quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mãos Dadas

"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente."
 
Carlos Drummond de Andrade

2 comentários:


  1. Dá-me as mãos por brincadeira


    Dá-me as mãos por brincadeira
    Na dança que não dançamos,
    Porque isso é uma maneira
    De dizer o que pensamos.

    Dá-me as mãos e sorri alto,
    A vigiar o que rio,
    Bem sabes que assim já falto
    A pensar coisas a fio.

    Não quero largar as mãos
    Assim dadas por brinquedo.
    Deixa-as ficar: há irmãos
    Que brincam assim a medo.

    Não largues, ou faz demora
    A arrastar, a demorar,
    As mãos pelas minhas fora,
    E já deixando de olhar.

    Que segredos num contacto!
    Que coisas diz quem não fala!
    Que boa vista a do tacto
    Quando a vista desiguala!

    Deixa os dedos, deixa os dedos,
    Deixa-os ainda dizer
    Aqueles dos teus segredos
    Que não podes prometer!

    Deixa-me os dedos e a vida!
    Os outros dançam no chão,
    E eu tenho a alma esquecida
    Dentro do teu coração.

    Todo o teu corpo está dado
    Nas tuas mãos que retenho.
    Mais vale ter enganado
    Do que ter porque não tenho.


    Fernando Pessoa

    Beijito, Miss.

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