Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Último dia de trabalho de um ano longo, sofrido, arrastado, sombrio.
Na Escola quase vazia instalei-me numa mesa ampla, separei as folhas por grupos e preparei-me para ir recebendo os Encarregados de Educação que por lá foram passando durante a manhã a levantar as notas, a comentar os exames, a despedir-se da Diretora de Turma de 3 anos.
Estávamos todos muito contentes: os meninos cresceram tanto!
Estávamos todos um pouco receosos: como irão enfrentar a próxima etapa?
Estávamos todos um pouco tristes: Já estávamos habituados uns aos outros...será que os próximos Encarregados de Educação e o próximo Diretor de Turma serão melhores ou piores?
Alguma coisa acabava ali. Alguma coisa que nos tinha unido durante três anos.
Sim: todos os meninos que acompanhei nestes anos estão passados e encaminhados na vida.
Vozes embargadas e espreita uma emoção líquida algures.
Já não devia ser assim, penso. Já faço isto há tantos anos.
Depois ficaram os papeis. As cópias dos que vieram, os originais e cópias dos que não puderam por cá passar hoje.
O dossier e o cacifo têm de ser limpos, preparados para receber o próximo ano, a próxima leva, as próximas fornadas.
Ecoava ainda no ar a frase que eu mais gosto de dizer à maior parte dos Encarregados de Educação: "Foi um privilégio ser professora do seu filho".
Na maior parte dos casos consigo aplicá-la com toda a propriedade.
Para os outros algo de mais suave: "Continuo por aqui se for preciso alguma coisa. Um beijinho ao menino ou menina."
máquina trituradora de papel ajudou-me a terminar a limpeza: tanto papel acumulamos. Os rascunhos são agora todos destruídos. Os originais arquivados.
Sinto-me uma criminosa a destruir provas.
Penso com saudade nas nossas aulas.
De certa maneira até sou uma criminosa. Num tempo tão desumanizado, tão economicista, eu insisto em ter prazer em ensinar, em perder tempo a falar com eles ou a ficar em silêncio a vê-los crescer. Sou culpada, sim. Tenho medo de um dia me deixar absolver pelo sistema. Absolver, sim. Enquanto ele me considerar culpada é porque não me engoliu.
Deixo correr uma lágrima.
Estou sozinha...
Tão sozinha quando as salas de aula ficam vazias. Os corredores da escola se agigantam e não há ninguém para mandar calar, nenhum barulho para lamentar a ausência de silêncio.
Todos os anos recordo a frase: Uma escola sem alunos é um navio fantasma.
Chovem as orientações para o próximo ano, já me enviaram o calendário escolar para 2014/15.
Quero lá saber!
Chegando a casa abro a página de Facebook e adiciono-os todos como amigos. Agora já não tenho que lhes repreender nada. Agora quero viver dos rendimentos, desta nossa amizade construída de muitos ralhetes e muitos conselhos de três anos.
Agora vou somar amigos e gozar férias!
Na Escola quase vazia instalei-me numa mesa ampla, separei as folhas por grupos e preparei-me para ir recebendo os Encarregados de Educação que por lá foram passando durante a manhã a levantar as notas, a comentar os exames, a despedir-se da Diretora de Turma de 3 anos.
Estávamos todos muito contentes: os meninos cresceram tanto!
Estávamos todos um pouco receosos: como irão enfrentar a próxima etapa?
Estávamos todos um pouco tristes: Já estávamos habituados uns aos outros...será que os próximos Encarregados de Educação e o próximo Diretor de Turma serão melhores ou piores?
Alguma coisa acabava ali. Alguma coisa que nos tinha unido durante três anos.
Sim: todos os meninos que acompanhei nestes anos estão passados e encaminhados na vida.
Vozes embargadas e espreita uma emoção líquida algures.
Já não devia ser assim, penso. Já faço isto há tantos anos.
Depois ficaram os papeis. As cópias dos que vieram, os originais e cópias dos que não puderam por cá passar hoje.
O dossier e o cacifo têm de ser limpos, preparados para receber o próximo ano, a próxima leva, as próximas fornadas.
Ecoava ainda no ar a frase que eu mais gosto de dizer à maior parte dos Encarregados de Educação: "Foi um privilégio ser professora do seu filho".
Na maior parte dos casos consigo aplicá-la com toda a propriedade.
Para os outros algo de mais suave: "Continuo por aqui se for preciso alguma coisa. Um beijinho ao menino ou menina."
máquina trituradora de papel ajudou-me a terminar a limpeza: tanto papel acumulamos. Os rascunhos são agora todos destruídos. Os originais arquivados.
Sinto-me uma criminosa a destruir provas.
Penso com saudade nas nossas aulas.
De certa maneira até sou uma criminosa. Num tempo tão desumanizado, tão economicista, eu insisto em ter prazer em ensinar, em perder tempo a falar com eles ou a ficar em silêncio a vê-los crescer. Sou culpada, sim. Tenho medo de um dia me deixar absolver pelo sistema. Absolver, sim. Enquanto ele me considerar culpada é porque não me engoliu.
Deixo correr uma lágrima.
Estou sozinha...
Tão sozinha quando as salas de aula ficam vazias. Os corredores da escola se agigantam e não há ninguém para mandar calar, nenhum barulho para lamentar a ausência de silêncio.
Todos os anos recordo a frase: Uma escola sem alunos é um navio fantasma.
Chovem as orientações para o próximo ano, já me enviaram o calendário escolar para 2014/15.
Quero lá saber!
Chegando a casa abro a página de Facebook e adiciono-os todos como amigos. Agora já não tenho que lhes repreender nada. Agora quero viver dos rendimentos, desta nossa amizade construída de muitos ralhetes e muitos conselhos de três anos.
Agora vou somar amigos e gozar férias!
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Quando encontro alguém sábio e humilde (talvez esta expressão seja até um pleonasmo) disposto a ensinar-me alguma coisa é um fascínio. Um fascínio mesmo!
Gosto de pessoas mais velhas pela experiência e calma que transmitem, pelo muito que sabem ensinar, pela consciência que têm da sua importância na transmissão do saber.
Os que têm...
Aumenta então o fascínio quando encontro pessoas destas, que saem da mediocridade geral, que se deslocam de uma artificial centração nos afazeres do dia-a-dia e se sentam comigo, a conversar, a ensinar, a partilhar, a passar o conhecimento, a ajudar-me a crescer.
Hoje foi uma manhã assim: fascinante!
Gosto de pessoas mais velhas pela experiência e calma que transmitem, pelo muito que sabem ensinar, pela consciência que têm da sua importância na transmissão do saber.
Os que têm...
Aumenta então o fascínio quando encontro pessoas destas, que saem da mediocridade geral, que se deslocam de uma artificial centração nos afazeres do dia-a-dia e se sentam comigo, a conversar, a ensinar, a partilhar, a passar o conhecimento, a ajudar-me a crescer.
Hoje foi uma manhã assim: fascinante!
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segunda-feira, 23 de junho de 2014
Um discurso da identidade
"Para mim a grande revolução é ir às raízes, reconhecê-las e dizer o que essas raízes significam na atualidade. (...) [A partir das raízes] dialogar com os desafios que se vão apresentando. (...) Ou seja, não há contradição entre ser revolucionário e ir às raízes. Creio mesmo que a maneira de fazer verdadeiras mudanças é seguir a nossa identidade. Por exemplo, o diálogo inter-religioso: não se pode dialogar se não fizer parte da nossa identidade (...) e descobrir a identidade é ir às fontes. Nunca se pode dar um passo na vida se ele não vier de trás. Ou seja é preciso saber de onde venho, que apelido tenho, apelido cultural, ou religioso.
(...)
No centro de todo o sistema económico tem de estar o homem. O homem e a mulher. E tudo deveria estar ao serviço do homem, mas agora no centro está o dinheiro. O deus dinheiro.(...) E por esse afã de querer mais, de ter mais, toda a economia se move descartando - é curioso...Há uma cultura de descarte.Descartam-se as crianças, ou porque se descarta a natalidade (...) descartam-se os velhos. Já não servem, não produzem. É uma classe passiva. E ao descartar as crianças e os velhos, descarta-se o futuro de um povo, porque eles são o futuro de um povo.As crianças são os que vão dar continuidade e os velhos porque são quem nos dá a sabedoria, são os que têm a memória desse povo e têm de a transmitir às crianças. (...)
E a par disto este pensamento único, que nos tiar a a riqueza da diversidade de pensamento e por isso de um diálogo entre as pessoas.
E uma globalização mal compreendida. Uma globalização bem compreendida é uma riqueza. E uma globalização mal compreendida para mim é uma esfera, em que todos os pontos são iguais, todos equidistantes do centro, portanto, é anulada toda a individualidade. Uma globalização que enriqueça é como um poliedro: todos unidos,, mas cada qual conservando as suas particularidades, a sua riqueza, a sua identidade.
E isto não acontece.
Por isso o pensamento único é um sistema económico mau, e digo que é de idolatria porque sacrifica o homem em favor do ídolo dinheiro, não é?"
Entrevista de Henrique Cymmerman ao Papa Francisco, 17 de Junho de 2014, Sic Notícias
(...)
No centro de todo o sistema económico tem de estar o homem. O homem e a mulher. E tudo deveria estar ao serviço do homem, mas agora no centro está o dinheiro. O deus dinheiro.(...) E por esse afã de querer mais, de ter mais, toda a economia se move descartando - é curioso...Há uma cultura de descarte.Descartam-se as crianças, ou porque se descarta a natalidade (...) descartam-se os velhos. Já não servem, não produzem. É uma classe passiva. E ao descartar as crianças e os velhos, descarta-se o futuro de um povo, porque eles são o futuro de um povo.As crianças são os que vão dar continuidade e os velhos porque são quem nos dá a sabedoria, são os que têm a memória desse povo e têm de a transmitir às crianças. (...)
E a par disto este pensamento único, que nos tiar a a riqueza da diversidade de pensamento e por isso de um diálogo entre as pessoas.
E uma globalização mal compreendida. Uma globalização bem compreendida é uma riqueza. E uma globalização mal compreendida para mim é uma esfera, em que todos os pontos são iguais, todos equidistantes do centro, portanto, é anulada toda a individualidade. Uma globalização que enriqueça é como um poliedro: todos unidos,, mas cada qual conservando as suas particularidades, a sua riqueza, a sua identidade.
E isto não acontece.
Por isso o pensamento único é um sistema económico mau, e digo que é de idolatria porque sacrifica o homem em favor do ídolo dinheiro, não é?"
Entrevista de Henrique Cymmerman ao Papa Francisco, 17 de Junho de 2014, Sic Notícias
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domingo, 22 de junho de 2014
Em Congresso
"Lembram-se do processo de democratização das escolas? - a conferencista fez uma pausa para criar mais impacto na audiência.
Mais depressa do que pude pensar, disse: Ponho-lhe flores na lápide todos os dias.
De acordo com o país progressivamente cinzentudo em que nos vamos retornando, ninguém se riu, ninguém disse nada...
E a conferencista prosseguiu a sua prédica."
Mais depressa do que pude pensar, disse: Ponho-lhe flores na lápide todos os dias.
De acordo com o país progressivamente cinzentudo em que nos vamos retornando, ninguém se riu, ninguém disse nada...
E a conferencista prosseguiu a sua prédica."
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sábado, 14 de junho de 2014
As havaianas
são a maior invenção do Homem, após a roda.
Verão!
Verão!
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sábado, 7 de junho de 2014
Tempo de despedidas
Últimas aulas da disciplina de História de 9º ano. Para muitos as últimas aulas da disciplina de História na vida (mas não as últimas lições da História, assim espero).
Concentramo-nos nas páginas do manual que levantam mais questões e preocupações do que fornecem respostas. Chamo-lhes à atenção para os desenvolvimentos da Ciência, da Técnica e da Tecnologia que têm de ser geridos com muito cuidado, para as questões éticas que os limites, ou falta deles, num tal desenvolvimento levantam. Até onde podemos ir? Até onde devemos ir? A quem podemos e devemos entregar todas estas imensas possibilidades.
"-A clonagem, por exemplo. Estão a ver a ovelha Dolly, que todos conhecem. A clonagem levanta muitos problemas. Será possível/desejável clonar seres humanos? - pausa - Imaginem o perigo de possibilidades como estas em mãos erradas: imaginem, por exemplo, se um homem como Hitler dispusesse destas possibilidades de clonagem."
Gerou-se um momento dramático. Todos eles tinham trabalhado o tema do Holocausto e pareciam naquele momento sentir o peso daquela herança sobre os ombros.
Era isso mesmo que eu queria. Que eles - que irão agora começar a escolher as suas profissões - tivessem a noção da responsabilidade do uso do conhecimento.
O ambiente pesado da sala foi interrompido pelo N, aluno da última fila: "- Acha mesmo que ele conseguiria fazer um exército só de ovelhas?"
A explosão de risos que se seguiu limpou o drama da sala e transportou-nos para a alegria que marcara a maioria das nossas aulas e que marcava agora os desejos de felicidade com que me despedia deles.
Ficou só por falar que, por detrás do optimismo com que lhes assinalo sempre o progresso que vimos atingindo, está o desespero desse desenvolvimento ter ainda muitas limitações...não ter conseguido, por exemplo, a cura para o cancro que este ano venceu o Diogo, colega desta turma.
As despedidas deixam-me cada vez mais triste!
Concentramo-nos nas páginas do manual que levantam mais questões e preocupações do que fornecem respostas. Chamo-lhes à atenção para os desenvolvimentos da Ciência, da Técnica e da Tecnologia que têm de ser geridos com muito cuidado, para as questões éticas que os limites, ou falta deles, num tal desenvolvimento levantam. Até onde podemos ir? Até onde devemos ir? A quem podemos e devemos entregar todas estas imensas possibilidades.
"-A clonagem, por exemplo. Estão a ver a ovelha Dolly, que todos conhecem. A clonagem levanta muitos problemas. Será possível/desejável clonar seres humanos? - pausa - Imaginem o perigo de possibilidades como estas em mãos erradas: imaginem, por exemplo, se um homem como Hitler dispusesse destas possibilidades de clonagem."
Gerou-se um momento dramático. Todos eles tinham trabalhado o tema do Holocausto e pareciam naquele momento sentir o peso daquela herança sobre os ombros.
Era isso mesmo que eu queria. Que eles - que irão agora começar a escolher as suas profissões - tivessem a noção da responsabilidade do uso do conhecimento.
O ambiente pesado da sala foi interrompido pelo N, aluno da última fila: "- Acha mesmo que ele conseguiria fazer um exército só de ovelhas?"
A explosão de risos que se seguiu limpou o drama da sala e transportou-nos para a alegria que marcara a maioria das nossas aulas e que marcava agora os desejos de felicidade com que me despedia deles.
Ficou só por falar que, por detrás do optimismo com que lhes assinalo sempre o progresso que vimos atingindo, está o desespero desse desenvolvimento ter ainda muitas limitações...não ter conseguido, por exemplo, a cura para o cancro que este ano venceu o Diogo, colega desta turma.
As despedidas deixam-me cada vez mais triste!
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