviou, estando um bocadinho enfastiada, viajei até ao tempo em que o café, para mim, não era um líquido, mas um som.
Uma das minhas formas preferidas de ouvir as saudades que a minha mãe tinha do meu pai, contadas e recontadas, vezes sem conta, era quando ela tirava cuidadosamente os discos da discoteca e se deliciava com o som de cenas passadas entre eles.
Eles gostavam muito de dançar e eu quase considerava a minha mãe feliz quando ouvia «Moliendo café».
Fui então à procura desse som de domingo em família, agitando com as maracas a tristeza e a saudade reinante naquela casa, recordando cenas alegres e ruidosas, de bailes e namoros requebrados.
E, embora tenha encontrado muitas versões, esta, com o som roufenho dos discos antigos e o «grão» da gravação, foi a que melhor ilustrou os grãos de memória que foram remoídos hoje, por causa de um powerpoint que visava ensinar-me a viver de forma sempre construtiva.
Enquanto via o powerpoint e avaliava a boa intenção de quem mo enviou, estando um bocadinho enfastiada, viajei até ao tempo em que o café, para mim, não era um líquido, mas um som.
Uma das minhas formas preferidas de ouvir as saudades que a minha mãe tinha do meu pai, contadas e recontadas, vezes sem conta, era quando ela tirava cuidadosamente os discos da discoteca e se deliciava com o som de cenas passadas entre eles.
Eles gostavam muito de dançar e eu quase considerava a minha mãe feliz quando ouvia «Moliendo café».
Fui então à procura desse som de domingo em família, agitando com as maracas a tristeza e a saudade reinante naquela casa, recordando cenas alegres e ruidosas, de bailes e namoros requebrados.
E, embora tenha encontrado muitas versões, esta, com o som roufenho dos discos antigos e o «grão» da gravação, foi a que melhor ilustrou os grãos de memória que foram remoídos hoje, por causa de um powerpoint que visava ensinar-me a viver de forma sempre construtiva.
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sábado, 25 de setembro de 2010
Sábado republicano
Ando para aqui a estudar a 1ª República no distrito de Leiria. Jornais antigos para cá, jornais antigos para lá...vou-me perdendo a ler coisas que não são necessárias para o meu trabalho, mas que acho interessantes.
Uma das coisas que se foi perdendo no tempo é o hábito de versejar sobre os temas da actualidade (talvez agora tenha sido substituído pelos artigos de opinião, ou pelos cartoons, não sei...).
Sobre a reforma ortográfica de 1911 (qualquer semelhança com a realidade actual não é pura coincidência) houve discussão acesa na imprensa e, como não podia deixar de ser, alusões humorísticas à questão.
No jornal Novidades, em 1911, saiu uma dessas observações, em verso e com humor. Cá vai:
"Com a tal ortographia
que vae ser modificada
anda tudo em gritaria
e ninguém percebe nada.
Deixa o x de figurar
nos alphabetos de cá
e eu terei de me assignar
Xavier com ch.
Em tal ponto não concordo
nem a gente que me lê,
mas leitor, estou de acordo
o pôr cedilha no c.
N'outros tempos em folia
já o Banana, coitado
quando chouriço escrevia
punha-lhe um c cedilhado."
reproduzido no Notícias de Alcobaça, de 14 de Maio de 1911 e citado na publicação Ecos do Século XX, Distrito de Leiria, p. 22
Uma das coisas que se foi perdendo no tempo é o hábito de versejar sobre os temas da actualidade (talvez agora tenha sido substituído pelos artigos de opinião, ou pelos cartoons, não sei...).
Sobre a reforma ortográfica de 1911 (qualquer semelhança com a realidade actual não é pura coincidência) houve discussão acesa na imprensa e, como não podia deixar de ser, alusões humorísticas à questão.
No jornal Novidades, em 1911, saiu uma dessas observações, em verso e com humor. Cá vai:
"Com a tal ortographia
que vae ser modificada
anda tudo em gritaria
e ninguém percebe nada.
Deixa o x de figurar
nos alphabetos de cá
e eu terei de me assignar
Xavier com ch.
Em tal ponto não concordo
nem a gente que me lê,
mas leitor, estou de acordo
o pôr cedilha no c.
N'outros tempos em folia
já o Banana, coitado
quando chouriço escrevia
punha-lhe um c cedilhado."
reproduzido no Notícias de Alcobaça, de 14 de Maio de 1911 e citado na publicação Ecos do Século XX, Distrito de Leiria, p. 22
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