No meio das arrumações surge o excesso de livros, mas...ainda ontem comprei mais dois. Não lhes resisto! São a minha fraqueza...Que hei-de fazer?
Vou deitando fora muitas fotocópias, resumos disto e daquilo, fichas que enformaram trabalhos, mas os livros...não posso deitar fora os livros! Não posso!
Revisitei ontem a Marie Kondo. Conselho da japonesa: deite tudo fora, até este livro que está a ler quando o terminar.
Mas não posso. Nem o dela nem o de ninguém. Talvez o dela possa deitar fora, uma vez que ela o escreveu para ler e deitar fora, mas, mesmo assim...não sei se consigo.
Dadas estas limitações os livros vão ficando de lado, forrando uma das prateleiras do sótão antigo e, cá na casa actual, forram uma parede inteira com uma estante feita para o efeito. Que ainda tem espaço para receber aqueles outros e também já estive a ver a possibilidade de crivar as paredes da garagem de prateleiras e armários para poder guardar o que tenho e o que continuarei a comprar.
Para algumas pessoas isto seria demais, mas os meus livros dão-me segurança. Em quê? Não sei. Muitos dos que aqui estão não os li, outros li parcialmente, outros li e não volto a ler...(mas, quando tenho essa certeza e não me trouxeram nada de importante, dou-os na biblioteca ou troco-os no alfarrabista), outros são de consulta, outros são para ver as imagens, outros para recordar lugares onde fui, outros para não me esquecer de lugares onde quero ir...São livros! O Amor não se explica.
Tendo-me debatido com estas questões desde que iniciei esta jornada de limpezas tive agora uma grande alegria. Recebi uma mensagem de uma amiga a pedir um livro que necessita para um trabalho em que está muito empenhada. A seguir falámos ao telefone para eu perceber melhor que tipo de livros ela está a precisar e, depois de uma varridela na estante cá de casa, arranjei todos os livros que ela precisava e mais dois que lhe sugiro por me parecerem afins do que está a necessitar. E fiquei tão contente! Todos aqueles livros ganharam outra dimensão: a da utilidade para outros!
Neste ano lectivo em que a minha disponibilidade para os outros tem sido uma das minhas fontes de alegria, esta visita proveitosa à estante reconciliou-me com os meus amores, as minhas obsessões e os meus fantasmas. Se a Marie Kondo é fanática por deitar fora eu sou fanática por guardar o que me traz boas lembranças e me torna uma pessoa útil.E me faz feliz! Assim, tão só!
Estou muito grata pela situação de hoje!
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
As relações em espelho
Andar em grandes limpezas e arrumações faz com que o nosso (pelo menos o meu) cérebro faça reflexões profundas.
Vou pensando cada vez mais que a japonesa das arrumações tem razão: ao arrumar a nossa casa arrumamos muito mais que a casa, tralha, questões materiais, arrumamos mesmo a nossa vida. Nunca pensei que o pequeníssimo livro dela tivesse tanto efeito em mim: se começar à procura de um gatilho em todas as minhas transformações recentes, sou capaz de chegar até à leitura do livro dela, que não sei se foi anterior ou não ao retiro de meditação, mas foi certamente anterior ao meu início do taichi. De forma que esta minha procura de o que é que começou a minha mudança se vai revelando uma viagem «pescadinha de rabo na boca», porque não consigo determinar o que é que a começou, mas se calhar foi um processo interno, uma maturação, um ponto de chegada que determinou em por-me à procura e encontrar o livro, o retiro, o curso, o grupo...o afastamento do trabalho e este tempo de pensar.
O parágrafo anterior foi um desvio àquilo que vinha dizer...
Entre as muitas coisas que vou encontrando no sótão e que me fazem recordar coisas, encontrei um divórcio completo. Não meu. O de uma amiga minha, que teve como resultados materiais para aduzir ao sótão um conjunto de revistas de História que o marido tinha na casa de que tinham de se livrar e várias prendas dela para mim numa época em que ficámos muito próximas, por eu ter servido um pouco de ponto de apoio.
Entre as prendas que recuperei agora está um lindo expositor (não sei como se chama àquilo) para bolos (um prato e uma campânula) em vidro. Estava ainda dentro da caixa original de uma marca cara, muito conhecida e reconhecida pela qualidade. Lembro-me de ter pensado o que iria fazer com aquilo. Fiquei muito perplexa porque, sobretudo naquela época, aquela prenda nada tinha a ver comigo: não cozinhava e quase não recebia visitas; para que precisaria eu de uma coisa tipo «família e amigos: grande recepção cá em casa»?
Ontem retirei-a da caixa, lavei-a, sequei-a e dei-lhe um novo lar num armário que libertei para as louças que virão do sótão da minha outra vida. Voltei a pensar na razão de ser daquela prenda. Depois contemplei o serviço de chá que tenho na cozinha que ela me ofereceu, porque era imprescindível para o pequeno almoço...meu, que uso uma caneca para o leite.
Mas depois pensei que, naquela época, eu também lhe ofereci prendas que tinham a ver com a minha maneira de ser e de pensar e não com a dela: lembro-me particularmente de um tachinho de grés, pequenino, para fazer ou aquecer no forno uma ou duas doses de comida, não dava para mais. E lembro-me da perplexidade dela, habituada a objectos e utensílios para a sua vasta família e amigos.
E depois comecei a pensar que, frequentemente, nós não pensamos nos outros na sua individualidade e tentamos molda-los à nossa imagem e semelhança.
Para mim o divórcio dela era a oportunidade de ela viver aquilo que eu considero a verdadeira felicidade: estar sozinha, calma e em paz, não ter que se preocupar com nada nem ninguém da porta para dentro; tornar o lar o nosso castelo, (forte, refúgio, resort, bunker), o que for preciso para atingir o nirvana do isolamento; ela acalentava a esperança de que eu, com a minha independência e a minha casa, descobrisse a verdadeira felicidade: constituir uma família com marido e filhos (ou enteados, que naquela altura talvez já fosse tarde para ter meus, ou pelo menos tarde para ter vários) e necessitasse de toda a aparelhagem correspondente a uma feliz dona de casa.
Ela casou-se de novo, claro. Era o seu modelo de felicidade. Eu continuo sozinha, claro. É o meu modelo de felicidade.
Pergunto-me o que terá feito ao pequeno tacho?
Vou pensando cada vez mais que a japonesa das arrumações tem razão: ao arrumar a nossa casa arrumamos muito mais que a casa, tralha, questões materiais, arrumamos mesmo a nossa vida. Nunca pensei que o pequeníssimo livro dela tivesse tanto efeito em mim: se começar à procura de um gatilho em todas as minhas transformações recentes, sou capaz de chegar até à leitura do livro dela, que não sei se foi anterior ou não ao retiro de meditação, mas foi certamente anterior ao meu início do taichi. De forma que esta minha procura de o que é que começou a minha mudança se vai revelando uma viagem «pescadinha de rabo na boca», porque não consigo determinar o que é que a começou, mas se calhar foi um processo interno, uma maturação, um ponto de chegada que determinou em por-me à procura e encontrar o livro, o retiro, o curso, o grupo...o afastamento do trabalho e este tempo de pensar.
O parágrafo anterior foi um desvio àquilo que vinha dizer...
Entre as muitas coisas que vou encontrando no sótão e que me fazem recordar coisas, encontrei um divórcio completo. Não meu. O de uma amiga minha, que teve como resultados materiais para aduzir ao sótão um conjunto de revistas de História que o marido tinha na casa de que tinham de se livrar e várias prendas dela para mim numa época em que ficámos muito próximas, por eu ter servido um pouco de ponto de apoio.
Entre as prendas que recuperei agora está um lindo expositor (não sei como se chama àquilo) para bolos (um prato e uma campânula) em vidro. Estava ainda dentro da caixa original de uma marca cara, muito conhecida e reconhecida pela qualidade. Lembro-me de ter pensado o que iria fazer com aquilo. Fiquei muito perplexa porque, sobretudo naquela época, aquela prenda nada tinha a ver comigo: não cozinhava e quase não recebia visitas; para que precisaria eu de uma coisa tipo «família e amigos: grande recepção cá em casa»?
Ontem retirei-a da caixa, lavei-a, sequei-a e dei-lhe um novo lar num armário que libertei para as louças que virão do sótão da minha outra vida. Voltei a pensar na razão de ser daquela prenda. Depois contemplei o serviço de chá que tenho na cozinha que ela me ofereceu, porque era imprescindível para o pequeno almoço...meu, que uso uma caneca para o leite.
Mas depois pensei que, naquela época, eu também lhe ofereci prendas que tinham a ver com a minha maneira de ser e de pensar e não com a dela: lembro-me particularmente de um tachinho de grés, pequenino, para fazer ou aquecer no forno uma ou duas doses de comida, não dava para mais. E lembro-me da perplexidade dela, habituada a objectos e utensílios para a sua vasta família e amigos.
E depois comecei a pensar que, frequentemente, nós não pensamos nos outros na sua individualidade e tentamos molda-los à nossa imagem e semelhança.
Para mim o divórcio dela era a oportunidade de ela viver aquilo que eu considero a verdadeira felicidade: estar sozinha, calma e em paz, não ter que se preocupar com nada nem ninguém da porta para dentro; tornar o lar o nosso castelo, (forte, refúgio, resort, bunker), o que for preciso para atingir o nirvana do isolamento; ela acalentava a esperança de que eu, com a minha independência e a minha casa, descobrisse a verdadeira felicidade: constituir uma família com marido e filhos (ou enteados, que naquela altura talvez já fosse tarde para ter meus, ou pelo menos tarde para ter vários) e necessitasse de toda a aparelhagem correspondente a uma feliz dona de casa.
Ela casou-se de novo, claro. Era o seu modelo de felicidade. Eu continuo sozinha, claro. É o meu modelo de felicidade.
Pergunto-me o que terá feito ao pequeno tacho?
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terça-feira, 24 de dezembro de 2019
Da compreensão da teoria da possibilidade
"- Mas...estás apaixonada? - indagou tentando justificar o brilho que ela irradiava.
- Não - disse ela, devagar, o que conferia credibilidade à afirmação - Mas podia estar.
- Claro que podias estar. Qualquer pessoa pode estar...ficar...
- Não. - continuava a mover as palavras devagar no tabuleiro daquela conversa - Eu não. Mas agora compreendi que afinal também posso estar, ficar...apaixonar-me. Que também eu sou, ainda sou...
- Oh querida! Claro que és apaixonável. Todos nós sabemos isso. Era isso que ias dizer, não era?
- Não é bem isso...não creio que haja uma palavra para exprimir o que quero dizer. Também eu me posso apaixonar. Não é preciso ser agora. Nem é preciso ser...Mas é possível. Agora é possível!
O ar dela dispensava considerações de outrem. Parecia estar numa conversa distante consigo própria. E uma conversa satisfatória.
A amiga recolheu qualquer opinião pensando que o Natal deixa os temperamentos alterados, tudo fica mais sensível e...bem, já tinha visto situações muito piores. Esta era...intrigante, talvez...mas não preocupante. E, definitivamente, não solicitava qualquer intervenção da sua parte.
Por isso ficaram caladas, olhando as estrelas num céu invulgarmente brilhante para a época natalícia."
Boas Festas!
Porque festas são sempre boas.
- Não - disse ela, devagar, o que conferia credibilidade à afirmação - Mas podia estar.
- Claro que podias estar. Qualquer pessoa pode estar...ficar...
- Não. - continuava a mover as palavras devagar no tabuleiro daquela conversa - Eu não. Mas agora compreendi que afinal também posso estar, ficar...apaixonar-me. Que também eu sou, ainda sou...
- Oh querida! Claro que és apaixonável. Todos nós sabemos isso. Era isso que ias dizer, não era?
- Não é bem isso...não creio que haja uma palavra para exprimir o que quero dizer. Também eu me posso apaixonar. Não é preciso ser agora. Nem é preciso ser...Mas é possível. Agora é possível!
O ar dela dispensava considerações de outrem. Parecia estar numa conversa distante consigo própria. E uma conversa satisfatória.
A amiga recolheu qualquer opinião pensando que o Natal deixa os temperamentos alterados, tudo fica mais sensível e...bem, já tinha visto situações muito piores. Esta era...intrigante, talvez...mas não preocupante. E, definitivamente, não solicitava qualquer intervenção da sua parte.
Por isso ficaram caladas, olhando as estrelas num céu invulgarmente brilhante para a época natalícia."
Boas Festas!
Porque festas são sempre boas.
Relatos de uma Transformação Autosurpreendente
Nem Polícia nem Espanhol
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Pra minha estante de memoráveis...a quem devo o que sou
O dia em que se termina a leitura de um livro é um dia ganho.
Hoje terminei de ler um livro: Maria Adelaide Coelho da Cunha, Doida Não e Não!: Um Escândalo em Portugal no início do séc. XX, escrito por Manuela Gonzaga e publicado pela Bertrand em 2009.
Muito bom. Um livro que prendeu muito a minha atenção por diversas razões:
- está muito bem escrito
- relata uma história real
- é um estudo histórico metodologicamente bem feito e disponibiliza as fontes
- tece considerações muito interessantes acerca do contexto histórico
- faz-nos pensar no que é "ter tudo" no conceito do senso comum, nos conceitos de justiça, de moral e, sobretudo faz-nos pensar no que é o condicionamento social sobretudo para uma mulher. E também a diferença entre o que está escrito na lei e o que muitas vezes se pratica.
Demorei muito a ler este livro. Não o lia assim, de ânimo leve, aos bocadinhos entre coisas, como faço com tantos outros livros. Li-o quase de uma forma religiosa, não é bem religiosa...respeitosa. Respeitosa pela memória de quem viveu aquela história, de quem guardou as provas, de quem investigou e escreveu, de quem publicou.
Este era um livro cheio de gente, cheio de conceitos e de preconceitos.
Preparava a leitura de cada capítulo com cuidado, verificando se tinha tempo de encetar e cumprir aquela etapa.
Foi um livro que li com três marcadores.
Um livro que se lê com três marcadores é uma obra de respeito.
Um dos marcadores assinalava, obviamente, a página em que a leitura terminara (ou, mais exactamente, em que a próxima leitura começaria), outro marcador assinalava as notas de final de capítulo, de forma a que a sua consulta fosse fácil e célere e não interrompesse a leitura, antes a completasse. E o último marcador assinalava as referências (bibliografia e fontes) a que recorria por vezes para ampliar o conhecimento do texto e das notas.
Terminei-o hoje num café onde gosto de ler.
Prolonguei depois a leitura no registo de algumas citações e neste registo reflexivo.
O livro é emprestado e sei que terei dificuldade em separar-me dele.
Em separar-me das suas personagens, da imensa admiração com que fiquei pelos seus protagonistas principais e do encontro ou reencontro com tantas personagens do Portugal da 1ª República, que tanto me fascina. Mas que também vai, cada vez mais, me desiludindo.
As figuras que estudamos como grandes, envolvidas em enredos mesquinhos que não tinham outro objetivo senão manter o status quo dos seus pares...
Maria Adelaide Coelho da Cunha ficou agora, nas minhas estantes de memoráveis, junto de Manuel Buiça. Alguém que não abdica da sua integridade e vai em frente realizando o que considera certo, ainda que isso afronte toda a sociedade. Ambos são casos de amor e de ruptura. Ela rompe um casamento "de capa de revista" para assumir um amor que ninguém no seu meio compreenderá: um homem mais novo e pobre. Ele rompe com a vida (literalmente) por amor à Pátria e aos ideais da República. Certo é que ele mata uma pessoa, seria o que hoje chamaríamos um assassino e um terrorista, mas não consigo deixar de me fascinar com a sua figura, com a sua actuação, com o seu testamento para os filhos invocando os valores morais pelos quais agiu.
Quantos de nós teríamos a coragem de enfrentar assim a sociedade, de lutar até ao fim pelos nossos princípios? Quantos de nós seríamos capazes de verdadeiramente vestir a palavra herói?
Sei que chamar herói a um assassino não será politicamente correcto e que, se eu olhar do outro lado, a família real destruída ( a vida da D. Amélia impressiona-me muito pelo sofrimento) e um país que nem sequer soube honrar a dádiva de vida dos regicidas, o sacrifício de Manuel Buíça terá sido em vão...mas as vidas destas duas personagens estão de alguma maneira ligadas à minha: mulher livre, republicana, independente. Sem eles, eu não seria possível. Obrigada!
Hoje terminei de ler um livro: Maria Adelaide Coelho da Cunha, Doida Não e Não!: Um Escândalo em Portugal no início do séc. XX, escrito por Manuela Gonzaga e publicado pela Bertrand em 2009.
Muito bom. Um livro que prendeu muito a minha atenção por diversas razões:
- está muito bem escrito
- relata uma história real
- é um estudo histórico metodologicamente bem feito e disponibiliza as fontes
- tece considerações muito interessantes acerca do contexto histórico
- faz-nos pensar no que é "ter tudo" no conceito do senso comum, nos conceitos de justiça, de moral e, sobretudo faz-nos pensar no que é o condicionamento social sobretudo para uma mulher. E também a diferença entre o que está escrito na lei e o que muitas vezes se pratica.
Demorei muito a ler este livro. Não o lia assim, de ânimo leve, aos bocadinhos entre coisas, como faço com tantos outros livros. Li-o quase de uma forma religiosa, não é bem religiosa...respeitosa. Respeitosa pela memória de quem viveu aquela história, de quem guardou as provas, de quem investigou e escreveu, de quem publicou.
Este era um livro cheio de gente, cheio de conceitos e de preconceitos.
Preparava a leitura de cada capítulo com cuidado, verificando se tinha tempo de encetar e cumprir aquela etapa.
Foi um livro que li com três marcadores.
Um livro que se lê com três marcadores é uma obra de respeito.
Um dos marcadores assinalava, obviamente, a página em que a leitura terminara (ou, mais exactamente, em que a próxima leitura começaria), outro marcador assinalava as notas de final de capítulo, de forma a que a sua consulta fosse fácil e célere e não interrompesse a leitura, antes a completasse. E o último marcador assinalava as referências (bibliografia e fontes) a que recorria por vezes para ampliar o conhecimento do texto e das notas.
Terminei-o hoje num café onde gosto de ler.
Prolonguei depois a leitura no registo de algumas citações e neste registo reflexivo.
O livro é emprestado e sei que terei dificuldade em separar-me dele.
Em separar-me das suas personagens, da imensa admiração com que fiquei pelos seus protagonistas principais e do encontro ou reencontro com tantas personagens do Portugal da 1ª República, que tanto me fascina. Mas que também vai, cada vez mais, me desiludindo.
As figuras que estudamos como grandes, envolvidas em enredos mesquinhos que não tinham outro objetivo senão manter o status quo dos seus pares...
Maria Adelaide Coelho da Cunha ficou agora, nas minhas estantes de memoráveis, junto de Manuel Buiça. Alguém que não abdica da sua integridade e vai em frente realizando o que considera certo, ainda que isso afronte toda a sociedade. Ambos são casos de amor e de ruptura. Ela rompe um casamento "de capa de revista" para assumir um amor que ninguém no seu meio compreenderá: um homem mais novo e pobre. Ele rompe com a vida (literalmente) por amor à Pátria e aos ideais da República. Certo é que ele mata uma pessoa, seria o que hoje chamaríamos um assassino e um terrorista, mas não consigo deixar de me fascinar com a sua figura, com a sua actuação, com o seu testamento para os filhos invocando os valores morais pelos quais agiu.
Quantos de nós teríamos a coragem de enfrentar assim a sociedade, de lutar até ao fim pelos nossos princípios? Quantos de nós seríamos capazes de verdadeiramente vestir a palavra herói?
Sei que chamar herói a um assassino não será politicamente correcto e que, se eu olhar do outro lado, a família real destruída ( a vida da D. Amélia impressiona-me muito pelo sofrimento) e um país que nem sequer soube honrar a dádiva de vida dos regicidas, o sacrifício de Manuel Buíça terá sido em vão...mas as vidas destas duas personagens estão de alguma maneira ligadas à minha: mulher livre, republicana, independente. Sem eles, eu não seria possível. Obrigada!
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
E no entanto algo está a mudar. Devagar. Sem alarde...e esperemos que vindo para ficar.
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
Finitude e Gratidão em dia de estudos taoistas
Tudo o que começa acaba!
Dos quatro quartos em que pode dividir-se o círculo perfeito que resultou da minha decisão, um já se foi. Aí começa a perceber-se que o tempo se escoa, que tudo é finito e que aquilo que me está a saber tão bem acabará, inevitavelmente, por acabar.
Mais uma vez penso em que passamos o tempo a preocupar-nos com o futuro, que poderá nem chegar...
Quem sabe se eu não acabo antes de cumprir o círculo?
Oh! Não! Que horror!
Povoam-me agora o espírito imagens catastróficas e cataclismicas.
Mais do mesmo: adianta preocupar? Não.
Fazemos o que é possível. Ao que parece o primeiro quarto foi necessário para descansar e, sobretudo, para acreditar.
O segundo quarto parece estar a começar com mais energia e algum vislumbre de método.
Se tudo tende para a perfeição, como quero acreditar, este círculo trará tudo o que preciso. De qualquer maneira, trará o que for possível.
Para empurrar o tempo já chegam todos os outros círculos que ficaram antes deste e provavelmente os que se lhe seguirão. Mas também terão sido necessários para chegar aqui. Somos os nosso percursos e mesmo quando abandonamos um caminho não podemos renegá-lo: não poderíamos tê-lo abandonado se nunca o tivéssemos trilhado. Ele fará sempre parte de nós, do que fomos, do que somos, do que conseguimos ser.
Hoje Deus deu-me um dia magnífico, com o sol a brilhar nas águas do mar e o lugar perfeito para fazer o que mais gosto: estudar, aprender, progredir.
Tendo a pensar: se hoje fosse o último dia da minha existência ele teve momentos magníficos pelos quais me sinto muito grata.
Dos quatro quartos em que pode dividir-se o círculo perfeito que resultou da minha decisão, um já se foi. Aí começa a perceber-se que o tempo se escoa, que tudo é finito e que aquilo que me está a saber tão bem acabará, inevitavelmente, por acabar.
Mais uma vez penso em que passamos o tempo a preocupar-nos com o futuro, que poderá nem chegar...
Quem sabe se eu não acabo antes de cumprir o círculo?
Oh! Não! Que horror!
Povoam-me agora o espírito imagens catastróficas e cataclismicas.
Mais do mesmo: adianta preocupar? Não.
Fazemos o que é possível. Ao que parece o primeiro quarto foi necessário para descansar e, sobretudo, para acreditar.
O segundo quarto parece estar a começar com mais energia e algum vislumbre de método.
Se tudo tende para a perfeição, como quero acreditar, este círculo trará tudo o que preciso. De qualquer maneira, trará o que for possível.
Para empurrar o tempo já chegam todos os outros círculos que ficaram antes deste e provavelmente os que se lhe seguirão. Mas também terão sido necessários para chegar aqui. Somos os nosso percursos e mesmo quando abandonamos um caminho não podemos renegá-lo: não poderíamos tê-lo abandonado se nunca o tivéssemos trilhado. Ele fará sempre parte de nós, do que fomos, do que somos, do que conseguimos ser.
Hoje Deus deu-me um dia magnífico, com o sol a brilhar nas águas do mar e o lugar perfeito para fazer o que mais gosto: estudar, aprender, progredir.
Tendo a pensar: se hoje fosse o último dia da minha existência ele teve momentos magníficos pelos quais me sinto muito grata.
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