Muito sinceramente não sei se algum dia vou recuperar da quarentena! Habituei-me de tal maneira a estar sozinha e sossegada que, quando estou muito tempo com alguém, quando chego a casa preciso de recuperar. Ficar um tempo com uma luz suave, ouvir música de relaxamento...para recuperar o meu equilíbrio.
Isto de estar sozinha está a ser muito bom. Ter de estar com os outros obriga-me a um esforço.
Algo mudou. De certeza. E se dantes me parecia extraordinariamente radical ser monja num qualquer convento (cristão, budista, não interessa qual a religião) hoje o que me parece radical é frequentar o Rock in Rio, que eu frequentei com muito agrado, note-se.
Não sendo uma experiência de laboratório não podemos isolar as variáveis, para compreender o factor de influência de cada uma e por isso não sei de devo atribuir estas mudanças maioritariamente a algum dos seguintes factores:
- estou mais velha
- estou há 10 meses sem trabalhar inteiramente entregue a mim mesma, decidindo os meus ritmos e a minha lista de too-doo's (aprendi esta agora)
- estamos a viver uma situação de calamidade em que é aconselhado o isolamento social
- estive muitos dias sem contactar com pessoas e mesmo sem as ver, uma vez que o meu prédio se debruça sobre um jardim público que ainda não abriu, mesmo nestes tempos de desconfinamento
- a janela do meu escritório dá para as traseiras de uma igreja (daquelas universais) em que pelo menos 3 vezes por semana tentavam atingir Deus com gritos e orações e as atividades de culto têm estado suspensas
- aproveitei o tempo da quarentena para mudar a disposição de móveis e limpar gavetas e - coincidência ou não - tudo parece estar mais limpo e energético por aqui. A isso atribuo o facto de as orquídeas e as rosas, que raramente abrem flor, estarem no máximo da sua exuberância primaveril
E querem que eu queira voltar à normalidade? Parece-me que quem defende isso é que não é normal.
Tenho estado muito calma, sossegada e feliz.
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
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