sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Dívida

"A dívida aumenta,
A do país e a nossa.


Cada manhã sabemos
que se acumula a dívida.
A grama que pisamos
é dívida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.


Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a Lua, os planetas,
até os dias vincendos.


A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao refletir é dívida.


A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
só ratos e formigas."
Carlos Nejar (1939)

1 comentário:

  1. Causa? Efeito?


    Situação da indústria portuguesa no início da década


    Às vezes, quando a pressão das entregas
    aumenta, ajudo a carregar os camiões,
    mas o envenenamento é o fim-de-linha,
    onde cada tarefa é como a execução
    de um castigo. Pagam-me mal, mal tenho
    tempo para comer um pão ao meio-dia, sinto
    que a força dos meus dezasseis anos não corresponde
    ao parco salário que me devem.
    De aqui a uns anos, irei cumprir
    o serviço militar, perderei a precariedade
    do emprego, ainda ontem uma das mulheres
    quase ficou sem um braço no sector velocíssimo
    da transformação. Servir a pátria é, começo
    a não ter dúvidas, sofrer esta amargura
    endémica, a pobreza a alcançar-nos
    em pouco mais de um passo, os olhos
    corrompidos pelo vinagre da luminosidade,
    a consciência das coisas ilegítima
    na compreensão da linguagem, eu calo-me,
    os outros falam por mim. Olho em volta, sinto
    inexplicavelmente a natureza fortuita das coisas,
    embrenho-me aos domingos na multidão
    triunfante, gasto em vinho a humilde alegria
    que as pequenas vitórias me consentem,
    tremem-me as mãos só de pensar que existe
    amor no mundo, algures, longinquamente,
    no infinito da nossa ignorância. Gostava
    de saber o nome deste usufruto da terra,
    quais as cumplicidades que tornam tudo isto possível,
    em que lugar de fogo e de agrura
    o rosto corresponderá ao rosto e o silêncio
    a esta forma de fome secular. Tudo é assim
    liminarmente sujo, carregado de sangue
    e de arestas, e duvido das proféticas sentenças
    sobre a vida que me oferecem,
    sem que as contemple, ao menos um instante.
    Ao fim da noite, aconchego-me ao sol da praia
    predilecta do meu coração, tudo me dói,
    é um lençol de luz e solidão o que recebo, creio
    na morte como única solução, maldito quem
    por minha vez alguma vez pecou
    sem que ratificasse a estranha recompensa
    de ter aberto uma passagem para nenhum lugar.
    Agora estou aqui e não posso pensar, uma outra
    carga chama-me, obedeço cegamente
    ao encarregado geral, ninguém suspeita
    mas tenho dentro de mim uma indústria
    onde ninguém produz porque não vale a pena.


    Amadeu Baptista

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