as gatas ainda brincam com as etiquetas que atestam a viagem, penduradas nas malas que ocupam um dos sofás da sala, com as "lembranças" ainda por dividir, decidir e entregar.
A vida vai voltando ao normal.
O ritmo de lhes dar comida de manhã e à noite, voltar a fazer compras, ir preenchendo a agenda com os procedimentos pedagoburocráticos, alguns testes e anotações várias que a catadupa de assuntos que marca o início do ano letivo perturba a memória, mesmo quando metódica e em forma.
É necessário hierarquizar os assuntos. E arrumar expectativas e esperanças para tempos mais oportunos.
Hoje foi um dia especial para isso.
Estreei o top pintado à mão que comprei em Paraty. Paraty onde aspirava o ar bem fundo para ver se absorvia a genialidade que por ali deve pairar desde que, há vários anos, ali se realiza uma festa literária de renome. Leio-a, vejo-a (e invejo-a, confesso) na Revista Ler. Não posso lá estar na altura certa, que um dos espartilhos da minha profissão é a obrigatoriedade de férias no Verão. Quando a oportunidade da viagem surgiu foi o nome de Paraty que se me impôs.
A vila histórica é linda!
À laia de consolação havia uma festa de música que enchia as ruas de ritmos, risos e artesanato a enfiar-se-nos pelo desejo dentro, tentando a generosa vontade de viajante de trazer consigo um pedaço da viagem.
Cores, tons, sons, cheiros. Viajar é toda essa vertigem de sentidos. E realizar sonhos. E ser feliz. E estar ali. E desfrutar.
O mar era uma edição de luxo das páginas de A Volta ao Mundo. O sol uma carícia irreal.
- Portuguesas? O meu avô também veio de lá. Foram muitos dias de viagem. Mas ele queria ter voltado.
E o sorriso tinha um ar de família.
- De onde são? Esse\sotaque de que zona é?
- Ah, Portugal! Eu quero muito visitar.
O carinho é muito, os sorrisos sinceros, os abraços são longos, as conversas fluem, com as diferenças que o oceano não lavou completamente.
E era uma felicidade só!
Mas eu queria falar de hoje.
Mas foi o top de Paraty e eu já a fugir de recuo para as férias, que poderiam ter sido mais longas...
Hoje, dizia eu, a tarde fez-se de literatura e pintura, tudo exposto pelas ruas de Leiria, com direito a visita guiada à Rota do Crime do Padre Amaro.
As telas - seriam telões no Brasil - ocupam em sequência vários lugares da cidade. Aqui e ali irrompem com apontamentos dramatizados os membros do grupo de teatro que nos assustam, nos agitam, nos fazem rir.
As conversas paralelas ou oblíquas vão-se ouvindo. A determinada altura estamos todos a evocar os quadros de Paula Rego e a notar a evolução posterior da pintora em causa - uma luso-francesa que trabalhou anos no projeto - cuja última tela se distingue das outras no estilo, na expressividade.
Penso numa certa cultura artística que afinal todos vamos tendo. Penso na imagem de um artista. Penso no cruzamento das artes: o livro interpretado em telas cujas legendas são as citações da obra literária.
A passagem de Eça pela administração do concelho foi o pretexto para a organização da rota a partir de uma obra explicitamente situada em diversos locais da cidade.
Ler uma cidade. Cruzar patrimónios. Escrever. Ficar na História. Estar lá para ser lido e questionado tantos anos depois.
"Em 1872 estabeleceu-se a Comuna de Paris. A primeira experiência de uma república popular, socialista", foi qualquer coisa assim que o Professor disse.
Antes falara o Presidente da Câmara, recandidato nas próximas autárquicas.
Pensei na carreira política e diplomática de Eça, navegando no seio de uma sociedade hipócrita que desvendava de forma crítica e da qual participava de forma consciente.
Mudámos alguma coisa?
Se calhar não.
Saudades de lá. Do outro mundo da Língua Portuguesa. De uma rota dos nossos avós bifurcada por uma viagem de fuga, não, retirada estratégica, não, ultimamente enfatiza-se a inteligência da derrota infligida a Napoleão, cujas tropas ficaram literalmente a ver navios.
E o povo, senhores?
Espoliado por franceses e ingleses mirava o mar com amor e raiva, sabendo que lhes sugara a liderança e a esperança de riqueza.
Sacrifícios necessários.
Ontem, como hoje. Lá, como cá.
A vida vai voltando ao normal depois do turbilhão da viagem, da emoção do reencontro com um passado português que nos foi subtraído por imperativos politico-económicos.
Como seria se fôssemos todos índios?
Como seria se tivéssemos nascido do outro lado do Atlântico? Se fôssemos negros? Se tivéssemos sido feito escravos, forçados a trabalhar num continente distante?
Como seria se não tivesse sido como foi?
Se tivesse sido ao contrário?
A viagem agita-nos por dentro, muito depois de estarmos a cumprir horários, a desenvolver rotinas. A viagem viaja-nos para sempre.
Na realidade, acho que nunca recuperamos de uma viagem, felizmente.
A viagem agita-nos para sempre. A viagem muda-nos, molda-nos, rapta-nos para sermos também o outro que conhecemos.
Diz o mundo "Nunca mais serás o mesmo" porque na realidade serás tu e os outros a partir dessa viagem que é sobretudo interior, para o passado, para a História, para fora de nós porque dentro de nós.
Cá por casa viaja-se na saudade, no sonho, na inquietação de querermos ser todos os que somos sobretudo a partir de agora. Da viagem que terminou, mas nunca mais terminará.
É agora uma tatuagem permanente, mesmo estando eu aqui por casa.
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sábado, 14 de setembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Peter Pan
Faz já tantos anos da primeira vez que fui para a Escola.
A minha entrada na Escola foi preparada com mestria, pompa e circunstância.
A pasta verde-esperança trazida de Espanha pela tia Jesus esperava há vários meses para ser estreada na situação mais especial de todas: a entrada na Escola!
Dentro, a lousa que a minha mãe pusera por graça - que me foi muito útil, por sinal - lápis, borracha, cadernos e canetas novas. Tudo comprado para mim.
A bata impecavelmente branca, virgem, com a identificação da escola bordada "Escola Feminina nº4".
O cabelo loiro, lindo, brilhante, apanhado num vistoso rabo-de-cavalo.
E antes da Escola...o registo fotográfico no Parque. Como numa revista atual do "Regresso à Escola" dos supermercados, posei para a câmara familiar que era um instrumento importante e associado a momentos-chave da família.
Registado, preparado, devidamente assinalado, o meu ingresso na Escola volta todos os anos, com a mesma excitação, a mesma sensação de estar a começar algo de muito importante.Tão importante que começa sempre com a mesma força, que exige sempre um empenho e uma energia que me renovam.
Amanhã vamos encher a Escola de esperança, de futuro, de graça e expectativa, por mais um ano.
Lousa, mochila, lápis, manuais, computador, pen e password, que os tempos mudaram, mas o coração bate igual. Igualzinho. Pan-pan-pan-pan, como o Peter, que não sabia crescer.
A minha entrada na Escola foi preparada com mestria, pompa e circunstância.
A pasta verde-esperança trazida de Espanha pela tia Jesus esperava há vários meses para ser estreada na situação mais especial de todas: a entrada na Escola!
Dentro, a lousa que a minha mãe pusera por graça - que me foi muito útil, por sinal - lápis, borracha, cadernos e canetas novas. Tudo comprado para mim.
A bata impecavelmente branca, virgem, com a identificação da escola bordada "Escola Feminina nº4".
O cabelo loiro, lindo, brilhante, apanhado num vistoso rabo-de-cavalo.
E antes da Escola...o registo fotográfico no Parque. Como numa revista atual do "Regresso à Escola" dos supermercados, posei para a câmara familiar que era um instrumento importante e associado a momentos-chave da família.
Registado, preparado, devidamente assinalado, o meu ingresso na Escola volta todos os anos, com a mesma excitação, a mesma sensação de estar a começar algo de muito importante.Tão importante que começa sempre com a mesma força, que exige sempre um empenho e uma energia que me renovam.
Amanhã vamos encher a Escola de esperança, de futuro, de graça e expectativa, por mais um ano.
Lousa, mochila, lápis, manuais, computador, pen e password, que os tempos mudaram, mas o coração bate igual. Igualzinho. Pan-pan-pan-pan, como o Peter, que não sabia crescer.
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quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Regresso à Escola
É já amanhã!
Já vão uns bons anos disto, mas fico nervosa...não, como na primeira vez, mas seria de esperar que deixasse de estar nervosa.
E não é bem...nervosa, com medo. É uma excitação que eu sei que me ocupa os dias, que transparece nos olhos e espreita da alma.
É amanhã. E determina tantos dias, tanta coisa.
A t-shirt d'escrita já está pronta. Desta vez foi comprada no Brasil, tem uma frase de Einstein sobre a abertura de espírito e chama a atenção para o perigo da extinção das tartarugas. E é azul.
Todos os anos seleciono criteriosamente a roupa com que vou apresentar-me aos alunos. Amanhã será apenas uma reapresentação, mas queria que eles absorvessem o exemplo de querer estudar, aprender, evoluir, viajar. São a minha direção de turma por mais este ano. São já 3 anos a tentar que estudem e que gostem de o fazer ao ponto de deixarem de lhe chamar estudar.
Segunda-feira serão de facto os novos, aqueles a quem gostaria de impressionar pela positiva e criar a expectativa de um ano divertido e interessante. A mesma expectativa que eu tenho, a encher-me as veias com um frenesim que me atordoa, mas sempre me entusiasma.
Amanhã regresso à escola. Amanhã volto a participar dessa aventura magnífica que é preparar o amanhã.
E é já amanhã!
Já vão uns bons anos disto, mas fico nervosa...não, como na primeira vez, mas seria de esperar que deixasse de estar nervosa.
E não é bem...nervosa, com medo. É uma excitação que eu sei que me ocupa os dias, que transparece nos olhos e espreita da alma.
É amanhã. E determina tantos dias, tanta coisa.
A t-shirt d'escrita já está pronta. Desta vez foi comprada no Brasil, tem uma frase de Einstein sobre a abertura de espírito e chama a atenção para o perigo da extinção das tartarugas. E é azul.
Todos os anos seleciono criteriosamente a roupa com que vou apresentar-me aos alunos. Amanhã será apenas uma reapresentação, mas queria que eles absorvessem o exemplo de querer estudar, aprender, evoluir, viajar. São a minha direção de turma por mais este ano. São já 3 anos a tentar que estudem e que gostem de o fazer ao ponto de deixarem de lhe chamar estudar.
Segunda-feira serão de facto os novos, aqueles a quem gostaria de impressionar pela positiva e criar a expectativa de um ano divertido e interessante. A mesma expectativa que eu tenho, a encher-me as veias com um frenesim que me atordoa, mas sempre me entusiasma.
Amanhã regresso à escola. Amanhã volto a participar dessa aventura magnífica que é preparar o amanhã.
E é já amanhã!
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terça-feira, 10 de setembro de 2013
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
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