sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Invernia

O vermelho de uma sardinheira que desponta na varanda é a única nota de alegria na tarde cinzenta que enche as vidraças da janela.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A Memória habita a Cidade

"(...) Uma descrição de Zaira tal como é hoje deveria conter todo o passado de Zaira. Mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das uas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos para-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes."

As Cidades e a Memória 3. in Calvino, Italo, As Cidades Invisíveis, Lisboa, D. Quixote, 2016 (3ªedição), pp. 18-19

domingo, 2 de outubro de 2016

Sobre o Renascimento

"O estudo da história ensinou a importância da acção do indivíduo no mundo, para assegurar a fama individual, mas também encorajou as pessoas letradas para servirem o bem comum, ao participarem na vida cívica."

A Nova História de Arte de Janson, p. 518

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Livros

Estou há quase três anos nesta nova casa e ainda não arrumei a minha biblioteca. Que vergonha!
Existe um quarto livre na casa e os livros têm sido derramados pelo chão em cada demanda de um título nos imensos caixotes que os albergavam.
É que este arrumar de biblioteca carece de um tempo e espírito científico que não me têm apetecido.
Eu trouxe da outra casa uma estante (linda!) que eu mandei fazer para dividir a sala em dois. Os quadrados para arrumação de livros (num total de 32) abriam para ambos os lados da sala assim dividida: num lado, sala de estar visível logo para quem entrava (e os quadrados tinham as clássicas enciclopédias, histórias de Portugal e literatura encadernada a azul e vermelho), outro lado para um escritório, em que os quadrados exibiam pastas e dossiers, assim como manuais escolares e material de colóquios e seminários encadernados com argolas brancas.
Nesta casa a sala é bastante maior. A estante foi encostada à parede. Os quadrados da parte de trás, agora cegos, não conseguiam resistir às brincadeiras das gatas e aceitavam guardar os desperdícios das suas arremetidas: livros e cadernos que se iam acumulando entre a estante e a parede e que eram quase irrecuperáveis.
Decidi então mandar fechar a parte de trás da estante, ficando agora com o mesmo espaço para guardar livros, sendo que havia uma fila atrás - invisível - e a fila apresentável de livros, normalmente, grandes.
Como iria eu saber o que estava na fila de trás?
Só registando todos os livros seria possível não os perder!
Nasceu assim este projeto/necessidade de registar todo o meu espólio bibliográfico
Delineado o ficheiro excel há muitos meses, só hoje começou a ser preenchido.
De uma tarefa metódica e maçadora este registo de livros revelou-se uma viagem a muitos locais e afetos: as livrarias e ocasiões em que certos livros foram comprados; as viagens em que foram comprados, as dedicatórias que emergem das primeiras páginas, as fotografias e postais que se acolhiam em muitas páginas.
Arrumar estes livros (ainda vou só no princípio) revelou-se uma viagem que já me arrancou lágrimas e sorrisos. E que me dá a certeza de ter, afinal, uma vida bem vivida e bem acompanhada.
Se eu suspeitava que era possível sentir isto numa tarefa de registo de dados em excel!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Talvez hoje seja um dia tão bom como outro qualquer para voltar aqui...
Talvez nenhum dia seja como outro qualquer, uma vez que não existem dois dias iguais.
Eu já pensava em voltar aqui...
Talvez até fosse hoje, ou talvez não...
O que é certo é que o dia de hoje foi completamente inesperado, com visitas e falas do estrangeiro, com o avivar de projetos que sempre acontece quando estou perto de gente com iniciativa e generosidade.
O sol hoje esteve mais quente, a brisa soprava boas novas e o dia termina tarde, com sabor a férias.
Hoje foi um dia de muitas palavras, algumas para guardar.
Hoje foi dia de pensar em palavras: como se diz? espera, primeiro em alemão...já te digo o que quero dizer...
Falámos em quatro línguas: inglês, alemão, francês e português.
E falámos que nos fartámos.
A nossa sede de conversa resvalava para a língua natal, que é mais fácil e mais rápido. Depois pediamos-lhe desculpa a ele. Que não fazia mal, que compreendia...Mas foi buscar uma folha de papel e uma caneta e conseguiu centrar a conversa na estrutura dos sistemas de ensino dos vários países: o seu, de origem, aquele onde vive e leciona e o de Portugal.
Três professores apaixonados por aquilo que fazem a trocar informações (em quatro línguas) sobre os sistemas de ensino e o que é ser professor aí pelo mundo.
Do lanche passou-se ao jantar. História, Identidade, Cidadania, Ensino...De todos estes temas e de como os ensinar fez-se a conversa lesta.
A noite acabou tarde e só por causa da viagem que eles empreendem amanhã, runo à cidade berço da nossa nacionalidade. Ele levará o verde dos nossos campos para o cinzento das suas montanhas de Inverno. E em breve, que o Verão passa num ápice e as nossas salas de aula situam-se a países de diferença.
Foi muito bom o dia de hoje!

domingo, 3 de abril de 2016

"- Como foi a festa, Maria?
- Foi boa. A avó estava muito mocionada.
- Emocionada.
- Foi o que eu disse: mocionada. E cantaram os parabéns E ela chorou quando viu que o bolo era de morangos e chantilly.
- Ah! Que lindo: lembraram-se que era o que ela sempre pedia quando era pequenina.
- Pois, eles contaram isso. E como na altura não podia ser e agora já pode, fizeram um bolo grande cheio de morangos e chantilly.
- Olha foi uma linda lembrança da parte deles. – disse a mãe, com alguma pena de já não pertencer à família. Depois pensou em aproveitar mais uma oportunidade de ensinar coisas novas à filha – E tu percebeste porque é que quando a avó era pequenina não podia ter morangos com chantilly no aniversário?
 - Sim – disse desembraçada a pequena – A avó explicou-me tudo. Era porque, na altura, as árvores só davam chantilly lá para o Verão!"

Voltar

Agirmos por recompensa tem destas coisas. Sabia que um dia, quando terminasse outras lides em que me meti, haveria de voltar aqui. Haveria de voltar às palavras por puro prazer.