Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
O Restelo é um sítio óptimo para se ser velho!
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Cumpriu
A minha varanda cá estava à minha espera.
O rio continua, acolhedoramente, o seu curso.
Hoje não tive tempo de observar o lusco-fusco...mas tenho a certeza que os patitos e as garças terão sentido a minha falta.
Agora, à noite, o cheiro a Verão enche a casa e a televisão está sem som para ouvir o cantar do rio.
Boa noite!
O rio continua, acolhedoramente, o seu curso.
Hoje não tive tempo de observar o lusco-fusco...mas tenho a certeza que os patitos e as garças terão sentido a minha falta.
Agora, à noite, o cheiro a Verão enche a casa e a televisão está sem som para ouvir o cantar do rio.
Boa noite!
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domingo, 31 de agosto de 2014
A minha varanda nova
É o primeiro Verão que tenho estas varandas.
Na varanda da frente - que na realidade é nas traseiras do prédio - há sempre um espectáculo diferente em cada fim de tarde.
Por vezes é o casal de garças que se reúne ao lusco-fusco, hoje era um grupo de 7 patinhos que avançavam cautelosamente pelo rio, tasquinhando alegremente iguarias patais que devem encontrar-se fresquinhas no rio, agora limpo.
A gata vadia. que pela sua liberdade faz inveja às minhas bichanas, regressou agora ao condomínio.
O breve murmurar da água enche a atmosfera que hoje esteve cheia dos risos de um grupo de jovens de uma equipa desportiva que aqui se fez fotografar.
Amanhã tudo ganha a gravidade do primeiro dia da semana e do ano escolar.
Eu saio cedo para mais um exame de equivalência à frequência, a biblioteca abrirá às dez, com as suas janelas voltadas para o jardim e o rio, outrora força motriz da indústria que construiu os edifícios hoje dedicados à cultura.
Coço a picada de uma melga, esfrego os olhos para divisar as letras do teclado num lusco que já quase é só fusco.
Vou parar de escrever. Sorver a noite de verão na minha varanda nova, ouvir o rio a correr em férias pela última vez neste ano escolar que termina hoje, porque amanhã é já outro.
E a minha varanda acalma-me, garante-me que vai cá estar em cada fim de tarde, de regresso ao barulho do rio, ao lusco-fusco surpreendente de toda uma fauna calma, acolhendo-me no remanso do meu espaço novo.
Na varanda da frente - que na realidade é nas traseiras do prédio - há sempre um espectáculo diferente em cada fim de tarde.
Por vezes é o casal de garças que se reúne ao lusco-fusco, hoje era um grupo de 7 patinhos que avançavam cautelosamente pelo rio, tasquinhando alegremente iguarias patais que devem encontrar-se fresquinhas no rio, agora limpo.
A gata vadia. que pela sua liberdade faz inveja às minhas bichanas, regressou agora ao condomínio.
O breve murmurar da água enche a atmosfera que hoje esteve cheia dos risos de um grupo de jovens de uma equipa desportiva que aqui se fez fotografar.
Amanhã tudo ganha a gravidade do primeiro dia da semana e do ano escolar.
Eu saio cedo para mais um exame de equivalência à frequência, a biblioteca abrirá às dez, com as suas janelas voltadas para o jardim e o rio, outrora força motriz da indústria que construiu os edifícios hoje dedicados à cultura.
Coço a picada de uma melga, esfrego os olhos para divisar as letras do teclado num lusco que já quase é só fusco.
Vou parar de escrever. Sorver a noite de verão na minha varanda nova, ouvir o rio a correr em férias pela última vez neste ano escolar que termina hoje, porque amanhã é já outro.
E a minha varanda acalma-me, garante-me que vai cá estar em cada fim de tarde, de regresso ao barulho do rio, ao lusco-fusco surpreendente de toda uma fauna calma, acolhendo-me no remanso do meu espaço novo.
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Recomendável
Muito bom, muito bom!
Talvez devêssemos hoje em dia rever a coragem, a estratégia e a inteligência de outros tempos.
Se calhar é difícil encontrar hoje os documentos porque escreviam pouco, mas, como se vê, faziam muito.
Talvez não fosse má ideia estudar História, incentivar o estudo da História, inspirarmo-nos na História.
Aqui fica um excelente documentário!
Talvez devêssemos hoje em dia rever a coragem, a estratégia e a inteligência de outros tempos.
Se calhar é difícil encontrar hoje os documentos porque escreviam pouco, mas, como se vê, faziam muito.
Talvez não fosse má ideia estudar História, incentivar o estudo da História, inspirarmo-nos na História.
Aqui fica um excelente documentário!
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sexta-feira, 29 de agosto de 2014
"Ela sabia que aquilo ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.
Aquelas visitas regulares, insípidas, mas persistentes. Aquele enrolar das mãos por não saber o que dizer, aquele «estou aqui porque quero estar contigo»...
Parecia um namoro à moda antiga.
Ela questionava-se todos os dias porque o deixava entrar, estar, ter esperança.
Depois concluiu que talvez valesse a pena tentar. Afinal se todos os outros acasalavam ou pareciam loucos para o fazer, ter alguém devia ser encantador.
Mas é que não era.
«Não será a pessoas certa» questionava-se. «Mas isso existirá?». «Afinal de contas sempre pus defeitos em toda a gente, nunca vi vantagem em estar acompanhada...devo estar errada...com certeza não serão os outros todos a estar errados...»
«E ele é tão bom rapaz»; «E seria moço para te fazer feliz», «Se não lhe deres uma oportunidade nunca acontecerá»; E todos os outros argumentos que tinham o seu quê de verdade.
Ele perguntou um dia se poderia aparecer à noite e ela lá lhe disse que sim.
Abdicou de estar em calções ou em pijama e muito menos descalça, que o moço deveria vê-la composta...Com posta, cabeça e rabo, sentia-se ela ali, pescada na sua própria casa, sem estar à-vontade.
E chato....que ele era, coitado!
Foi quando começou a acrescentar o epíteto «coitado» aos seus pensamentos sobre ele que começou a ter dúvidas. Ou melhor, certezas. Dúvidas ela sempre tinha tido e foi do aproveitamento dessas dúvidas que nasceu a possibilidade daquele incómodo diário.
Naquele dia ele torceu mais as mãos que o costume e ela esfregou as suas (mentalmente) de contente. Ele ia decidir-se e aquilo ia poder ter um fim.
Ele lá murmurou a declaração, ou proposição, que ela nem soube bem o que aquilo era: era o pretexto para poderem ter uma conversa definitiva, foi assim que ela o recebeu.
- E o que é que tu tens para me oferecer? - ouviu-se dizer, regateira da praça, economista dos sentimentos e das relações.
- Eu. O que eu tenho para te oferecer é o que tu vês - ele, de olhos baixos, já desconfiado daquela reacção que não vinha nos romances
- E porque é que tu achas que vales a pena? - investiu ela, cruel
Ele não conseguiu responder. Talvez tenha pensado que não valia a pena (isso, ela só pensou dias depois). Virou as costas e desceu a rua sem olhar para trás, os ombros descaídos em sinal de derrota.
Ela fechou a porta triunfante quando ele chegou ao fim da rua. Descalçou-se. Sentiu o frio do mármore nas plantas dos pés. Tinha recuperado a sua liberdade!
Era impossível que os outros não vissem que era muito melhor estar sozinha.
Afinal o que é que os outros viam nos outros?
Decidiu que não valia a pena pensar nisso e que nessa noite ia dormir nua, esplêndida, sozinha...ou consigo mesma?"
Aquelas visitas regulares, insípidas, mas persistentes. Aquele enrolar das mãos por não saber o que dizer, aquele «estou aqui porque quero estar contigo»...
Parecia um namoro à moda antiga.
Ela questionava-se todos os dias porque o deixava entrar, estar, ter esperança.
Depois concluiu que talvez valesse a pena tentar. Afinal se todos os outros acasalavam ou pareciam loucos para o fazer, ter alguém devia ser encantador.
Mas é que não era.
«Não será a pessoas certa» questionava-se. «Mas isso existirá?». «Afinal de contas sempre pus defeitos em toda a gente, nunca vi vantagem em estar acompanhada...devo estar errada...com certeza não serão os outros todos a estar errados...»
«E ele é tão bom rapaz»; «E seria moço para te fazer feliz», «Se não lhe deres uma oportunidade nunca acontecerá»; E todos os outros argumentos que tinham o seu quê de verdade.
Ele perguntou um dia se poderia aparecer à noite e ela lá lhe disse que sim.
Abdicou de estar em calções ou em pijama e muito menos descalça, que o moço deveria vê-la composta...Com posta, cabeça e rabo, sentia-se ela ali, pescada na sua própria casa, sem estar à-vontade.
E chato....que ele era, coitado!
Foi quando começou a acrescentar o epíteto «coitado» aos seus pensamentos sobre ele que começou a ter dúvidas. Ou melhor, certezas. Dúvidas ela sempre tinha tido e foi do aproveitamento dessas dúvidas que nasceu a possibilidade daquele incómodo diário.
Naquele dia ele torceu mais as mãos que o costume e ela esfregou as suas (mentalmente) de contente. Ele ia decidir-se e aquilo ia poder ter um fim.
Ele lá murmurou a declaração, ou proposição, que ela nem soube bem o que aquilo era: era o pretexto para poderem ter uma conversa definitiva, foi assim que ela o recebeu.
- E o que é que tu tens para me oferecer? - ouviu-se dizer, regateira da praça, economista dos sentimentos e das relações.
- Eu. O que eu tenho para te oferecer é o que tu vês - ele, de olhos baixos, já desconfiado daquela reacção que não vinha nos romances
- E porque é que tu achas que vales a pena? - investiu ela, cruel
Ele não conseguiu responder. Talvez tenha pensado que não valia a pena (isso, ela só pensou dias depois). Virou as costas e desceu a rua sem olhar para trás, os ombros descaídos em sinal de derrota.
Ela fechou a porta triunfante quando ele chegou ao fim da rua. Descalçou-se. Sentiu o frio do mármore nas plantas dos pés. Tinha recuperado a sua liberdade!
Era impossível que os outros não vissem que era muito melhor estar sozinha.
Afinal o que é que os outros viam nos outros?
Decidiu que não valia a pena pensar nisso e que nessa noite ia dormir nua, esplêndida, sozinha...ou consigo mesma?"
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"amo-te tanto mas hoje tenho de levar o carro ao mecânico, as rodas fazem um barulho estranho, não deve ser nada mas é melhor prevenir, amanhã prometo que vamos ver que tal se come naquele restaurante novo junto à rotunda, e depois levo-te ao cinema, ai não que não levo,
amo-te tanto mas hoje tenho de ver o treino do miúdo, o treinador ligou e disse-me que temos craque, o nosso menino a jogar como gente grande, vê lá tu, quando chegar com ele vê se tens prontinha aquela comida que ele adora, o puto merece, ai não que não merece,
amo-te tanto mas hoje tenho de ficar até tarde no escritório, há aquele projecto do estrangeiro para fechar, está aqui tudo perdido de nervos, não sei se aguento, daqui a pouco ligo-te para saber como vai tudo, o miúdo e as coisas aí em casa, agora tenho de ir mostrar a esta gente toda como se trabalha, ai não que não tenho,
amo-te tanto mas hoje tenho de me deitar cedo, amanhã é aquela reunião importante de que te falei, se conseguir o cliente vamos ser tão felizes, aquela casa, o carro novo, quem sabe?, só tenho de o conseguir convencer, tenho tudo prontinho na minha cabeça e nada pode falhar, vamos ser ricos, é o que é, ai não que não vamos,
amo-te tanto mas hoje não estás, cheguei à hora combinada para te levar a jantar e tu não estás, o miúdo também não, deve estar no treino, deixa-me cá ligar, ninguém atende, nem tu nem ele, provavelmente deves estar a preparar alguma, sempre foste tão assim, cheia de surpresas, daqui a nada entras pela porta e dizes que me amas, ai não que não dizes,
amo-te tanto mas hoje tenho de assinar este papel, olho-te e peço-te perdão, prometo-te que não vai haver mais mecânicos nem treinos nem clientes estrangeiros nem reuniões entre nós, garanto-te que te quero acima de tudo, olho-te mais uma vez nos olhos e procuro acalmar o que te dói, mas tu só dizes para eu assinar e eu assino, as mãos tremem e até já uma lágrima caiu sobre elas, o nosso filho quando souber vai chorar como um menino pequeno outra vez, o nosso craque, podias ficar pelo menos pelo nosso craque, ou pelo menos por mim, para me manteres vivo, Deus me salve de não te ter comigo, sou uma impossibilidade se não te tiver para gostar, ai não que não sou,
amo-te tanto mas hoje não tenho nada para fazer, a casa escura, um silêncio vazio e nada para fazer, apenas esperar que te esqueças de mim e me voltes a amar, e eu amo-te tanto, ai não que não amo."
-------------------------------
in "Prometo Falhar", a mais recente obra de Pedro Chagas Freitas.
amo-te tanto mas hoje tenho de ver o treino do miúdo, o treinador ligou e disse-me que temos craque, o nosso menino a jogar como gente grande, vê lá tu, quando chegar com ele vê se tens prontinha aquela comida que ele adora, o puto merece, ai não que não merece,
amo-te tanto mas hoje tenho de ficar até tarde no escritório, há aquele projecto do estrangeiro para fechar, está aqui tudo perdido de nervos, não sei se aguento, daqui a pouco ligo-te para saber como vai tudo, o miúdo e as coisas aí em casa, agora tenho de ir mostrar a esta gente toda como se trabalha, ai não que não tenho,
amo-te tanto mas hoje tenho de me deitar cedo, amanhã é aquela reunião importante de que te falei, se conseguir o cliente vamos ser tão felizes, aquela casa, o carro novo, quem sabe?, só tenho de o conseguir convencer, tenho tudo prontinho na minha cabeça e nada pode falhar, vamos ser ricos, é o que é, ai não que não vamos,
amo-te tanto mas hoje não estás, cheguei à hora combinada para te levar a jantar e tu não estás, o miúdo também não, deve estar no treino, deixa-me cá ligar, ninguém atende, nem tu nem ele, provavelmente deves estar a preparar alguma, sempre foste tão assim, cheia de surpresas, daqui a nada entras pela porta e dizes que me amas, ai não que não dizes,
amo-te tanto mas hoje tenho de assinar este papel, olho-te e peço-te perdão, prometo-te que não vai haver mais mecânicos nem treinos nem clientes estrangeiros nem reuniões entre nós, garanto-te que te quero acima de tudo, olho-te mais uma vez nos olhos e procuro acalmar o que te dói, mas tu só dizes para eu assinar e eu assino, as mãos tremem e até já uma lágrima caiu sobre elas, o nosso filho quando souber vai chorar como um menino pequeno outra vez, o nosso craque, podias ficar pelo menos pelo nosso craque, ou pelo menos por mim, para me manteres vivo, Deus me salve de não te ter comigo, sou uma impossibilidade se não te tiver para gostar, ai não que não sou,
amo-te tanto mas hoje não tenho nada para fazer, a casa escura, um silêncio vazio e nada para fazer, apenas esperar que te esqueças de mim e me voltes a amar, e eu amo-te tanto, ai não que não amo."
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in "Prometo Falhar", a mais recente obra de Pedro Chagas Freitas.
"Não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia"
Frase atribuída, no Facebook, a Nietzshe.
Frase atribuída, no Facebook, a Nietzshe.
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