"Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
...Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos."
Manuel António Pina
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sábado, 29 de setembro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Sem título, mas com muita fé
"Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade."
Valter Hugo Mãe, Os Professores, Jornal de Letras nº 1095.
Valter Hugo Mãe, Os Professores, Jornal de Letras nº 1095.
Etiquetas:
Palavras de Outros,
Palavras Sábias,
Partículas de Felicidade
"A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual , de liberdade superior onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.
(...)
As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se."
Valter Hugo Mãe, Os Professores, Jornal de Letras nº 1095.
(...)
As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se."
Valter Hugo Mãe, Os Professores, Jornal de Letras nº 1095.
Etiquetas:
Palavras de Outros,
Palavras Sábias
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Guião
Mas porque é que as coisas, na vida real, não acontecem tão depressa (e tão bem) como nos últimos episódios das telenovelas?
Deve ser um problema da equipa de guinistas...Mas também é bom pensar que os últimos episódios ainda estão longe!
Deve ser um problema da equipa de guinistas...Mas também é bom pensar que os últimos episódios ainda estão longe!
terça-feira, 25 de setembro de 2012
domingo, 23 de setembro de 2012
M
E perante os tecidos para escolher, levantei os olhos para ele. Pareceu estupfacto. Como eu esperasse uma resposta disparou: tu é que és mulher!
Empertiguei-me toda de raiva. Que tinha o ser mulher a ver com a coisa? Acaso vínhamos equipadas com um curso de decoração?
A discussão seria muito desagradável na loja e havia uma decisão a ser tomada. Pensei rapidamente: Vale a pena entrares neste "bate-boca"? Ele é nitidamente preconceituoso, mas está a dar-te a primazia da escolha o que te dá legitimidade para qualquer coisa...
Olhei-o ainda de soslaio: parecia hesitante, como se não compreendesse alguma coisa; provavelmente porque é que eu queria a sua opinião.
Decidi rapidamente e nem olhei mais para ele. A situação estava resolvida.
Eu estava incomodada. Apetecia-me explodir, mas nem sabia bem com quê. A sensação que eu tinha é que ele não ia perceber a minha irritação. E nem eu percebia porque estava tão irritada assim.
Agarrámos os sacos. Despedidas feitas. À porta da loja ele espera que eu passe primeiro.
E então eu percebi: é todo um pacote de preconceitos, de ideias feitas, de tratamento preferencial! Preferencial?
Entregámos tudo no escritório à hora combinada. Os outros colegas dariam forma aos cortinados, toalhas, guardanapos e outros acessórios para a festa temática. Nós tínhamos sido apenas "escalados" para a compra dos tecidos, outros o foram para as louças, outros ficaram encarregues da distribuição das mesas, outros da confeção do menu, outros do correto e pronto abastecimento de todos durante a festa, outros da receção e segurança.
Estava tudo certo. Porque estava eu então incomodada? Até tinha ficado com uma função que me agradava. Tecidos entregues não tinha que me preocupar mais com o assunto e não pregaria um alfinete ou sujaria as mãos na massa e no dia da festa podia deambular fresca e comunicativa como eu gostava.
Mas porque é que ele não tinha dado uma opinião? Então servia para quê? Para carregar os sacos? Isso também eu podia fazer. Para me acompanhar? A irritação subia de tom. Para legitimar as minhas escolhas?
Não sabia bem o que me incomodava...
Talvez o facto de me ter sabido bem o seu ato cavalheiro ao dar-me passagem na porta da loja...
O que me incomodava era que eu queria uma parte da imagem de Mulher que ele me oferecia...Mas estão porque fiquei agredida com aquele "tu é que és Mulher!"?
De quem era o preconceito afinal?
Será que na minha cabeça os papeis estavam mesmo referenciados como iguais?
Fiquei confusa e baralhada.
A noite foi carregada de sonhos mais confusos do que conseguia lembrar-me no dia seguinte. Pelos flashes que me vinham à memória poderia concluir - se o quisesse, se o conseguisse admitir - que o que me incomodava em tudo aquilo era o facto de não lhe ter respondido... porque me congratulava por ele ter assinalado com letra maiúscula que eu era Mulher.
Que disparate! Como se podia dizer, face a um discurso oral, que ele usara maiúsculas? Tudo isto não passava de um disparate pegado. Porque não lhe tinha respondido logo então? Como faria a qualquer outro gajo?
Porque afinal de contas não deixava de ser uma satisfação que ele tivesse notado (e o tivesse dito em voz alta) que eu era uma mulher, com M maiúsculo, com atributos femininos bem marcados. Bolas! Porque eu já tinha reparado que ele era um homem com H maiúsculo, porque pensava muitas vezes nele, porque queria que ele reparasse em mim e não queria espantá-lo. Pronto, já disse!
O que me incomodava era o facto de me sentir atraída por ele. De ter calado a discussão na garganta "para não espantar a caça". De me sentir vulgar. De me sentir algo animal. De me sentir como há muito tempo não me sentia.
E de me sentir assustada.
Defendia-me antes de tempo daquele M de Mesa posta, de Mãe, de Mulher dito com voz simultaneamente doce e possessiva; de Minha...
Defendia-me de ter sentido qualquer coisa naquela frase, naquele entregar-me os assuntos, naquele confiar em mim, ou dividir as tarefas comigo, naquele estarmos assim: essa é a tua função, poque eu quero que seja, porque a minha será outra: está tudo certo entre nós. Existe um nós...
De quem era o preconceito? Porquê a necessidade de defesa se ninguém me tinha atacado?
O que é que se estava a passar comigo?
Afinal não iria à festa tão descontraída como queria, como pensava que iria. Se ele me atribuía o M maiúsculo gostaria de olhar para uma Mulher bem vestida. Que fazer? Seria capaz?
O M afinal era de Medo, de Muito Medo.
Empertiguei-me toda de raiva. Que tinha o ser mulher a ver com a coisa? Acaso vínhamos equipadas com um curso de decoração?
A discussão seria muito desagradável na loja e havia uma decisão a ser tomada. Pensei rapidamente: Vale a pena entrares neste "bate-boca"? Ele é nitidamente preconceituoso, mas está a dar-te a primazia da escolha o que te dá legitimidade para qualquer coisa...
Olhei-o ainda de soslaio: parecia hesitante, como se não compreendesse alguma coisa; provavelmente porque é que eu queria a sua opinião.
Decidi rapidamente e nem olhei mais para ele. A situação estava resolvida.
Eu estava incomodada. Apetecia-me explodir, mas nem sabia bem com quê. A sensação que eu tinha é que ele não ia perceber a minha irritação. E nem eu percebia porque estava tão irritada assim.
Agarrámos os sacos. Despedidas feitas. À porta da loja ele espera que eu passe primeiro.
E então eu percebi: é todo um pacote de preconceitos, de ideias feitas, de tratamento preferencial! Preferencial?
Entregámos tudo no escritório à hora combinada. Os outros colegas dariam forma aos cortinados, toalhas, guardanapos e outros acessórios para a festa temática. Nós tínhamos sido apenas "escalados" para a compra dos tecidos, outros o foram para as louças, outros ficaram encarregues da distribuição das mesas, outros da confeção do menu, outros do correto e pronto abastecimento de todos durante a festa, outros da receção e segurança.
Estava tudo certo. Porque estava eu então incomodada? Até tinha ficado com uma função que me agradava. Tecidos entregues não tinha que me preocupar mais com o assunto e não pregaria um alfinete ou sujaria as mãos na massa e no dia da festa podia deambular fresca e comunicativa como eu gostava.
Mas porque é que ele não tinha dado uma opinião? Então servia para quê? Para carregar os sacos? Isso também eu podia fazer. Para me acompanhar? A irritação subia de tom. Para legitimar as minhas escolhas?
Não sabia bem o que me incomodava...
Talvez o facto de me ter sabido bem o seu ato cavalheiro ao dar-me passagem na porta da loja...
O que me incomodava era que eu queria uma parte da imagem de Mulher que ele me oferecia...Mas estão porque fiquei agredida com aquele "tu é que és Mulher!"?
De quem era o preconceito afinal?
Será que na minha cabeça os papeis estavam mesmo referenciados como iguais?
Fiquei confusa e baralhada.
A noite foi carregada de sonhos mais confusos do que conseguia lembrar-me no dia seguinte. Pelos flashes que me vinham à memória poderia concluir - se o quisesse, se o conseguisse admitir - que o que me incomodava em tudo aquilo era o facto de não lhe ter respondido... porque me congratulava por ele ter assinalado com letra maiúscula que eu era Mulher.
Que disparate! Como se podia dizer, face a um discurso oral, que ele usara maiúsculas? Tudo isto não passava de um disparate pegado. Porque não lhe tinha respondido logo então? Como faria a qualquer outro gajo?
Porque afinal de contas não deixava de ser uma satisfação que ele tivesse notado (e o tivesse dito em voz alta) que eu era uma mulher, com M maiúsculo, com atributos femininos bem marcados. Bolas! Porque eu já tinha reparado que ele era um homem com H maiúsculo, porque pensava muitas vezes nele, porque queria que ele reparasse em mim e não queria espantá-lo. Pronto, já disse!
O que me incomodava era o facto de me sentir atraída por ele. De ter calado a discussão na garganta "para não espantar a caça". De me sentir vulgar. De me sentir algo animal. De me sentir como há muito tempo não me sentia.
E de me sentir assustada.
Defendia-me antes de tempo daquele M de Mesa posta, de Mãe, de Mulher dito com voz simultaneamente doce e possessiva; de Minha...
Defendia-me de ter sentido qualquer coisa naquela frase, naquele entregar-me os assuntos, naquele confiar em mim, ou dividir as tarefas comigo, naquele estarmos assim: essa é a tua função, poque eu quero que seja, porque a minha será outra: está tudo certo entre nós. Existe um nós...
De quem era o preconceito? Porquê a necessidade de defesa se ninguém me tinha atacado?
O que é que se estava a passar comigo?
Afinal não iria à festa tão descontraída como queria, como pensava que iria. Se ele me atribuía o M maiúsculo gostaria de olhar para uma Mulher bem vestida. Que fazer? Seria capaz?
O M afinal era de Medo, de Muito Medo.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
E eu
que parei uma aula hoje porque alguns alunos estavam a falar em simultâneo, tive de me levantar para desligar a televisão, que estava sintonizada num debate da RTPInformação com representantes dos diversos partidos com assento na Assembleia da República.
O debate estava a ser intercalado com imagens - profusamente ilustradas pelos comentários dos jornalistas - de alguma violência à porta do Palácio de Belém.
O debate estava a ser intercalado com imagens - profusamente ilustradas pelos comentários dos jornalistas - de alguma violência à porta do Palácio de Belém.
Etiquetas:
Palavras Doridas,
Palavras repetentes,
Palavras vãs
Subscrever:
Mensagens (Atom)