sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Intolerâncias linguísticas

Cada vez estou pior! Não suporto, não suporto os erros que pessoas alegadamente instruídas cometem a toda a hora. Professores, farmacêuticos, jornalistas, licenciados nas mais variadas áreas. Pessoas que beneficiaram de uma educação superior não poderiam ter abraçado tão levianamente a carreira do crime, assassinando, cada vez com mais mestria, a língua portuguesa, uma e outra vez e outra e outra...Aprendi nos filmes de crimes do canal AXN que quando se desferem facadas desnecessárias na vítima é uma questão pessoal: o que lhes terá feito de tão grave a língua portuguesa?

Para ilustrar esta minha mágoa apenas os dois episódios mais recentes:

Ontem liguei para a empresa operadora do meu telemóvel e falei com um assistente com uma voz linda, muito simpático e que me garantiu - várias vezes! - que encontraria um tarifário que fosse de encontro às minhas necessidades, o que eu achei, literalmente, chocante.

Todos os medicamentos que estou a tomar para debelar a crise de gripe que me prende em casa são tomados "apos a refeição", segundo prescrição escrita a caneta pela licenciada em farmácia que me vendeu os medicamentos.

Apos isto o que fazer? Ir de encontro à maioria? Pode ser doloroso e será, certamente, inglório.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

"Não há ninguém que possa ajudar-me!" disse a personagem do filme.
Fiquei a pensar: Não há expressão mais completa do desespero!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Recantiga, Miguel Araújo

http://youtu.be/ycXLbzBvqAo?list=PLLffhkhpkwQU6XNnfc2dLbySgQJZoH2Lw

E era as folhas espalhadas, muito recalcadas do correr do ano
A recolherem uma a uma por entre a caruma de volta ao ramo
E era à noite a trovoada que encheu na enxurrada aquela poça morta
De repente, em ricochete, a refazer-se em sete nuvens gota a gota
Era de repente o rio, num só rodopio a subir o monte
A correr contra a corrente assim de trás para a frente a voltar à fonte
Um monte de cartas espalhadas des-desmoronando-se todo em castelo
E era linha duma vida sendo recolhida de volta ao novelo
Era aquelas coisas tontas, as afrontas que eu digo e que me arrependo
A voltarem para mim como se assim tivessem remendo
E era eu, um passarinho caído no ninho à espera do fim
E eras tu, até que enfim, a voltar para mim

sábado, 10 de janeiro de 2015

Do SPA para a Livraria: assim começou o meu dia...(até rima!)
E ainda bem que os óleos essenciais ainda vão libertando algum aroma para me recordar desse princípio auspicioso, agora que aqui estou, mergulhada num trabalho que parece infindável, a um sábado à noite.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ditados e Ditames

"(...) A Velha Esperança está convencida de que não morrerá nunca. Em mil novecentos e noventa e dois sobreviveu a um massacre. (...) »Veio uma tropa fandanga, uma malta de arruaceiros bem armados, muito bebidos, entraram pela casa à força e espancaram toda a gente. O comandante quis saber como se chamava a velha. Ela disse-lhe, Esperança Job Sapalalo, patrão, e ele riu-se. Troçou, a Esperança é a última a morrer. Alinharam o dirigente e a família no quintal da casa e fuzilaram-nos. Quando chegou a vez da Velha Esperança não havia mais balas. O que te salvou, gritou-lhe o comandante, foi a logística. O nosso problema há-de ser sempre a logística. Depois mandou-a embora. Agora ela julga-se imune à morte. Talvez seja.»"

Agualusa, José Eduardo, O Vendedor de Passados, pp. 22-23

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

"(...) Disse-lhe que tinha um amigo, fotógrafo como ela, e que, como ela, vivera muitos anos no estrangeiro e regressara há pouco ao país. Um fotógrafo de guerra. Não gostaria de o conhecer?
«Um fotógrafo de guerra?» Ângela olhou-o horrorizada: «Que tem isso a ver comigo?! Nem sequer sei se sou fotógrafa. Eu colecciono luz.»"

Agualusa, José Eduardo, O Vendedor de Passados, pp. 71-72

domingo, 4 de janeiro de 2015

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado

Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.

ANA HATHERLY, in A IDADE DA ESCRITA (Ed. Tema, 1998)