"Lá no centro do mar, lá nos confins
... onde nascem os ventos, onde o sol
sobre as águas doiradas se demora;
Lá no espaço das fontes e verduras,
dos brandos animais, da terra virgem,
onde cantam as aves naturais:
Meu amor, minha ilha descoberta,
é de longe, da vida naufragada,
que descanso nas praias do teu ventre,
enquanto lentamente as mãos do vento,
ao passar sobre o peito e as colinas,
erguem ondas de fogo em movimento."
José Saramago in Provavelmente Alegria
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
31 de Janeiro
Em 1891 foi neste dia, no Porto, que se realizou a primeira tentativa de implantação da República em Portugal.
Antes de o aprender na Escola foi com a minha avó que eu soube.
Foi também o dia escolhido para a seu casamento, cerca de 30 anos depois. E penso que não foi por acaso.
Hoje, tantos anos passados, a muito menos daquele em que se vai esquecer a data e os herois da 1ª República Portuguesa, pensei que seria importante recordar esta data.
Hoje, que se fala em refundação, em crise do estado social, que se discute a escola pública...talvez fosse bom reler muitos dos textos dos verdadeiros republicanos, daqueles que, por todo o país, se desdobraram em colóquios e conferências, enchendo salas na crença de que o saber deve ser partilhado por todos e é condição de escolhas acertadas, incluindo as escolhas que se fazem para o rumo do país.
Antes de o aprender na Escola foi com a minha avó que eu soube.
Foi também o dia escolhido para a seu casamento, cerca de 30 anos depois. E penso que não foi por acaso.
Hoje, tantos anos passados, a muito menos daquele em que se vai esquecer a data e os herois da 1ª República Portuguesa, pensei que seria importante recordar esta data.
Hoje, que se fala em refundação, em crise do estado social, que se discute a escola pública...talvez fosse bom reler muitos dos textos dos verdadeiros republicanos, daqueles que, por todo o país, se desdobraram em colóquios e conferências, enchendo salas na crença de que o saber deve ser partilhado por todos e é condição de escolhas acertadas, incluindo as escolhas que se fazem para o rumo do país.
Etiquetas:
Crises Outras,
I Wish,
Impressões de Viagem,
Palavras Doridas,
Tradições
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Sim
Sim.
Todos os poemas
São de amor
Pela rima,
Pelo ritmo,
Pelo brilho
Ou por alguém,
Alguma coisa
Que passava
Na hora
Em que a vida
Virava palavra.
Alice Ruiz (1946 )
Todos os poemas
São de amor
Pela rima,
Pelo ritmo,
Pelo brilho
Ou por alguém,
Alguma coisa
Que passava
Na hora
Em que a vida
Virava palavra.
Alice Ruiz (1946 )
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Pedido Silenciado
"FICA COMIGO ESTA NOITE
Fica comigo esta noite
... deixa que amanheça nos teus braços
embalada pelo rumor das tuas águas
abraça-me devagar
sem tempo
desenha com a tua boca o contorno do meu corpo
grava em mim o sabor deste momento
numa linguagem de beijos e suor
não me olhes
na ausência dos barcos que partiram
e talharam na memória não mais que um adeus
fica comigo esta noite
desvenda essa luz que a treva esconde
cala a urgência dos beijos que não demos
não perguntes quanto tempo dura a eternidade."
Clara Maria Barata (pré publicação em Quem Lê Sophia de Mello Breyner Andresen)
Fica comigo esta noite
... deixa que amanheça nos teus braços
embalada pelo rumor das tuas águas
abraça-me devagar
sem tempo
desenha com a tua boca o contorno do meu corpo
grava em mim o sabor deste momento
numa linguagem de beijos e suor
não me olhes
na ausência dos barcos que partiram
e talharam na memória não mais que um adeus
fica comigo esta noite
desvenda essa luz que a treva esconde
cala a urgência dos beijos que não demos
não perguntes quanto tempo dura a eternidade."
Clara Maria Barata (pré publicação em Quem Lê Sophia de Mello Breyner Andresen)
domingo, 27 de janeiro de 2013
Comunicado
Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.
Miguel Torga (1907-1995)
Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.
Miguel Torga (1907-1995)
Etiquetas:
Crises Outras,
Palavras de Outros,
Palavras repetentes,
Tradições
O Sentimento de Si
A consciência é um tema que me fascina. A consciência histórica, a consciência pessoal, a consciência coletiva, a consciência da própria consciência... E a forma como estamos conscientes de nós próprios. A inteligência emocional e a memória emocional são outros temas subsidiários destas mesmas questões.
O título que roubei ao livro do Professor Damásio repousa na minha estante à espera de dias com mais tempo e muita atenção desperta para raciocinar a cada frase, que o assunto é difícil...
Muito mais fácil é ver filmes ou episódios de séries sobre o assunto e é o que vou fazendo com uma série do AXN que me vem fascinando: Perception.
Daniel Pierce é um especialista em neurologia. Professor (brilhante) da Universidade é esquizofrénico e tem aguda consciência da sua doença que, no entanto, mantém "ativa" pois os seus sentidos apurados (mais agudos que o normal quando desequilibrados) fazem-no um excecional colaborador do FBI. E, claro, há um crimezito por episódio que nos mantém colado ao écran esperando que o nosso heroi nos desvende o vilão e as autoridades o afastem para sempre, dando-nos a paz tranquila com que vamos dormir, iludidos da justiça e previsibilidade deste nosso mundo.
Daniel Pierce é pois uma espécie de superheroi atormentado que tem ainda a vantagem de ser um excelente professor e conseguir esconder da maior parte do mundo o seu o desequilibrio, que é no fundo, também, a sua chancela de excepcionalidade.
Isto fascina-me. Coloca-me imensas questões. "Bebo" as aulas dele, com que quase sempre começa ou termina o episódio. Fico a refletir em tudo aquilo. (Claro que, para além da qualidade do argumento, devo acrescentar - para ser mesmo honesta - que o ar simultaneamente frágil e doutoral do ator exerce também um fascínio que não é só científico ou estudantil).
Mas até isso me faz refletir: o que é que nos atrai ou nos repulsa em cada coisa do nosso dia a dia. Porque escolhemos aquele filme, aquela roupa, aquela pessoa? O que é que determina as nossas orientações na vida? Os nossos gostos, os nossos amigos, os locais que frequentamos? E o que tem isso a ver com um "desenho" que nós ou outros fizeram para a nossa vida? É a educação, a personalidade, os genes, o ambiente socio-económico? O que nos torna quem somos?
No fundo tudo tem a ver com o que desejamos, o que queremos, o que valorizamos, o que priorizamos nas nossas vidas.
Num dos episódios de que mais gostei o Professor Daniel Pierce expunha: "A ambição estimula-nos a todos.(...). Freud quis convencer-nos que todos os ímpetos advém da libido. Lamento, Sigmund. O sucesso é neurologicamente determinado pela capacidade de cada um de se concentrar numa tarefa. A persistência é uma função de um sistema límbico ativo."
Então tudo tem a ver com aquilo que para cada um de nós é o sucesso e o que estamos dispostos a fazer por essa meta. Se para uns é ter muito dinheiro, para outros será o reconhecimento social, para outros os requisitos sociais de uma vida aceitável...para outros nada menos que o estrelato. Enfim.
Mas, no final do episódio, o Professor conclui: "Mas por mais motivados que sejamos por esse impulso neurológico natural a ambição não é algo de imutável.
Os sonhos mudam e mesmo que não sejamos capazes de escalar montanhas ainda temos hipóteses de poder movê-las."
Assim, o nosso sucesso talvez também possa ser medido pela nossa capacidade de adaptação, em cada momento, de reequacionar os nossos desejos (sonhos, ambições, metas, propósitos) à luz do que é possível de realizar. A justa medida entre a utopia que nos faz mover e a noção da realidade que nos permite não esmorecer e continuar.
E isto tem de ser medido em cada momento, constantemente, avaliando os sentimentos e consciência de nós mesmos e dos meios que nos rodeiam.
Que pena Daniel Pierce ser uma personagem de ficção...
Esclarecimento: o episódio estava gravado e isso permitiu-me citar as frases do Professor, não tenho uma capacidade assim tão grande de fixar "as deixas", mesmo as do fascinante Daniel Pierce.
O título que roubei ao livro do Professor Damásio repousa na minha estante à espera de dias com mais tempo e muita atenção desperta para raciocinar a cada frase, que o assunto é difícil...
Muito mais fácil é ver filmes ou episódios de séries sobre o assunto e é o que vou fazendo com uma série do AXN que me vem fascinando: Perception.
Daniel Pierce é um especialista em neurologia. Professor (brilhante) da Universidade é esquizofrénico e tem aguda consciência da sua doença que, no entanto, mantém "ativa" pois os seus sentidos apurados (mais agudos que o normal quando desequilibrados) fazem-no um excecional colaborador do FBI. E, claro, há um crimezito por episódio que nos mantém colado ao écran esperando que o nosso heroi nos desvende o vilão e as autoridades o afastem para sempre, dando-nos a paz tranquila com que vamos dormir, iludidos da justiça e previsibilidade deste nosso mundo.
Daniel Pierce é pois uma espécie de superheroi atormentado que tem ainda a vantagem de ser um excelente professor e conseguir esconder da maior parte do mundo o seu o desequilibrio, que é no fundo, também, a sua chancela de excepcionalidade.
Isto fascina-me. Coloca-me imensas questões. "Bebo" as aulas dele, com que quase sempre começa ou termina o episódio. Fico a refletir em tudo aquilo. (Claro que, para além da qualidade do argumento, devo acrescentar - para ser mesmo honesta - que o ar simultaneamente frágil e doutoral do ator exerce também um fascínio que não é só científico ou estudantil).
Mas até isso me faz refletir: o que é que nos atrai ou nos repulsa em cada coisa do nosso dia a dia. Porque escolhemos aquele filme, aquela roupa, aquela pessoa? O que é que determina as nossas orientações na vida? Os nossos gostos, os nossos amigos, os locais que frequentamos? E o que tem isso a ver com um "desenho" que nós ou outros fizeram para a nossa vida? É a educação, a personalidade, os genes, o ambiente socio-económico? O que nos torna quem somos?
No fundo tudo tem a ver com o que desejamos, o que queremos, o que valorizamos, o que priorizamos nas nossas vidas.
Num dos episódios de que mais gostei o Professor Daniel Pierce expunha: "A ambição estimula-nos a todos.(...). Freud quis convencer-nos que todos os ímpetos advém da libido. Lamento, Sigmund. O sucesso é neurologicamente determinado pela capacidade de cada um de se concentrar numa tarefa. A persistência é uma função de um sistema límbico ativo."
Então tudo tem a ver com aquilo que para cada um de nós é o sucesso e o que estamos dispostos a fazer por essa meta. Se para uns é ter muito dinheiro, para outros será o reconhecimento social, para outros os requisitos sociais de uma vida aceitável...para outros nada menos que o estrelato. Enfim.
Mas, no final do episódio, o Professor conclui: "Mas por mais motivados que sejamos por esse impulso neurológico natural a ambição não é algo de imutável.
Os sonhos mudam e mesmo que não sejamos capazes de escalar montanhas ainda temos hipóteses de poder movê-las."
Assim, o nosso sucesso talvez também possa ser medido pela nossa capacidade de adaptação, em cada momento, de reequacionar os nossos desejos (sonhos, ambições, metas, propósitos) à luz do que é possível de realizar. A justa medida entre a utopia que nos faz mover e a noção da realidade que nos permite não esmorecer e continuar.
E isto tem de ser medido em cada momento, constantemente, avaliando os sentimentos e consciência de nós mesmos e dos meios que nos rodeiam.
Que pena Daniel Pierce ser uma personagem de ficção...
Esclarecimento: o episódio estava gravado e isso permitiu-me citar as frases do Professor, não tenho uma capacidade assim tão grande de fixar "as deixas", mesmo as do fascinante Daniel Pierce.
Etiquetas:
Dúvidas,
I Wish,
Palavras de Outros
Subscrever:
Mensagens (Atom)