quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Guião

Mas porque é que as coisas, na vida real, não acontecem tão depressa (e tão bem) como nos últimos episódios das telenovelas?
Deve ser um problema da equipa de guinistas...Mas também é bom pensar que os últimos episódios ainda estão longe!

2 comentários:


  1. POEMA ACTO III


    O actor acende a boca. Depois os cabelos.
    Finge as suas caras nas poças interiores.
    O actor põe e tira a cabeça
    de búfalo.
    De veado.
    De rinoceronte.
    Põe flores nos cornos.
    Ninguém ama tão desalmadamente
    como o actor.
    O actor acende os pés e as mãos.
    Fala devagar.
    Parece que se difunde aos bocados.
    Bocado estrela.
    Bocado janela para fora
    Outro bocado gruta para dentro.
    O actor toma as coisas para deitar fogo
    ao pequeno talento humano.
    O actor estala como sal queimado.

    O que rutila, o que arde destacadamente
    na noite, é o actor, com
    uma voz pura monotonamente batida
    pela solidão universal.
    O espantoso actor que tira e coloca
    e retira
    o adjectivo da coisa, a subtileza
    da forma, e precipita a verdade.
    De um lado extrai a maçã com sua
    divagação de maçã.
    Fabrica peixes mergulhados na própria
    labareda de peixes.
    Porque o actor está como a maçã.
    O actor é um peixe.

    Sorri assim o actor contra a face de Deus.
    Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
    O actor que subtrai Deus de Deus, e
    dá velocidade aos lugares aéreos.
    Porque o actor é uma astronave que atravessa
    a distância de Deus.
    Embrulha. Desvela.
    O actor diz uma palavra inaudível.
    Reduz a humidade e o calor da terra
    à confusão dessa palavra.
    Recita o livro. Amplifica o livro.
    O actor acende o livro.
    Levita pelos campos como a dura água do dia.
    O actor é tremendo.
    Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
    Como a unidade do actor.

    O actor é um advérbio que ramificou
    de um substantivo.
    E o substantivo retorna e gira,
    e o actor é um adjectivo.
    É um nome que provém ultimamente
    do Nome.
    Nome que se murmura em si, e agita,
    e enlouquece.
    O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
    O nome que cega.
    Que sangra.
    Que é o sangue.
    Assim o actor levanta o corpo,
    enche o corpo com melodia.
    Corpo que treme de melodia.
    Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
    Como o corpo do actor.
    Porque o talento é transformação.
    O actor transforma a própria acção
    da transformação.
    Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
    O actor cresce no seu acto.
    Faz crescer o acto.
    O actor actifica-se.
    É enorme o actor com sua ossada de base,
    com suas tantas janelas,
    as ruas -
    o actor com a emotiva publicidade.
    Ninguém ama tão publicamente como o actor.
    Como o secreto actor.
    Em estado de graça. Em compacto
    estado de pureza.
    O actor ama em acção de estrela.
    Acção de mímica.
    O actor é um tenebroso recolhimento
    de onde brota a pantomina.
    O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
    Vê a cobra entre as pernas.
    O actor vê fulminantemente
    como é puro.
    Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
    Como a essência do amor do actor.
    O teatro geral.

    O actor em estado geral de graça.


    Herberto Hélder


    Como dizia Chaplin, a vida é uma peça que representamos sem ensaio nem repetições — mas também sem guião e com muita margem de manobra nas deixas e nos actos.

    Beijito, Miss.

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  2. Vi agora que me enganei a escrever "guionistas". Bem feita! Eles também se enganaram em algumas das deixas que me deixam dizer e ouvir.

    Beijito, Mestre. Que belo poema!

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