| Oviedo, Astúrias, Espanha |
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sábado, 16 de agosto de 2014
No regresso
Não sei quando é que comecei a gostar de viagens, mas foi certamente muito antes de as experimentar. Recordo os livros "Céu Aberto" e "Em Pleno Azul" que contavam as histórias de uma família em viagens. Havia um tio (solteiro e intelectual), o tio Jeremias, que ia explicando, por vezes de maneiras pouco ortodoxas, os lugares, as cidades, os monumentos, aos jovens da família. Foi lá que aprendi que a Itália é uma bota que está a dar um pontapé à Sicília. Depois lembro-me de uma série de televisão que se chamava "Dois Anos de Férias" e consistia no relato das aventuras de um grupo de jovens num navio que fica desgovernado ou qualquer coisa assim, que agora me aprece um pouco inverosímil, mas que me prendia ao écran. Para não falar de Marco Pólo, que durante muito tempo julguei ser uma personagem de ficção ou de Sandokhan. E havia, antes de tudo isso, o Vickie, a Heidi e o Marco, que falavam de paisagens distantes. E a Música no Coração, que começa e termina em paisagens soberbas.
Depois há a compreensão de que as viagens físicas, que implicam uma deslocação, são também (ou sobretudo?) viagens interiores, aberturas de espírito, momentos de questionamento e, sempre, de aprendizagem.
Comecei a viajar tarde, se não contarmos as viagens nas páginas dos livros e os sonhos de tapete voador.
As viagens sempre me fascinam. Cada viagem é um momento mágico, cheio de emoções, de reflexões, de sentimentos à flor da pele, de querer muito que os momentos sejam perfeitos, porque poderá ser a única vez ali, mas, mesmo que assim não seja, será sempre a primeira vez.
Estar nos locais onde as coisas aconteceram; tentar apreender o espírito dos locais; compreender o passado, a espessura daquele local, uma densidade histórica, emocional, um magnetismo que atrai ali muita gente. O que atrai as pessoas ao local? Qual o papel da História contada na mística dos locais? Que faço eu ali? Porque escolhi aquele local e não outro? Como faço eu parte desse local, como faz esse local parte de mim?
Agora faz. Mas, dantes, já fazia, porque era um desejo meu estar ali...
Venho de uma viagem planeada. Foi uma emoção muito grande poder estar em certos locais, conhecer espaços e histórias e espaços da História que há muito sentia que queria conhecer.
Envolvida na emoção da viagem dou por mim no regresso. E compreendo que o regresso também é uma parte importante da viagem.
O regresso poderia ser o motivo de uma viagem. Só partindo podemos regressar. E só regressando avaliamos as coisas de uma outra forma. As rotinas que nos oprimiam podem ser, de certa maneira, uma segurança no nosso dia a dia; a casa que nos ocupava tempo de mais pode ser uma surpresa acolhedora. Parar para olhar à volta. Parar para recomeçar, com outro ânimo, com outra perspetiva. Parar para poder andar. Partir para poder voltar. Sair para compreender o interior.
Não tinha percebido a importância da fruta e dos iogurtes na minha alimentação, no meu dia a dia. Fizeram-me falta: é porque são importantes. Foram as primeiras compras do dia.
O dia do regresso foi passado a namorar com a casa; a recuperar a energia que me faltava há duas semanas atrás, quando estava farta, quando queria partir (e nem sabia que queria voltar).
Para remate da noite abro o doce de goiaba que trouxe de outras viagens (que arrumara na despensa noutro regresso); não gosto do sabor dele sozinho, falta-lhe qualquer coisa...Lembro-me do costume aprendido nesta viagem, trazido agora mesmo neste regresso: tostadas com mantequilla e marmelada. Que bem ficam as tostas com a manteiga e o doce de goiaba por cima. Bato com os olhos na garrafa do néctar do Douro que estava intocada por falta de tempo para a apreciar condignamente. A mesa está composta.
As gatas estão no sofá, enroscadas, mas ouve-se o seu suave rom-rom, celebração do meu regresso.
Olho a mesa: celebração de viagens, de amizade, de regressos, de ser, ter e haver.
Ergo o copo: A todo o contexto - ao partir, ao voltar, ao crescer, ao ser possível.
Agora, tudo parece possível, quando há bem pouco tempo o cansaço alimentava as dúvidas.
Ergo o copo: aos regressos e aos recomeços! Ao ter para onde regressar e onde recomeçar!
Ao querer partir para querer regressar!
Depois há a compreensão de que as viagens físicas, que implicam uma deslocação, são também (ou sobretudo?) viagens interiores, aberturas de espírito, momentos de questionamento e, sempre, de aprendizagem.
Comecei a viajar tarde, se não contarmos as viagens nas páginas dos livros e os sonhos de tapete voador.
As viagens sempre me fascinam. Cada viagem é um momento mágico, cheio de emoções, de reflexões, de sentimentos à flor da pele, de querer muito que os momentos sejam perfeitos, porque poderá ser a única vez ali, mas, mesmo que assim não seja, será sempre a primeira vez.
Estar nos locais onde as coisas aconteceram; tentar apreender o espírito dos locais; compreender o passado, a espessura daquele local, uma densidade histórica, emocional, um magnetismo que atrai ali muita gente. O que atrai as pessoas ao local? Qual o papel da História contada na mística dos locais? Que faço eu ali? Porque escolhi aquele local e não outro? Como faço eu parte desse local, como faz esse local parte de mim?
Agora faz. Mas, dantes, já fazia, porque era um desejo meu estar ali...
Venho de uma viagem planeada. Foi uma emoção muito grande poder estar em certos locais, conhecer espaços e histórias e espaços da História que há muito sentia que queria conhecer.
Envolvida na emoção da viagem dou por mim no regresso. E compreendo que o regresso também é uma parte importante da viagem.
O regresso poderia ser o motivo de uma viagem. Só partindo podemos regressar. E só regressando avaliamos as coisas de uma outra forma. As rotinas que nos oprimiam podem ser, de certa maneira, uma segurança no nosso dia a dia; a casa que nos ocupava tempo de mais pode ser uma surpresa acolhedora. Parar para olhar à volta. Parar para recomeçar, com outro ânimo, com outra perspetiva. Parar para poder andar. Partir para poder voltar. Sair para compreender o interior.
Não tinha percebido a importância da fruta e dos iogurtes na minha alimentação, no meu dia a dia. Fizeram-me falta: é porque são importantes. Foram as primeiras compras do dia.
O dia do regresso foi passado a namorar com a casa; a recuperar a energia que me faltava há duas semanas atrás, quando estava farta, quando queria partir (e nem sabia que queria voltar).
Para remate da noite abro o doce de goiaba que trouxe de outras viagens (que arrumara na despensa noutro regresso); não gosto do sabor dele sozinho, falta-lhe qualquer coisa...Lembro-me do costume aprendido nesta viagem, trazido agora mesmo neste regresso: tostadas com mantequilla e marmelada. Que bem ficam as tostas com a manteiga e o doce de goiaba por cima. Bato com os olhos na garrafa do néctar do Douro que estava intocada por falta de tempo para a apreciar condignamente. A mesa está composta.
As gatas estão no sofá, enroscadas, mas ouve-se o seu suave rom-rom, celebração do meu regresso.
Olho a mesa: celebração de viagens, de amizade, de regressos, de ser, ter e haver.
Ergo o copo: A todo o contexto - ao partir, ao voltar, ao crescer, ao ser possível.
Agora, tudo parece possível, quando há bem pouco tempo o cansaço alimentava as dúvidas.
Ergo o copo: aos regressos e aos recomeços! Ao ter para onde regressar e onde recomeçar!
Ao querer partir para querer regressar!
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domingo, 3 de agosto de 2014
Férias
"- Uma terra chamada Álamo?
- É um nome estranho...aqui no Alentejo...
- Um álamo é uma árvore. Não sei bem que árvore é...tenho ideia que é de sombra, alta...Hum: uma alameda deve ser um espaço ladeado de álamos, não vos parece?"
Ninguém pareceu muito entusiasmado com a questão, na viagem pacata, em que tentávamos esquecer a falta de sol numa semana inteirinha de Algarve. Mas eu fui agora verificar e é mesmo: Uma alameda é um espaço ladeado por árvores de sombra, por exemplo, álamos.
"Ala moço, que se faz tarde!", dizia a minha avó.
Há tanto tempo que não tinha tempo para me enredar nas palavras, para me embalar nos sons e para descobrir as similitudes só porque é bom!
- É um nome estranho...aqui no Alentejo...
- Um álamo é uma árvore. Não sei bem que árvore é...tenho ideia que é de sombra, alta...Hum: uma alameda deve ser um espaço ladeado de álamos, não vos parece?"
Ninguém pareceu muito entusiasmado com a questão, na viagem pacata, em que tentávamos esquecer a falta de sol numa semana inteirinha de Algarve. Mas eu fui agora verificar e é mesmo: Uma alameda é um espaço ladeado por árvores de sombra, por exemplo, álamos.
"Ala moço, que se faz tarde!", dizia a minha avó.
Há tanto tempo que não tinha tempo para me enredar nas palavras, para me embalar nos sons e para descobrir as similitudes só porque é bom!
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sábado, 2 de agosto de 2014
Mais mau que o tempo
Eu sei que não devia; não é cristão, não é bonito, não fica nem parece bem, mas...a única coisa que me agrada neste tempo é que o Passos começou ontem as férias no Algarve.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Último dia de trabalho de um ano longo, sofrido, arrastado, sombrio.
Na Escola quase vazia instalei-me numa mesa ampla, separei as folhas por grupos e preparei-me para ir recebendo os Encarregados de Educação que por lá foram passando durante a manhã a levantar as notas, a comentar os exames, a despedir-se da Diretora de Turma de 3 anos.
Estávamos todos muito contentes: os meninos cresceram tanto!
Estávamos todos um pouco receosos: como irão enfrentar a próxima etapa?
Estávamos todos um pouco tristes: Já estávamos habituados uns aos outros...será que os próximos Encarregados de Educação e o próximo Diretor de Turma serão melhores ou piores?
Alguma coisa acabava ali. Alguma coisa que nos tinha unido durante três anos.
Sim: todos os meninos que acompanhei nestes anos estão passados e encaminhados na vida.
Vozes embargadas e espreita uma emoção líquida algures.
Já não devia ser assim, penso. Já faço isto há tantos anos.
Depois ficaram os papeis. As cópias dos que vieram, os originais e cópias dos que não puderam por cá passar hoje.
O dossier e o cacifo têm de ser limpos, preparados para receber o próximo ano, a próxima leva, as próximas fornadas.
Ecoava ainda no ar a frase que eu mais gosto de dizer à maior parte dos Encarregados de Educação: "Foi um privilégio ser professora do seu filho".
Na maior parte dos casos consigo aplicá-la com toda a propriedade.
Para os outros algo de mais suave: "Continuo por aqui se for preciso alguma coisa. Um beijinho ao menino ou menina."
máquina trituradora de papel ajudou-me a terminar a limpeza: tanto papel acumulamos. Os rascunhos são agora todos destruídos. Os originais arquivados.
Sinto-me uma criminosa a destruir provas.
Penso com saudade nas nossas aulas.
De certa maneira até sou uma criminosa. Num tempo tão desumanizado, tão economicista, eu insisto em ter prazer em ensinar, em perder tempo a falar com eles ou a ficar em silêncio a vê-los crescer. Sou culpada, sim. Tenho medo de um dia me deixar absolver pelo sistema. Absolver, sim. Enquanto ele me considerar culpada é porque não me engoliu.
Deixo correr uma lágrima.
Estou sozinha...
Tão sozinha quando as salas de aula ficam vazias. Os corredores da escola se agigantam e não há ninguém para mandar calar, nenhum barulho para lamentar a ausência de silêncio.
Todos os anos recordo a frase: Uma escola sem alunos é um navio fantasma.
Chovem as orientações para o próximo ano, já me enviaram o calendário escolar para 2014/15.
Quero lá saber!
Chegando a casa abro a página de Facebook e adiciono-os todos como amigos. Agora já não tenho que lhes repreender nada. Agora quero viver dos rendimentos, desta nossa amizade construída de muitos ralhetes e muitos conselhos de três anos.
Agora vou somar amigos e gozar férias!
Na Escola quase vazia instalei-me numa mesa ampla, separei as folhas por grupos e preparei-me para ir recebendo os Encarregados de Educação que por lá foram passando durante a manhã a levantar as notas, a comentar os exames, a despedir-se da Diretora de Turma de 3 anos.
Estávamos todos muito contentes: os meninos cresceram tanto!
Estávamos todos um pouco receosos: como irão enfrentar a próxima etapa?
Estávamos todos um pouco tristes: Já estávamos habituados uns aos outros...será que os próximos Encarregados de Educação e o próximo Diretor de Turma serão melhores ou piores?
Alguma coisa acabava ali. Alguma coisa que nos tinha unido durante três anos.
Sim: todos os meninos que acompanhei nestes anos estão passados e encaminhados na vida.
Vozes embargadas e espreita uma emoção líquida algures.
Já não devia ser assim, penso. Já faço isto há tantos anos.
Depois ficaram os papeis. As cópias dos que vieram, os originais e cópias dos que não puderam por cá passar hoje.
O dossier e o cacifo têm de ser limpos, preparados para receber o próximo ano, a próxima leva, as próximas fornadas.
Ecoava ainda no ar a frase que eu mais gosto de dizer à maior parte dos Encarregados de Educação: "Foi um privilégio ser professora do seu filho".
Na maior parte dos casos consigo aplicá-la com toda a propriedade.
Para os outros algo de mais suave: "Continuo por aqui se for preciso alguma coisa. Um beijinho ao menino ou menina."
máquina trituradora de papel ajudou-me a terminar a limpeza: tanto papel acumulamos. Os rascunhos são agora todos destruídos. Os originais arquivados.
Sinto-me uma criminosa a destruir provas.
Penso com saudade nas nossas aulas.
De certa maneira até sou uma criminosa. Num tempo tão desumanizado, tão economicista, eu insisto em ter prazer em ensinar, em perder tempo a falar com eles ou a ficar em silêncio a vê-los crescer. Sou culpada, sim. Tenho medo de um dia me deixar absolver pelo sistema. Absolver, sim. Enquanto ele me considerar culpada é porque não me engoliu.
Deixo correr uma lágrima.
Estou sozinha...
Tão sozinha quando as salas de aula ficam vazias. Os corredores da escola se agigantam e não há ninguém para mandar calar, nenhum barulho para lamentar a ausência de silêncio.
Todos os anos recordo a frase: Uma escola sem alunos é um navio fantasma.
Chovem as orientações para o próximo ano, já me enviaram o calendário escolar para 2014/15.
Quero lá saber!
Chegando a casa abro a página de Facebook e adiciono-os todos como amigos. Agora já não tenho que lhes repreender nada. Agora quero viver dos rendimentos, desta nossa amizade construída de muitos ralhetes e muitos conselhos de três anos.
Agora vou somar amigos e gozar férias!
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Quando encontro alguém sábio e humilde (talvez esta expressão seja até um pleonasmo) disposto a ensinar-me alguma coisa é um fascínio. Um fascínio mesmo!
Gosto de pessoas mais velhas pela experiência e calma que transmitem, pelo muito que sabem ensinar, pela consciência que têm da sua importância na transmissão do saber.
Os que têm...
Aumenta então o fascínio quando encontro pessoas destas, que saem da mediocridade geral, que se deslocam de uma artificial centração nos afazeres do dia-a-dia e se sentam comigo, a conversar, a ensinar, a partilhar, a passar o conhecimento, a ajudar-me a crescer.
Hoje foi uma manhã assim: fascinante!
Gosto de pessoas mais velhas pela experiência e calma que transmitem, pelo muito que sabem ensinar, pela consciência que têm da sua importância na transmissão do saber.
Os que têm...
Aumenta então o fascínio quando encontro pessoas destas, que saem da mediocridade geral, que se deslocam de uma artificial centração nos afazeres do dia-a-dia e se sentam comigo, a conversar, a ensinar, a partilhar, a passar o conhecimento, a ajudar-me a crescer.
Hoje foi uma manhã assim: fascinante!
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