"Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e o omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro."
Affonso Romano de Sant'Anna (1937)
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sábado, 9 de março de 2013
sexta-feira, 8 de março de 2013
Fim de Semana
"Contactavam de viva-voz há apenas alguns dias. Desde que começara que falavam ao telefone todas as noites durante mais de uma hora.
Invariavelmente era ela que anunciava que tinham de terminar a conversa. Levantava-se cedo no dia seguinte...o trânsito...os imprevistos...o stress...
Lá se despediam, com aquela mágoa dos amores iniciantes, do coração que parece que não vai aguentar a ausência.
Mas, naquele dia (o 5º da conversação, que os apaixonados contabilizam cada segundo) a conversa não acabava. Ela estava com uma disposição imparável: falava, brincava, ria-se longamente das piadas dele, até citações de livros ela fez.
Por fim, foi ele que se cansou, ou simplesmente estranhou a energia imparável.
- Hoje estás ligada à corrente...
- É verdade! E sabes a que horas eu me levanto amanhã?
- Não.
- Nem eu! - e o riso cristalino dela explicou, sem margem para dúvidas, que esta conversa teria uma duração talvez ilimitada."
Invariavelmente era ela que anunciava que tinham de terminar a conversa. Levantava-se cedo no dia seguinte...o trânsito...os imprevistos...o stress...
Lá se despediam, com aquela mágoa dos amores iniciantes, do coração que parece que não vai aguentar a ausência.
Mas, naquele dia (o 5º da conversação, que os apaixonados contabilizam cada segundo) a conversa não acabava. Ela estava com uma disposição imparável: falava, brincava, ria-se longamente das piadas dele, até citações de livros ela fez.
Por fim, foi ele que se cansou, ou simplesmente estranhou a energia imparável.
- Hoje estás ligada à corrente...
- É verdade! E sabes a que horas eu me levanto amanhã?
- Não.
- Nem eu! - e o riso cristalino dela explicou, sem margem para dúvidas, que esta conversa teria uma duração talvez ilimitada."
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quarta-feira, 6 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
Paixão
"Podia escrever o teu nome num vidro embaciado ou
segredá-lo a uma borboleta negra.
...
Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que
o mar ficasse vermelho.
Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado
desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma
profanação."
Jorge Sousa Braga
segredá-lo a uma borboleta negra.
...
Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que
o mar ficasse vermelho.
Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado
desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma
profanação."
Jorge Sousa Braga
domingo, 3 de março de 2013
2 de Março
"- Os tempos são outros. A ditadura johe é muito mais maquiavélica porque não se apresenta como tal. Vivemos todos convencidos que somos livres, e todos os dias nos impõem mais uma coisa contra nós, que não sabemos como rejeitar. Não é contra ti nem contra o teu vizinho:é contra todos, e todos são objecto de um roubo que vem de fora, mas que é executado como se fosse uma coisa natural, explicada com argumentos que até parecem lógicos, e que deixam um sabor amargo na vida que não sabes de onde vem.
E pensei: estas mudanças põem-me melancólico. Dantes, a revolução podia ser feita com metralhadoras, com bombas; hoje de nada serviria. Os exércitos que nos ocupam são invisíveis, não têm quarteis. (...) Tínhamos de vencer esse cansaço em reagir que acaba por tornar inútil a reacção porque, quando ela chega, já tudo ficou para trás."
Nuno Júdice, Implosão (p. 33)
E pensei: estas mudanças põem-me melancólico. Dantes, a revolução podia ser feita com metralhadoras, com bombas; hoje de nada serviria. Os exércitos que nos ocupam são invisíveis, não têm quarteis. (...) Tínhamos de vencer esse cansaço em reagir que acaba por tornar inútil a reacção porque, quando ela chega, já tudo ficou para trás."
Nuno Júdice, Implosão (p. 33)
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Palavras de Outros
sexta-feira, 1 de março de 2013
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
De matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, de uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram nem ontem nem hoje.
Resta essa vontade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada,
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta este constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Este eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes (1913-1980)
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
De matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, de uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram nem ontem nem hoje.
Resta essa vontade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada,
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta este constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Este eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes (1913-1980)
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