"Paço das Necessidades
Resistindo delicadamente às objurgatórias de D. Maria Pia, que queria absolutamente ver toda a família na Ajuda, D. Manuel vem passar aqui o resto da noite. Mas, ao chegar. não se retira para os seus aposentos. À saída do hospital, pediu a João Franco - não já como simples infante mas como regente do Reino - que fosse ter com ele ao paço, depois de convocar os altos responsáveis da polícia. E quando o chefe do Governo lhe fez notar o adiantado da hora, D. Manuel olhou-o fixamente e baixou a voz para dizer com uma terrível secura:
- Senhor Presidente, dormiu-se bastante durante todo o dia, para que sucedesse o que sucedeu. Agora, é tempo de acordar. Se o regente pode passar a noite em branco, as autoridades também podem."
João Aguiar, Seis Momentos em Tempo Real (p. 26) in A República Nunca Existiu: Antologia de Contos Sobre Um Portugal Onde o Regicídio de 1908 Falhou, Parede, Saída de Emergência, 2008
Será que as palavras ficam presas no tempo? Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil? Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?... Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto. Por puro prazer!
sexta-feira, 4 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010
João Aguiar
Morreu João Aguiar. A literatura portuguesa está de luto.
Mas, como o próprio João Aguiar sabe, um escritor não morre. Para um escritor, a morte é um dos momentos da sua vida, o momento em que deixa de poder estar presente e tomar posições sobre assuntos, para ficar (apenas!) nas opiniões e situações que imortalizou nos seus escritos - o lugar que garantiu na estante da Eternidade.
Eu gosto muito de ler João Aguiar e tem sido um autor que me tem influenciado e ajudado muito:
- nas suas crónicas da Revista Tempo Livre e da Super Interesante, que me deram coragem e modelo para também eu me inspirar numa aventura cronística que durou três anos
- com a colecção infantil «O Bando dos Quatro», quando achei que era preciso incutir no meu sobrinho hábitos e técnicas de leitura
- nas suas «brincadeiras com a História», em obras colectivas como "A República Nunca Existiu", "Eça Agora" ou "O Código de Avintes"
- por puro entretenimento em livros como «O Navegador Solitário» ou «Os Comedores de Pérolas»
- numa escrita que não é História, nem Romance, mas sim uma tradução literária de temas da História muito áridos, num livro que não cansa de me surpreender: Lapedo - Uma Criança no Vale.
Alice Vieira recorda-o como «um príncipe» e eu, que nunca o conheci pessoalmente, também o via assim.
Às vezes sonhava que um dia iria conhecer pessoalmente o João Aguiar, ter coragem de lhe mostrar as minha crónicas e dizer-lhe o quanto e como me influenciou. Agora sei que ele nunca lerá as minhas crónicas. Felizmente eu guardei muitas das dele para me inspirar e tentar escrever cada vez melhor.
Na minha estante João Aguiar vai estar sempre vivo, sempre à mão, para me inspirar, para me ajudar, para me ensinar, para me acompanhar.
Não consigo não ficar triste com a tua morte física, mas sei que vou contribuir para a tua imortalidade, embora não saibas, que a mim, me ajudaste bastante.
Será que se escreve lá do outro lado?... Será que o Paraíso tem mesmo essa componente de Livraria de que falava José Luis Borges?...
Um escritor srá sempre um escritor e o João Aguiar fez muito pela literatura em Portugal, para adultos, infantil, de divulgação e soube narrar muito bem a História.
Eu tinha de fazer uma homenagem, pois as tuas palavras e o teu exemplo marcaram muito a minha vida. Eu tinha que guardar aqui estas palavras. Devia-te isso.
"Justamente, neste fim de tarde, com um Sol já a escorregar para o ocaso, uma criança decidiu partir à aventura, em sua perseguição; porque, no fundo do vale, anoitece mais cedo e para continuar a ver o Sol é preciso ir até ao alto da ribanceira. (...) E como eles são pequeninos, vistos daqui de cima! É agora que ele percebe inteiramente que a distância diminui o tamanho das coisas e das pessoas. Deste ponto onde se encontra, no topo da ribanceira, o acampamento inteiro cabe nas suas mãos. Mais uma das maravilhas que tem vindo a descobrir."
extracto de Lapedo - Uma Criança no Vale, edições ASA, 2006, p. 22
Obrigada, João Aguiar!
Mas, como o próprio João Aguiar sabe, um escritor não morre. Para um escritor, a morte é um dos momentos da sua vida, o momento em que deixa de poder estar presente e tomar posições sobre assuntos, para ficar (apenas!) nas opiniões e situações que imortalizou nos seus escritos - o lugar que garantiu na estante da Eternidade.
Eu gosto muito de ler João Aguiar e tem sido um autor que me tem influenciado e ajudado muito:
- nas suas crónicas da Revista Tempo Livre e da Super Interesante, que me deram coragem e modelo para também eu me inspirar numa aventura cronística que durou três anos
- com a colecção infantil «O Bando dos Quatro», quando achei que era preciso incutir no meu sobrinho hábitos e técnicas de leitura
- nas suas «brincadeiras com a História», em obras colectivas como "A República Nunca Existiu", "Eça Agora" ou "O Código de Avintes"
- por puro entretenimento em livros como «O Navegador Solitário» ou «Os Comedores de Pérolas»
- numa escrita que não é História, nem Romance, mas sim uma tradução literária de temas da História muito áridos, num livro que não cansa de me surpreender: Lapedo - Uma Criança no Vale.
Alice Vieira recorda-o como «um príncipe» e eu, que nunca o conheci pessoalmente, também o via assim.
Às vezes sonhava que um dia iria conhecer pessoalmente o João Aguiar, ter coragem de lhe mostrar as minha crónicas e dizer-lhe o quanto e como me influenciou. Agora sei que ele nunca lerá as minhas crónicas. Felizmente eu guardei muitas das dele para me inspirar e tentar escrever cada vez melhor.
Na minha estante João Aguiar vai estar sempre vivo, sempre à mão, para me inspirar, para me ajudar, para me ensinar, para me acompanhar.
Não consigo não ficar triste com a tua morte física, mas sei que vou contribuir para a tua imortalidade, embora não saibas, que a mim, me ajudaste bastante.
Será que se escreve lá do outro lado?... Será que o Paraíso tem mesmo essa componente de Livraria de que falava José Luis Borges?...
Um escritor srá sempre um escritor e o João Aguiar fez muito pela literatura em Portugal, para adultos, infantil, de divulgação e soube narrar muito bem a História.
Eu tinha de fazer uma homenagem, pois as tuas palavras e o teu exemplo marcaram muito a minha vida. Eu tinha que guardar aqui estas palavras. Devia-te isso.
"Justamente, neste fim de tarde, com um Sol já a escorregar para o ocaso, uma criança decidiu partir à aventura, em sua perseguição; porque, no fundo do vale, anoitece mais cedo e para continuar a ver o Sol é preciso ir até ao alto da ribanceira. (...) E como eles são pequeninos, vistos daqui de cima! É agora que ele percebe inteiramente que a distância diminui o tamanho das coisas e das pessoas. Deste ponto onde se encontra, no topo da ribanceira, o acampamento inteiro cabe nas suas mãos. Mais uma das maravilhas que tem vindo a descobrir."
extracto de Lapedo - Uma Criança no Vale, edições ASA, 2006, p. 22
Obrigada, João Aguiar!
Feriado
DIÁLOGO
- O que é o tempo?
- Um martelo de plumas.
- O que é a vida?
- A eterna ausente.
- O que é a família?
- Uma catástrofe. Loucura circular histérica com convulsões de penitência.
- Quem é Deus?
- Um pobre diabo.
- Que faz ele?
- Sobrevive sempre às suas vítimas.
- Onde mora?
- Num tinteiro?
- O que é Portugal?
- Uma cave cheia de mofo.
Ernesto Sampaio e João Rodrigues, Cadavre exquis, in Ernesto Sampaio Feriados Nacionais, Fenda, 1999,colhido em http://ofuncionariocansado.blogspot.com/
- O que é o tempo?
- Um martelo de plumas.
- O que é a vida?
- A eterna ausente.
- O que é a família?
- Uma catástrofe. Loucura circular histérica com convulsões de penitência.
- Quem é Deus?
- Um pobre diabo.
- Que faz ele?
- Sobrevive sempre às suas vítimas.
- Onde mora?
- Num tinteiro?
- O que é Portugal?
- Uma cave cheia de mofo.
Ernesto Sampaio e João Rodrigues, Cadavre exquis, in Ernesto Sampaio Feriados Nacionais, Fenda, 1999,colhido em http://ofuncionariocansado.blogspot.com/
Etiquetas:
Palavras à Medida,
Palavras de Outros
Cruzeiro Seixas: Um Surrealista, meu conterrâneo

Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.
Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.
Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.
Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.
Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.
Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.
Poema (1950) colhido em:
http://canaldepoesia.blogspot.com/2008/10/cruzeiro-seixas-poema.html
Serigrafia (2007), colhida em:
Facebook, Cruzeiro Seixas, Mestre do Surrealismo Português
Etiquetas:
Palavras de Outros,
Palavras intuídas
quarta-feira, 2 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
Eles merecem, mas...
Eu não percebo a loucura com o futebol.
Eu não percebo a loucura e o orgulho nacional com o Mourinho, mas, pronto´...aceito, que o homem leva longe o nome de Portugal e uma arrogância-monstra que não me parece que nos caracterize (aos portugueses, em geral, porque, claro, também há os mete-nojo).
Mas o que eu não percebo mesmo, é que ninguém comente a estranha intervenção que ele teve ontem: Eu ouvi - com estes dois que a terra há-de comer (digo eu, apontanto para os ouvidos) - que o homem disse «importante é esganar o Real Madrid», e ninguém comenta; acham todos que foi uma bela aquisição e vão pagar (principescamente) ao homem que anunciou publicamente que era importante esganá-los.
Eu, por mim, não me importo: são espanhóis; mas que é estranho, é.
E aí, até fiquei a acreditar que o homem tem coragem e carisma: ninguém lhe pega!
Eu não percebo a loucura e o orgulho nacional com o Mourinho, mas, pronto´...aceito, que o homem leva longe o nome de Portugal e uma arrogância-monstra que não me parece que nos caracterize (aos portugueses, em geral, porque, claro, também há os mete-nojo).
Mas o que eu não percebo mesmo, é que ninguém comente a estranha intervenção que ele teve ontem: Eu ouvi - com estes dois que a terra há-de comer (digo eu, apontanto para os ouvidos) - que o homem disse «importante é esganar o Real Madrid», e ninguém comenta; acham todos que foi uma bela aquisição e vão pagar (principescamente) ao homem que anunciou publicamente que era importante esganá-los.
Eu, por mim, não me importo: são espanhóis; mas que é estranho, é.
E aí, até fiquei a acreditar que o homem tem coragem e carisma: ninguém lhe pega!
Subscrever:
Mensagens (Atom)