segunda-feira, 12 de março de 2012

Choque de gerações

Fim de semana de adolescentes. Uns representados pelos testes sobre a mesa que se adensam em riscos vermelhos, cruzes, sinais de respostas mortas por falta de estudo; outro, o sobrinho que tem de se "empurrar para o estudo", com ameaças, viistas surpresa, reprimendas e todo um rol de indisposições familiares que se evitavam com um pouquinho de atenção ao que se diz e ao que é preciso fazer.
Dantes nao sentia tanto desespero na profissão de professora e na função de tia.
O que mudou?
Fui só eu que cresci?
Tento rebuscar na memória como era quando estudante. Não era nenhum mimo, mas...sabia o que tinha de fazer e nunca ninguém teve de ter tanto trabalho comigo.
Faço o quê? Parece que nem nos devemos queixar... Acusamos fraqueza e passamos mal-estar. Mas eu sinto-me mal, por isso também não me apetece passar outro sentimento. Serei queixinhas, derrotista...derrotada? Assustada, muito assustada com o rumo que isto leva.

"Ah, só

Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia, nem razão.


Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu
Vê-se mas não há nele que ver."

Fernando Pessoa

1 comentário:

  1. Pois é, o mundo muda mais ou menos como soía, mas a memória não é a mais fiel das companhias...

    MÁ MEMÓRIA

    Copla 1


    A cabeça é um órgão curioso
    Curiosamente organizado
    Basta ver quando nos fazem uma trepanação
    Geralmente não é muito fácil
    Eis a história singular
    De um certo Mathurin Lafieur
    Cujo crânio bastante comum
    Só era bizarro no interior
    Este tipo sofria desde a infância
    De um mal na verdade vulgar
    De uma memória tão infiel
    Que causava embaraços
    Assim que aprendia uma coisa
    Em família ou no liceu
    Mathurin de expressão tristonha
    Imediatamente a esquecia
    Mas...

    Refrão 1

    Em breve se esqueceu de esquecer
    O que devia esquecer
    Então como se tinha
    Esquecido de esquecer
    De tudo se recordava
    (Falado) Estão a perceber

    Copla 2

    Esta faculdade tão rápida
    Em lugar de na sociedade
    O fazer considerar estúpido
    Dava-lhe a prioridade
    Esquecendo-se de esquecer as aulas
    Mathurin sabia-as de cor
    E apesar do cérebro atravancado
    Chegou sem custo a agregado
    Mas um dia em que chovia um horror
    E que ele ia a correr para o metro
    Esbarrou num outro corredor
    E estatelou-se como um perdigoto
    O crânio bateu na pedra
    Com um belo ruído musical
    Produzindo-lhe na cafeteira
    Uma reviravolta fatal
    E desde então

    Refrão 2

    Esquecia-se de esquecer de esquecer
    O que tinha de esquecer
    E como se esquecia
    De se esquecer de esquecer
    Nunca se lembrava de nada
    (Falado) Estão a perceber

    Copla 3

    Esvaziado pelo estúpido acidente
    Das suas memórias de sempre
    Partiu prà Praça das Festas
    Ele que morava em Cherbourg
    Mas no caminho azar infame
    Um autocarro desarvorado
    Sem contemplação pla sua alma
    Diante de Mathurin desembocou
    Tendo esquecido a existência
    Dos autocarros e do perigo
    O nosso herói flor de inocência
    Entregou-se ao monstro raivoso
    Sucumbindo às rodas carniceiras
    No seu crânio houve o sentimento
    De uma distorção estranha
    Antes de conhecer o esquecimento
    E
    Esqueceu-se de se esquecer de esquecer
    De esquecer que devia esquecer
    O que se esquecia de esquecer de esquecer
    Que acabava de recordar
    (Paragem) Esqueci-me do fim...

    Boris Vian

    Beijito, Miss, e lindas recordações.

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