domingo, 15 de junho de 2025

O que conta a História? O que conta para a História? O que contamos para a História? O que queremos que a História conte? O que conta da nossa História?

 "- Palavras ou imagens?  - diz Manolo  - O que conta a história? 

- Ambas, suponho. Eu posso descrever este lugar, mas as fotos dão as cores das portas. Aquele bigode. As botas dele. O gato sentado no muro.

- Do período minóico só temos imagens. Viu-as...no museu. Os frisos das paredes , os vasos. Muitas imagens. O que todos queriam eram palavras...a linguagem.

- Linear B - respondeu Ruth - Eu sei. Você explicou-me.

- E quando finalmente as tábuas foram decifradas, eram listas de ovelhas e bois. Ou registos de trigo e azeite, e uma encomenda de banheiras - Manolo ri-se - Nada de poesia. Nada de peças pré-gregas.

- Suponho que a maior parte das nossas palavras seja acerca de ovelhas e bois e entregas de banheiras, ou o equivaqlente. Registos e comunicação.

- Claro. Foi assim que a linguagem começou. A poesia e o teatro são luxos. E a história precisa de saber acerca de ovelhas e bois e banheiras - Manolo volta aqueles olhos bizantinos para ela. Ruth sente-se menos triste."

Lively, Penelope, Consequências, pp.233-234

Sobre a mudança

"Ruth pensou na mudança. Nada dura para sempre; talvez nada devesse durar para sempre. Mas a mudança é um conceito traiçoeiro. Algumas mudanças acontecem simplesmente; as crianças crescem, tornam-se pessoas diferentes, as amizades enfraquecem ou intensificam-se. Acima de tudo, o mundo gira; a paisagem é um painel em movimento - uma sequência de acontecimentos inacessível, algo novo anunciado nos jornais, na televisão, rostos diferentes, lugares diferentes. Não se diz "Calma! Vamos manter as coisas como estão!", nem se quer fazê-lo, dadas as circunstâncias. Talvez a mudança seja o triunfo da esperança sobre a expectativa. O que quer que seja dá cor aos dias, aos anos. Seguimos com a corrente."
Lively, Penelope, Consequências, p.215

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Do avesso

 Hoje apeteceu-me acordar do outro lado do Atlântico, no Inverno e no começo da noite.

Hoje sentia-me no lado contrário do que quer que fosse: não quero estar aqui, não quero fazer o que faço, não quero ser eu...Hoje tudo grita para que eu faça uma pausa: mas não é uma pausa em qualquer coisa que eu faça, é uma pausa de mim.
Uma pausa de ser. Existirá? Se não existe deveria existir e hoje estou tão indisposta que me parece que se inventaram poucas coisas. Penso em tudo o que falta inventar...
Hoje apetece-me fechar numa cápsula e esperar que o mundo fique melhor, que se invente o que falta, que se retome o que se abandonou...
Hoje não sei o que tenho, porque se calhar ainda não inventaram um nome para o que estou a sentir. Mau feitio? Mal estar? Mas porque é que tenho eu que estar mal, se é o mundo que não me compreende e não me acolhe? Tenho de ser eu a aprender a viver com o mundo? Porque não posso mudar o mundo? Que chatice!
Chatice podia ser um sentimento, um estado de alma, mas nem a isso chega...Irritação? Inadaptação? E lá vêm os prefixos que antecedem e classificam a minha relação com o mundo...Com o mundo talvez não, que este sentimento é caseiro e limitado no tempo...pequenino, insinuante, como uma broca num dente.
Hoje acordei do avesso, que é também um lado válido. Será por ser sexta feira 13, dia dos canhotos, dia em que se esperam coisas estranhas?
Hoje, se o conseguisse, andaria sobre as mãos, tricotaria com os pés, olhava o mundo com um monóculo no umbigo e começava a fumar, cachimbo.
Hoje não sei que se passa, não me apetece ser eu, mas também não me apetece ser ninguém que eu conheça. Talvez se eu inventar outro ser para ser...e será que conseguia ser como deve de ser?
Não pode ser! Ainda não foi inventado e já está cancelado.
Hoje não me apetecia estar deste lado. Vou trincar um cogumelo e ver se aumento ou diminuo e caibo na toca do coelho para chegar por lá até ao lago do patinho feio, que é como eu me sinto.
Socorro! Não sei estar em mim, assim, num mundo que não me apetece, aborrece, porque desaprende, se desprende daquilo que estava certo...estava?...
E falo já no passado, antecipando um futuro que ainda não chegou. Será que consigo fazer alguma coisa para o retardar, para o pulverizar antes de existir?
Hoje doi-me existir. Talvez se eu dormir, afaste esta dor, este incómodo, esta inquietação de ser, de estar, de viver de pensar...
Ah, que isto hoje está tremido, retorcido, perturbado, conturbado, enevoado, atravancado. Isto hoje não está fácil, nem difícil, está qualquer coisa entre isso e isso, uma palavra que não sai, talvez porque ainda não foi inventada.
Será o dia de hoje bom para inventar palavras? As palavras inventadas hoje não ficarão na história, porque hoje há um buraco negro no lugar da existência que suga as palavras inventadas para um lugar onde os dicionários foram abolidos. Vou dormir para evitar uma parte do dia que promete.
Promete, o quê? Um conjunto de frases por completar, ditas por seres que não sabem se existem, porque se recusam a pensar sobre a própria existência. Sabe-se lá onde é que isso os poderia levar...
Ao centro da terra ou ao centro de si mesmos, um local muito doloroso de existir, um não lugar...Só por hoje...espero.

sábado, 8 de março de 2025

falange, falanginha, falangeta

Se a minha mão for pequena na

tua mão, pede-lhe, com jeitinho, 

que seja maior por um momento


e será asa aberta sobre o teu peito,

guardando-te da culpa e do temor.

Por um momento, a minha mão


pode ter o tamanho de outra mão,

o tamanho exacto da tua mão, o


tamanho do mundo, se lhe pedires.

Em dia de comemoração

 "Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir."

José Saramago, Cadernos de Lanzarote - Diários, II, p.63

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Inovelhando

 Os últimos dias têm sido ocupados em arrumações...o que implica sempre, cá em casa, rasgar muito papel. Descansem os ambientalistas porque é só aquele que não tem a possibilidade de ser aproveitado. Por causa disso tenho duas gavetas cheias com papel de rascunho e, como escrevo cada vez mais directamente no computador, tenho até receio de nunca vir a gastar este papel todo, de ter de deixar em herança aos meus sobrinhos um monte de papel que não faz sentido porque são restos de coisas para ser aproveitadas...

No meio de uns apontamentos de uma acção de formação em que deviam de estar a massacrar-nos com a necessidade de "acompanhar os tempos", de "enveredar pelo caminho das tecnologias", descubro uma frase marginal (escrita na parte de trás do caderno e não alinhada com o resto do texto), um claro resquício dos "papelinhos" que passava às minhas colegas durante uma escolaridade sem tecnologias, que dizia assim: «Decidi que a minha forma de ser inovadora é ser antiga: recusar o que é novo e manter as tradições. Com tudo a mudar a uma velocidade alucinante, a única forma de ser revolucionária é recusar o que é novo.» 

Estranho mundo este! (Esta frase é estúpida, porque o mundo, todos os mundos do passado quando eram presente e futuro, devem ter sido estranhos). Para ser inovador é necessário recusar as inovações que, frequentemente, nos impedem de pensar, na vertigem de acompanhar a novidade.

Lembrei-me de um livro da Rosa Montero em que quem salva tudo é um grupo de pessoas que se ocupam a decorar livros, para quando a tecnologia falhar. Eram uma espécie de humanos estranhos, marginais, que insistiam em ler livros e guardar na memória o que consideravam importante.

Não deixa de ser uma esperança...

Por outro lado não deixa de ser uma prova de que envelheci. Quando se começa a querer estar como "no meu tempo", a invocar uma certa nostalgia e a recusar a novidade...é porque já fazemos parte dos Velhos do Restelo, necessários a todas as narrativas, mas como notas de rodapé, apontamentos marginais, breves influências sobre os protagonistas...uma franja da sociedade.

sábado, 24 de agosto de 2024

À procura de Saramago

 Recentemente visitei a Fundação Saramago em Lisboa e gostei muito. Pouco tempo antes, por um acaso,  tinha estado na Azinhaga, a sua terra natal, e tinha-me quedado a olhar para a escultura que o representa....

Quem foi Saramago, o nosso único Nobel da Literatura?

Recordo-o seco e antipático numa sessão de esclarecimento na minha Universidade, ainda ele não era Nobel. Tratava-se da candidatura de Salgado Zenha que eu equacionava brindar com o meu voto...Recordo-o em memória alheia (querido Mestre, nunca me esquecerei de si, sem o ter conhecido!) ditador, prepotente, manipulador com os colegas de trabalho. Lamento-lhe a humilhação e descaso dos portugueses que não lutaram por reverter a estúpida decisão de excluir o seu livro de um concurso, nem por mantê-lo cá. Tenho a sensação que ele era demasiado bom para o país que tinha...Procuro-o magoado e excluído a recolher-se a Espanha, terra do seu amor.

Creio que ele era genial (disso tenho a certeza sempre que o leio) e intratável. Tenho uma imensa admiração pelo seu percurso de vida (estudou tarde e à sua custa) e pela sua coerência, pois sabia que ser comunista o afastaria de muitas honrarias no mundo literário. Admiro a sua luta com a Fé que diz não ter, para tentar converter Deus a um mundo melhor, para melhorar Deus...Acredito que ele queria muito acreditar em Deus, mas que este Deus não lhe servia, sobretudo pela forma como criou os homens (muitos homens) imperfeitos e maus, que não se importam de espezinhar outros para se engrandecer a si próprios; homens que se consideram melhores que os demais e assim estragam toda a Humanidade, tornando este caldo impuro e este mundo difícil de respirar.

Procuro esse Saramago inconformado que escreve para sobreviver, para respirar, para atuar neste mundo em que ainda acredita.

Resolvi então espreitar os seus diários. E encontrei-o lá todo: Genial, intratável, maus e bom, crente inconfesso zangado com Deus...mas encontrei-o também (e por essa não esperava) apaixonado e agradecido à vida. E esse - que eu não sabia que foi - resolvi registá-lo aqui.

Então Saramago sobre um bom momento da vida:

"(...) Que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote? A vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias, ter parado no bem-me-quer..."

Cadernos de Lanzarote; Diário - I (entrada de 22 de Julho de 1993)