segunda-feira, 26 de abril de 2010

A propósito do discuro presidencial

"Atira-te ao mar
e diz que t'empurrarem"

Tudo palavras de algarvios.
Lembram-se dos Iris? No caso deles completavam: "Beija-me na boca e chama-me Tarzan", mas...convenhamos...

3 comentários:

  1. Estes discursos fazem-me sempre armar-me em Casimiro...

    Cuidado com as imitações (Casimiro)

    Estimado ouvinte, já que agora estou consigo
    Peço apenas dois minutos de atenção
    É pra contar a história de um amigo
    Casimiro Baltazar da Conceição

    O Casimiro, talvez você não conheça
    a aldeia donde ele vinha nem vem no mapa
    mas lá no burgo, por incrível que pareça
    era, mais famoso que no Vaticano o Papa

    O Casimiro era assim como um vidente
    tinha um olho mesmo no meio da testa
    isto pra lá dos outros dois é evidente
    por isso façamos que ia dormir a sesta

    Ficava de olho aberto
    via as coisas de perto
    que é uma maneira de melhor pensar
    via o que estava mal
    e como é natural
    tentava sempre não se deixar enganar
    (e dizia ele com os seus botões:)

    Cuidado, Casimiro
    cuidado com as imitações
    Cuidado, minha gente
    Cuidado justamente com as imitações

    Lá na aldeia havia um homem que mandava
    toda a gente, um por um, por-se na bicha
    e votar nele e se votassem lá lhes dava
    um bacalhau, um pão-de-ló, uma salsicha

    E prometeu que construía um hospital
    Uma escola e prédios de habitação
    e uma capela maior que uma catedral
    pelo menos a julgar pela descrição

    Mas... O Casimiro que era fino do ouvido
    tinha as orelhas equipadas com radar
    ouvia o tipo muito sério e comedido
    mas lá por dentro com o rabinho a dar, a dar

    E... punha o ouvido atento
    via as coisas por dentro
    que é uma maneira de melhor pensar
    via o que estava mal
    e como é natural
    tentava sempre não se deixar enganar
    (e dizia ele com os seus botões:)

    Cuidado, Casimiro
    cuidado com as imitações
    Cuidado, minha gente
    Cuidado justamente com as imitações

    Ora o tal tipo que mandava lá na aldeia
    estava doido, já se vê, com o Casimiro
    de cada vez que sorria à plateia
    lá se lhe viam os dentes de vampiro

    De forma que pra comprar o Casimiro
    em vez do insulto, do boicote, da ameaça
    disse-lhe: Sabe que no fundo o admiro
    Vou erguer-lhe uma estátua aqui na praça

    Mas... O Casimiro que era tudo menos burro
    tinha um nariz que parecia um elefante
    sentiu logo que aquilo cheirava a esturro
    ser honesto não é só ser bem falante

    A moral deste conto
    vou resumi-la e pronto
    cada qual faz o que melhor pensar
    Não é preciso ser
    Casimiro pra ter
    sempre cuidado pra não se deixar levar.


    Sérgio Godinho

    http://www.esnips.com/doc/f7f640e0-dcd4-44e0-a441-43e0cd800936

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  2. Ai, o Casimiro! Que bela recordação! (E um bom aviso a recordar...)
    E também havia uma Etelvina?...

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  3. Sim, há a Etelvina, outro dos personagens que o Sérgio cria com enorme sabedoria.

    Esta Etelvina recusava o papel tradicional das mulheres: queria (veja-se o desplante!) alguém «de quem não seja criada, de quem não seja mamã»...

    Etelvina

    Etelvina com seis meses já se tinha de pé
    foi deixada num cinema depois da matinée
    com um recado na lapela que dizia assim:
    "Quem tomar conta de mim
    quem tomar conta de mim
    saiba que fui vacinada
    saiba que sou malcriada"

    Etelvina com dezasseis anos já conhecia
    todos os reformatórios da terra onde vivia
    entregaram-na a uma velha que ralhava assim:
    "Ai menina sem juízo
    nem mereces um sorriso
    vais acabar num bueiro
    sem futuro nem dinheiro"

    Eu durmo sozinha à noite
    vou dormir à beira rio à noite à noite
    acocorada com o frio à noite à noite

    Etelvina era da rua como outros são do campo
    sua cama era um caixote sem paredes nem tampo
    sua janela uma ponte que dizia assim:
    "Dentro das minhas cidades
    já não sei quem é ladrão
    se um que anda fora das grades
    se outro que está na prisão"

    Etelvina só gostava era de andar pela cidade
    a semear desacatos e a colher tempestade
    a meter com os ricaços a dizer assim:
    "Você que passa de carro
    ferre aqui a ver se eu deixo
    venha cá que eu já o agarro
    dou-lhe um pontapé no queixo"

    Eu durmo sozinha à noite ...

    Etelvina já cansada de viver sem ninguém
    a não ser de vez em quando amores de vai e vem
    pôs um anúncio no jornal que dizia assim:
    "Mulher desembaraçada
    quer viver com alma irmã
    de quem não seja criada
    de quem não seja mamã"

    Etelvina já sabia que não ia encontrar
    nem um príncipe encantado nem um lobo do mar
    só alguém com quem pudesse dizer assim:
    "O amor já não é cego
    abre os olhinhos à gente
    faz lutar com mais apego
    a quem quer vida diferente"

    O seu homem encontrou-o à noite
    a dormir à beira rio à noite à noite
    acocorado com o frio à noite à noite


    Sérgio Godinho

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