A palavra anoitece
...veste a escuridão
segreda-me os intuitos
com um hálito de cacimba.
Rotas e rotas
desenhadas no tempo
contam-nos histórias
momentos,
de intensos saberes…
A palavra é o silêncio.
Um chilrear,
acorda-nos devagar…
A luz brilha
no horizonte
vestindo a palavra
de um nenúfar
apoteótico
coberto de ilusão.
A palavra arrefece
na mudança de mão
de voz
esquece-se
e na solidão
fica quieta
presa
na escuridão…
A palavra é o silêncio
a pedra,
a história
ou o tempo que morreu…
despida,
perdida,
cala-se então!
Paulo Afonso Ramos, 2011
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Oh!
Hoje estou doente.
A minha avó Mila fazia sempre "um arrozinho de manteiga" quando eu estava doente.
Arranjei uma cebola pequenina, coloquei uma nozinha de manteiga...eu achei que estava tudo igual...
Afinal não é um arroz qualquer que cura. Era mesmo o "arrozinho de manteiga da avó Mila".
E como a minha avó era muito divertida e tinha os mais inusitados versos para todas as ocasiões, assim que exclamei um 'Oh' desiludido, ecoou no meu espírito: "Oh, disse o Diabo quando viu o cú à avó".
Tenho saudades da minha avó.-Oh!
A minha avó Mila fazia sempre "um arrozinho de manteiga" quando eu estava doente.
Arranjei uma cebola pequenina, coloquei uma nozinha de manteiga...eu achei que estava tudo igual...
Afinal não é um arroz qualquer que cura. Era mesmo o "arrozinho de manteiga da avó Mila".
E como a minha avó era muito divertida e tinha os mais inusitados versos para todas as ocasiões, assim que exclamei um 'Oh' desiludido, ecoou no meu espírito: "Oh, disse o Diabo quando viu o cú à avó".
Tenho saudades da minha avó.-Oh!
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Herança
E recebi resposta do médico.
Que afinal era o filho.
O médico que me salvou faleceu há 15 anos. Parece ter sido uma pessoa excepcional e ter contribuído muito para o avanço da Pediatria e do Hospital D. Estefânia, do qual foi Diretor.
O filho resumiu-me, com muito orgulho, a carreira dele e agradeceu o email.
Fica-lhe em herança mais esta recordação do pai, a quem devo a vida, que poderia ter terminado ainda na infância.
Sinto-me feliz por ter enviado o email, mesmo não sendo ao próprio médico, porque as recordações são também um patrmónio que se herda.
Achei muito curioso que, pelo meio do resumo (emocionado) que faz da carreira do pai, este Dr. refere que ele tinha o Curso de Piano do Conservatório. E fico a pensar nos pormenores que seleccionamos de alguém quando o apresentamos. Do muito que temos para dizer, o que escolhemos referir.
A História é sempre um relato pessoal e, como tal, selectivo.
Que afinal era o filho.
O médico que me salvou faleceu há 15 anos. Parece ter sido uma pessoa excepcional e ter contribuído muito para o avanço da Pediatria e do Hospital D. Estefânia, do qual foi Diretor.
O filho resumiu-me, com muito orgulho, a carreira dele e agradeceu o email.
Fica-lhe em herança mais esta recordação do pai, a quem devo a vida, que poderia ter terminado ainda na infância.
Sinto-me feliz por ter enviado o email, mesmo não sendo ao próprio médico, porque as recordações são também um patrmónio que se herda.
Achei muito curioso que, pelo meio do resumo (emocionado) que faz da carreira do pai, este Dr. refere que ele tinha o Curso de Piano do Conservatório. E fico a pensar nos pormenores que seleccionamos de alguém quando o apresentamos. Do muito que temos para dizer, o que escolhemos referir.
A História é sempre um relato pessoal e, como tal, selectivo.
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terça-feira, 6 de novembro de 2012
A Linha da Fortuna
Creio que era ainda muito nova quando li - provavelmente numa revista feminina - que devíamos fazer um exercício diário de contabilizar o que foi bom e mau ao fim de cada dia, para dar o valor real ao que temos, blá, blá, blá...
Entusiasmada, passei a receita à minha mãe depressiva, que com a mestria que lhe era característica, destruiu os meus argumentos todinhos. Não sobrou nada. Com uma negatividade tenaz destruiu cada elemento da minha lista, justificando com sólidos argumentos, a sua passagem para o outro lado da barricada. Tudo podia ser melhor, tudo era uma conspiração do universo para a prejudicar, todos os outros tinham mais sorte que ela.
Embalada por aquele fado, tentei ainda por uns largos tempos, inverter a coisa, até perceber que nada havia a fazer.
Ficou-me o hábito do exercício (não diário, verdadeiramente) de pesar numa balança valorativa os eventos que vão marcando a minha vida. E o saldo é quase sempre positivo. Não sem esforço, é certo. Mas o final é positivo.
Num desses esforços de encontrar a linha cor de rosa que eu quero que conduza a minha vida - o que exige um esforço cada vez mais elaborado, reconheço - dei comigo a recordar momentos dramáticos e felizes em que a minha vida tem beneficiado de encontrar as pessoas, os lugares, os contextos certos. Como na apendicite que enfrentei aos 11 anos, numa operação de urgência. Recordava-me do nome do médico. Era muito novo e acho que andava sempre a ver "a paciente". De tal maneira que aproveitaram para me dar alta quando ele foi de férias. Era um verão muito quente e a estadia no Hospital D. Estefânia soube-me a colónia de férias.
Recordo os momentos ternurentos em que me deixavam colocar os termómetros aos bébés ou a aventura que era escaparmo-nos, com as luzes já apagadas, para a sala da televisão para não perder o Espaço 1999.
Injeções e pensos à parte, eu recordo mesmo umas férias muito divertidas.
De repente penso: Que será feito do médico? Ainda exercerá medicina? Será que o consigo encontrar num motor de busca?
E vá de buscá-lo.
Ah, maravilhas da técnica moderna!
Encontrei-o num hospital privado. Escrevi para o mail geral do Hospital e dias depois ele respondeu, a agradecer o contacto e a pedir pormenores que o levassem a recordar a situação.
Acabei de lhe escrever, agora que cheguei a casa, feliz por ter sido cumprimentada por uma ex-aluna, agora caixa num supermercado, que eu já não via (e não reconheceria) há muito tempo. Senti-me bem por ela me ter cumprimentado com uma alegria genuína.
Resolvi contar a história "ao meu doutor" e agradecer-lhe por poder estar aqui hoje, a ele, ao Serviço Nacional de Saúde e ao Estado Social de poderá ser afundado, perdão, refundido...não, refundado, um dia destes.
Foi uma "conversa" catártica. Sinto-me bem de o ter feito. Espero ter feito também bem ao médico, que hoje já nem é Pediatra.
Maravilhas da comunicação moderna!
Entusiasmada, passei a receita à minha mãe depressiva, que com a mestria que lhe era característica, destruiu os meus argumentos todinhos. Não sobrou nada. Com uma negatividade tenaz destruiu cada elemento da minha lista, justificando com sólidos argumentos, a sua passagem para o outro lado da barricada. Tudo podia ser melhor, tudo era uma conspiração do universo para a prejudicar, todos os outros tinham mais sorte que ela.
Embalada por aquele fado, tentei ainda por uns largos tempos, inverter a coisa, até perceber que nada havia a fazer.
Ficou-me o hábito do exercício (não diário, verdadeiramente) de pesar numa balança valorativa os eventos que vão marcando a minha vida. E o saldo é quase sempre positivo. Não sem esforço, é certo. Mas o final é positivo.
Num desses esforços de encontrar a linha cor de rosa que eu quero que conduza a minha vida - o que exige um esforço cada vez mais elaborado, reconheço - dei comigo a recordar momentos dramáticos e felizes em que a minha vida tem beneficiado de encontrar as pessoas, os lugares, os contextos certos. Como na apendicite que enfrentei aos 11 anos, numa operação de urgência. Recordava-me do nome do médico. Era muito novo e acho que andava sempre a ver "a paciente". De tal maneira que aproveitaram para me dar alta quando ele foi de férias. Era um verão muito quente e a estadia no Hospital D. Estefânia soube-me a colónia de férias.
Recordo os momentos ternurentos em que me deixavam colocar os termómetros aos bébés ou a aventura que era escaparmo-nos, com as luzes já apagadas, para a sala da televisão para não perder o Espaço 1999.
Injeções e pensos à parte, eu recordo mesmo umas férias muito divertidas.
De repente penso: Que será feito do médico? Ainda exercerá medicina? Será que o consigo encontrar num motor de busca?
E vá de buscá-lo.
Ah, maravilhas da técnica moderna!
Encontrei-o num hospital privado. Escrevi para o mail geral do Hospital e dias depois ele respondeu, a agradecer o contacto e a pedir pormenores que o levassem a recordar a situação.
Acabei de lhe escrever, agora que cheguei a casa, feliz por ter sido cumprimentada por uma ex-aluna, agora caixa num supermercado, que eu já não via (e não reconheceria) há muito tempo. Senti-me bem por ela me ter cumprimentado com uma alegria genuína.
Resolvi contar a história "ao meu doutor" e agradecer-lhe por poder estar aqui hoje, a ele, ao Serviço Nacional de Saúde e ao Estado Social de poderá ser afundado, perdão, refundido...não, refundado, um dia destes.
Foi uma "conversa" catártica. Sinto-me bem de o ter feito. Espero ter feito também bem ao médico, que hoje já nem é Pediatra.
Maravilhas da comunicação moderna!
domingo, 4 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Feriado
O Feriado é um dia excepcional, verdadeiramente.
Diferente dos fins-de-semana, esperados, ritmados, sincopados, o feriado surge assim "das brumas da memória" para nos interromper as nossas rotinas.
O Feriado não tem nada programado. (Já estou a ver os leitores, de cenho franzido, indignados com tal afirmação: "Como não tem nada marcado? Tanto que eu esperei por ele, para ir ver a família, realizar aquele passeio ou para, tradicionalmente, assinalar o seu verdadeiro sentido e homenagear os mortos da família").
Talvez...não sendo católica praticante e tendo sido massacrada toda a minha infância e juventude com as revoadas de flores para o cemitério, para agradar aos que já tinham morrido, deixando à míngua de atenção os que poderiam morrer a qualquer momento (ou que se calhar ia morrendo, pelos menos em partes) não assinalo o Feriado no seu sentido (a). Sei-o, comunico-o, respeito-o, mas para mim é um bónus inesperado que irrompe na minha semana e que rasga um sol de preguiça no seio de mais uma semana.
Nem para o "Pão por Deus", para o qual tinha abastecido a despensa ontem, me apeteceu abrir a porta, perante os toques impertinentes (se calhar eram só alegres, sei lá) dos jovens que provavelmente eram meus alunos e a quem não me apetecia enfrentar com o cabelo desgrenhado e o fofo roupão cor de cereja que sempre me faz pensar em lordes a fumar cachimbo, enquanto lêem preguiçosamente o jornal.
Não abri. Não fui tomar café. Não me vesti.
Arranjei um belo tabuleiro de café. O seviço da Vista Alegre ficou ainda mais alegre com as coloridas frutas de que me servi. O tabuleiro estava digno de uma Lady servida por criadagem.
Depois...o Feriado é o dia ideal para terminar um livro.
Quando nos apaixonamos por um livro, os poucos tempos livres da semana sabem a pouco, a uma traição a uma paixão: uma paixão precisa de tempo inteiro.
Acolhi no colo a prosa de José Eduardo Agualusa para o desenlace da vida daquelas personagens que misturam a realidade com a fantasia, os seres naturais com os sobrenaturais...
Lágrimas e risos depois estava tudo terminado num espanto de descoberta.
Gostei. Gostei muito da prosa de Agualusa. Só o conhecia das crónicas. Fiquei com vontade de ler mais.
Agora a casa cheira a cozinhados. Talvez alguém passe na escada e aspire hoje o perfume de lar que daqui se emana, como eu costumo fazer nos outros dias, nos dias normais que não são Feriado.
Filmes, séries, gavetas arrumadas.
O dia de amanhã é só o resto da semana. Uma interrupção num descanso que me parece legítimo.
Não sem culpa.
Quatro turmas de testes acumulam-se acusatoriamente na mesa da sala.
Mas o meu ordenado diminuiu, o meu tempo de trabalho presencial na escola aumentou, as turmas cresceram em alunos cada uma e mais uma no total. São sete turmas, a mais de 20 alunos cada uma. A minha direção de turma tem 27 alunos. E os pais, e os filhos e os papeis.
Deveria trabalhar no Feriado? Não, não deveria.
A minha motivação diminuiu ainda mais que o meu ordenado e contra isso pouco há a fazer.
Sou um número, sou um código, sou um risco na estatística e daqui a pouco uma exceção numa sociedade de desempregados. Ou não, que o que tomei por seguro já não dá garantias e este ano letivo bem notório está a ser.
Cumprirei o que devo, para com os meus alunos. Continuo a acreditar muito no que faço, a sentir-me compreendida por alunos que já perceberam tudo: um, um dia destes, disse-me que eu vivo no mundo do «devia ser» e que penso como os filósofos. Ele disse-o com ar de desprezo, eu aceitei-o como um elogio e uma condenação. Que tenho de cumprir. Fiel que me sinto a mim mesma. Isolada, Espantada com o que vejo em volta.
Penso em todos os que devem ter sentido coisas parecidas - o mundo a desmoronar - noutras crises que a Hstória alberga, arrumadinhas, em páginas com número limitado de caracteres, que nos lembram dos outros. Como alguém um dia se vai lembrar de nós. Vai?
"Não se atormente mais. Os erros nos corrigem. Talvez seja necessário esquecer. Devíamos praticar o esquecimento.
Jerónimo abanou a cabeça irritado. Rabiscou mais umas palavras no pequeno caderno. Entregou-o ao filho.
O pai não quer esquecer. Esquecer é morrer, diz ele. Esquecer é uma rendição."
Teoria Geral do Esquecimento, p. 221.
E porque não quero esquecer nem relevar o que me estão a fazer, o que nos estão a fazer a todos, culpando-nos da crise, envolvendo-nos na nossa culpa para legitimar todas as perdas de direitos, talvez vá começar mais um livro, para gastar em tempo próprio o Feriado. Um livro que me leve para o mundo do «deve ser» ou do pode ser, porque preciso que a ficção me salve da realidade.
(a) Nota: Eu sei que o Dia dos Fieis Defuntos é amanhã, mas também sei que grande parte das pessoas aproveita o feriado para guarnecer as campas para que os seus entes queridos estejam confortáveis no dia certo e para que as línguas dos vizinhos não tenham motivos concretos, num dia que se assinala de saudade e elevação de orações.
Diferente dos fins-de-semana, esperados, ritmados, sincopados, o feriado surge assim "das brumas da memória" para nos interromper as nossas rotinas.
O Feriado não tem nada programado. (Já estou a ver os leitores, de cenho franzido, indignados com tal afirmação: "Como não tem nada marcado? Tanto que eu esperei por ele, para ir ver a família, realizar aquele passeio ou para, tradicionalmente, assinalar o seu verdadeiro sentido e homenagear os mortos da família").
Talvez...não sendo católica praticante e tendo sido massacrada toda a minha infância e juventude com as revoadas de flores para o cemitério, para agradar aos que já tinham morrido, deixando à míngua de atenção os que poderiam morrer a qualquer momento (ou que se calhar ia morrendo, pelos menos em partes) não assinalo o Feriado no seu sentido (a). Sei-o, comunico-o, respeito-o, mas para mim é um bónus inesperado que irrompe na minha semana e que rasga um sol de preguiça no seio de mais uma semana.
Nem para o "Pão por Deus", para o qual tinha abastecido a despensa ontem, me apeteceu abrir a porta, perante os toques impertinentes (se calhar eram só alegres, sei lá) dos jovens que provavelmente eram meus alunos e a quem não me apetecia enfrentar com o cabelo desgrenhado e o fofo roupão cor de cereja que sempre me faz pensar em lordes a fumar cachimbo, enquanto lêem preguiçosamente o jornal.
Não abri. Não fui tomar café. Não me vesti.
Arranjei um belo tabuleiro de café. O seviço da Vista Alegre ficou ainda mais alegre com as coloridas frutas de que me servi. O tabuleiro estava digno de uma Lady servida por criadagem.
Depois...o Feriado é o dia ideal para terminar um livro.
Quando nos apaixonamos por um livro, os poucos tempos livres da semana sabem a pouco, a uma traição a uma paixão: uma paixão precisa de tempo inteiro.
Acolhi no colo a prosa de José Eduardo Agualusa para o desenlace da vida daquelas personagens que misturam a realidade com a fantasia, os seres naturais com os sobrenaturais...
Lágrimas e risos depois estava tudo terminado num espanto de descoberta.
Gostei. Gostei muito da prosa de Agualusa. Só o conhecia das crónicas. Fiquei com vontade de ler mais.
Agora a casa cheira a cozinhados. Talvez alguém passe na escada e aspire hoje o perfume de lar que daqui se emana, como eu costumo fazer nos outros dias, nos dias normais que não são Feriado.
Filmes, séries, gavetas arrumadas.
O dia de amanhã é só o resto da semana. Uma interrupção num descanso que me parece legítimo.
Não sem culpa.
Quatro turmas de testes acumulam-se acusatoriamente na mesa da sala.
Mas o meu ordenado diminuiu, o meu tempo de trabalho presencial na escola aumentou, as turmas cresceram em alunos cada uma e mais uma no total. São sete turmas, a mais de 20 alunos cada uma. A minha direção de turma tem 27 alunos. E os pais, e os filhos e os papeis.
Deveria trabalhar no Feriado? Não, não deveria.
A minha motivação diminuiu ainda mais que o meu ordenado e contra isso pouco há a fazer.
Sou um número, sou um código, sou um risco na estatística e daqui a pouco uma exceção numa sociedade de desempregados. Ou não, que o que tomei por seguro já não dá garantias e este ano letivo bem notório está a ser.
Cumprirei o que devo, para com os meus alunos. Continuo a acreditar muito no que faço, a sentir-me compreendida por alunos que já perceberam tudo: um, um dia destes, disse-me que eu vivo no mundo do «devia ser» e que penso como os filósofos. Ele disse-o com ar de desprezo, eu aceitei-o como um elogio e uma condenação. Que tenho de cumprir. Fiel que me sinto a mim mesma. Isolada, Espantada com o que vejo em volta.
Penso em todos os que devem ter sentido coisas parecidas - o mundo a desmoronar - noutras crises que a Hstória alberga, arrumadinhas, em páginas com número limitado de caracteres, que nos lembram dos outros. Como alguém um dia se vai lembrar de nós. Vai?
"Não se atormente mais. Os erros nos corrigem. Talvez seja necessário esquecer. Devíamos praticar o esquecimento.
Jerónimo abanou a cabeça irritado. Rabiscou mais umas palavras no pequeno caderno. Entregou-o ao filho.
O pai não quer esquecer. Esquecer é morrer, diz ele. Esquecer é uma rendição."
Teoria Geral do Esquecimento, p. 221.
E porque não quero esquecer nem relevar o que me estão a fazer, o que nos estão a fazer a todos, culpando-nos da crise, envolvendo-nos na nossa culpa para legitimar todas as perdas de direitos, talvez vá começar mais um livro, para gastar em tempo próprio o Feriado. Um livro que me leve para o mundo do «deve ser» ou do pode ser, porque preciso que a ficção me salve da realidade.
(a) Nota: Eu sei que o Dia dos Fieis Defuntos é amanhã, mas também sei que grande parte das pessoas aproveita o feriado para guarnecer as campas para que os seus entes queridos estejam confortáveis no dia certo e para que as línguas dos vizinhos não tenham motivos concretos, num dia que se assinala de saudade e elevação de orações.
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