"Nunca tinha sido grande coleccionadora.
Herdara uma colecção de carteirinhas de fósforos do pai e uma colecção, muito incompleta, de selos da mãe. Pouco lhes acrescentara. Às vezes abria os álbuns e as caixas e olhava as espécies. Intrigava-a ter todas aquelas coisas ali, quietas, sem ser para usar...Mas, o que iria fazer com aquilo? Os quadros que herdara da tia Margarida passaram a decorar a sala da lareira, a roupa que tinha - alguma também herdada - usava-a, exibi-a, gozava-se dela, mas as colecções...não serviam para nada, era até uma pena ter aquilo tudo ali preso.
Naquele dia ele telefonou mais uma vez. Era um daqueles telefonemas que ela andava a evitar há algum tempo. Tinha até enviado uma mensagem a pedir que não lhe ligasse mais, que não lhe apetecia falar com ele. Mesmo assim ele ligara mais três ou quatro vezes que ela não atendeu e depois ligou de um telefone fixo, num dia já disperso, em que ela pensava tê-lo dissuadido.
Atendeu por pensar que poderia ser de alguma firma, de alguma coisa importante.
A voz dele era alegre, jovial, com um tom de triunfo: «Sabes que eu nunca desisto. Não vejo razões para não falares comigo. Não te fiz mal nenhum.»
Conversaram durante um bocado. Ela sabia que não adiantava recusar: assim a conversa transformar-se-ia em discussão e duraria o mesmo tempo. (Recordava tempos em que lhe desligou o telefone e as mensagens sucederam-se acusatórias, desagradáveis, até ela decidir atender outra vez).
Desta vez, enquanto conversava com ele, não se conseguiu concentrar.
Ele nem disfarçava que estava numa outra relação, que vivia já com outra mulher, mas insistia em manter aquela ligação, aqueles telefonemas periódicos, aquela verificação de que ela continuava ali, disponível, de certa maneira.
De repente sentiu-se um selo no álbum, uma caixa de fósforos na caixa grande de arrumação.
Ele estava apenas a verificar e contemplar a sua colecção. A sua colecção de pessoas.
Abria o álbum, certificava-se da sua posição, contemplava a sua beleza, eventualmente avaliava o seu valor. E fechava o álbum das coisas que se guardam e não se usam. Das coisas que se têm para, de certa forma, provar o nosso poder, reencontrar o nosso passado, manter um laço qualquer com um pedaço de nós mesmos.
Concluiu isto tudo enquanto respondia mecanicamente ao seu discurso egocêntrico, à torrente de palavras animadas que tinham como denominador comum a pessoa do seu autor: «Eu isto, eu aquilo...», mimava-o enquanto lhe respondia.
Mudou o telefone de lado para ficar com a mão direita livre.
Abriu o álbum, depois a caixa.
Terminou a conversa a pretexto de ter de continuar uma qualquer tarefa.
Depois do clic, riscou cada fósforo, queimando cada um dos selos. Nunca mais ninguém ia desinquietar aquelas espécies, para não as usar, para lhes provar a propriedade.
Mortas, destruídas, em cinzas, as suas colecções eram enfim livres."
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Intelectual? K'é ixo?
"Eu cresci num tempo em que o intelectual tinha um determinado peso na sociedade, ou seja, os intelectuais tinham uma voz, exercitavam a sua voz e a sua voz era escutada, mesmo que para divergir...Eu não tenho a certeza que hoje em dia isso ainda aconteça. Pelo contrário, acho que hoje em dia se esbateu muito isso, porque a figura do intelectual foi substituída pelo famoso televisivo (...)."
Mega Ferreira em entrevista ao Programa Nas Nuvens, Canal Q, transmitida em reposição, hoje, agora.
Mega Ferreira em entrevista ao Programa Nas Nuvens, Canal Q, transmitida em reposição, hoje, agora.
Etiquetas:
Palavras de Outros,
Palavras Doridas,
Tradições
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Rimei
Em casa da minha avó paterna - muito menos palavrosa que a minha mãe - imperavam as rimas. A minha avó não lia muito, mas (talvez para fixar as coisas, não sei) arranjava sempre uma rima perfeita para uma afirmação.
Lembro-me tão bem: "O sr. Magalhães (ao que a avó acrescentava) esfola gatos, mata cães"; "Senta-te perna, cá anda quem te governa" (impreterivelmente após arrumar a cozinha, quando se sentava no sofá), "Ai, ai, grande casa tem meu pai" (para justificar um suspiro) ou, os menos ortodoxos, "Vergonha é não ter um homem em quem se ponha" ou "Quem dá é tio, quem não dá puta que o pariu".
Enfim, ao longo do tempo, adaptado a cada situação quotidiana, havia uma rima para tudo.
Foi também uma forma de me ter habituado a amar as palavras: as palavras que rimam, as palavras que condizem, as palavras que preenchiam o vazio de uma frase sem interlocutor.
Por isso hoje teve muita piada quando eu pensava assim:
"Amanhã volto ao serviço" e, acto contínuo, ecoou no meu espírito uma "deixa" do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, (que quase todos os anos vejo representada quando acompanho os alunos de 9º ano): "Parece-me isso cortiço".
Não sei se a minha avó se ria sozinha das suas rimas, mas eu soltei uma gargalhada com gosto e repeti, desta vez em voz alta: "Amanhã volto ao serviço, parece-me isso cortiço"
E parece. Mas lá vou eu!
Lembro-me tão bem: "O sr. Magalhães (ao que a avó acrescentava) esfola gatos, mata cães"; "Senta-te perna, cá anda quem te governa" (impreterivelmente após arrumar a cozinha, quando se sentava no sofá), "Ai, ai, grande casa tem meu pai" (para justificar um suspiro) ou, os menos ortodoxos, "Vergonha é não ter um homem em quem se ponha" ou "Quem dá é tio, quem não dá puta que o pariu".
Enfim, ao longo do tempo, adaptado a cada situação quotidiana, havia uma rima para tudo.
Foi também uma forma de me ter habituado a amar as palavras: as palavras que rimam, as palavras que condizem, as palavras que preenchiam o vazio de uma frase sem interlocutor.
Por isso hoje teve muita piada quando eu pensava assim:
"Amanhã volto ao serviço" e, acto contínuo, ecoou no meu espírito uma "deixa" do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, (que quase todos os anos vejo representada quando acompanho os alunos de 9º ano): "Parece-me isso cortiço".
Não sei se a minha avó se ria sozinha das suas rimas, mas eu soltei uma gargalhada com gosto e repeti, desta vez em voz alta: "Amanhã volto ao serviço, parece-me isso cortiço"
E parece. Mas lá vou eu!
Etiquetas:
Palavras Doridas,
Partículas de Felicidade,
Tradições
domingo, 24 de agosto de 2014
Eu sou óptima
a deixar para amanhã o que poderia ter feito hoje.
Etiquetas:
Palavras Doridas,
Palavreado,
Partículas de Felicidade,
Tradições
sábado, 23 de agosto de 2014
Nostalgia
Hoje, acerca de um trabalho de grande fôlego que venho desenvolvendo com uma colega, surgiram-me de rompante memórias do meu tempo de Faculdade. Das tardes e noites nos corredores da Faculdade de Letras, a tentar compor textos conjuntos. Dos meus repentes de escrita, sobre um molho de folhas de rascunho, as outras caladas esperando pela escrita que não conseguia ser dita. "Deixem-me escrever! Só sai por escrito." Depois a leitura, a mudança de uma ou outra palavra.
Adoro escrever!
Adoro verter num texto o resultado de uma investigação, de uma inquirição às fontes; adoro compor um puzzle em que se vão reconstituindo ramos do passado, sentindo que estou a contribuir para a árvore do conhecimento da História.
Recordei a minha colega de trabalho de muitos anos. Tínhamos uma dinâmica de trabalho incrível. Parece que já estávamos sintonizadas...Por vezes ficávamos a olhar para um espaço em branco no papel, a palavra certa não saía...
Eu, mais desesperada e colérica, arremetia impropérios, ela, mais ponderada e segura, começava a alinhar palavras até descortinarmos a palavra perfeita.
E que alegria, Meu Deus!\ A palavra perfeita...Hoje tenho a sensação que achávamos que os nossos trabalhos de Faculdade eram obras primas...
Eram suadinhas e honestas, que nós trabalhávamos de alma e coração e queríamos muito produzir coisas a sério.
Às vezes penso em como foi por essa época que descobri a investigação.
Eu gostei tanto do meu curso! Adorei andar na Faculdade!
Hoje desceu uma nostalgia...só me apetece chorar, de saudades, de ser nova, de querer descobrir e escrever o passado, de acreditar que existe sempre uma palavra perfeita para cada espaço em branco.
Adoro escrever!
Adoro verter num texto o resultado de uma investigação, de uma inquirição às fontes; adoro compor um puzzle em que se vão reconstituindo ramos do passado, sentindo que estou a contribuir para a árvore do conhecimento da História.
Recordei a minha colega de trabalho de muitos anos. Tínhamos uma dinâmica de trabalho incrível. Parece que já estávamos sintonizadas...Por vezes ficávamos a olhar para um espaço em branco no papel, a palavra certa não saía...
Eu, mais desesperada e colérica, arremetia impropérios, ela, mais ponderada e segura, começava a alinhar palavras até descortinarmos a palavra perfeita.
E que alegria, Meu Deus!\ A palavra perfeita...Hoje tenho a sensação que achávamos que os nossos trabalhos de Faculdade eram obras primas...
Eram suadinhas e honestas, que nós trabalhávamos de alma e coração e queríamos muito produzir coisas a sério.
Às vezes penso em como foi por essa época que descobri a investigação.
Eu gostei tanto do meu curso! Adorei andar na Faculdade!
Hoje desceu uma nostalgia...só me apetece chorar, de saudades, de ser nova, de querer descobrir e escrever o passado, de acreditar que existe sempre uma palavra perfeita para cada espaço em branco.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Pequenino!
Bem...com esta cena do Facebook vou mesmo convencer-me que o mundo é pequeno.
Então não é que quando me lembro de procurar um locutor de rádio, um ator ou um escritor que me agradam temos sempre algum amigo em comum? Caramba! Sinto-me famosa. Não me sabia de tão amplas relações.
Então não é que quando me lembro de procurar um locutor de rádio, um ator ou um escritor que me agradam temos sempre algum amigo em comum? Caramba! Sinto-me famosa. Não me sabia de tão amplas relações.
Etiquetas:
Impressões de Viagem,
Palavras vãs
With a little help from my friends
Hoje é dia de S. Bernardo, que faleceu nesta data em 1153, após ter dado a sua última autorização para a construção de mais uma Abadia Cisterciense: o Mosteiro de Alcobaça.
A aceitação desta doação de Afonso Henriques terá sido um impulso significativo para o reconhecimento de Portugal como reino independente, ou seja, provavelmente, a primeira "cunha" da História de Portugal.
Bernardo de Claraval foi um Doutor da Igreja.
Faz hoje 4 anos que entreguei na Universidade- à sombra tutelar de S. Bernardo, assim o creio - os vários exemplares exigidos da minha tese de doutoramento. O peso do conhecimento era tão grande e palpável que tive de ter a ajuda de amigos que, arrastando literalmente o fruto dos meus estudos em veículos rodados com ar de aeroporto, me ajudaram a terminar esta grande empreitada da minha vida.
Hoje é o Dia de S. Bernardo, da cidade de Alcobaça e também da celebração do términus de um trabalho que afinal, mesmo que eu disso não tivesse consciência, estava nos meus planos há muito, muito tempo.
Hoje é um dia muito significativo para mim e, como não podia deixar de ser, de celebração dos meus amigos, sem os quais não teria conseguido escrever o trabalho e levá-lo até ao local de entrega.
A aceitação desta doação de Afonso Henriques terá sido um impulso significativo para o reconhecimento de Portugal como reino independente, ou seja, provavelmente, a primeira "cunha" da História de Portugal.
Bernardo de Claraval foi um Doutor da Igreja.
Faz hoje 4 anos que entreguei na Universidade- à sombra tutelar de S. Bernardo, assim o creio - os vários exemplares exigidos da minha tese de doutoramento. O peso do conhecimento era tão grande e palpável que tive de ter a ajuda de amigos que, arrastando literalmente o fruto dos meus estudos em veículos rodados com ar de aeroporto, me ajudaram a terminar esta grande empreitada da minha vida.
Hoje é o Dia de S. Bernardo, da cidade de Alcobaça e também da celebração do términus de um trabalho que afinal, mesmo que eu disso não tivesse consciência, estava nos meus planos há muito, muito tempo.
Hoje é um dia muito significativo para mim e, como não podia deixar de ser, de celebração dos meus amigos, sem os quais não teria conseguido escrever o trabalho e levá-lo até ao local de entrega.
Etiquetas:
Impressões de Viagem,
Partículas de Felicidade,
Tradições
Subscrever:
Mensagens (Atom)