sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Te Queria...

"Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.


Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura."
 
eugénio de andrade : variações em tom menor
colhido em: http://serportuguesserportugues.blogspot.com/

5 comentários:

  1. muito bem colhido!

    (... e o anterior a este também era apetitoso, reparou?)

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  2. Eu gosto de quase todos, mas a colheita depende de certos factores muito meus, que nem eu sei explicar...

    Está lá um do Júdice, que eu adoro e que já colhi noutros campos do mesmo proprietário e que 'postei' no Salvo Seja.

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  3. embora a poesia (também) seja para comer, estava mesmo a referir-me ao caldo verde... :)

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  4. Oh...e eu à procura do sentido poético da coisa...:-))

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  5. A Miss já reparou na fixação que o Eugénio de Andrade tinha pelas cinturas?

    Além do poema que postou, veja mais três:

    As palavras que te envio são interditas

    As palavras que te envio são interditas
    até, meu amor, pelo halo das searas;
    se alguma regressasse, nem já reconhecia
    o teu nome nas suas curvas claras.

    Dói-me esta água, este ar que se respira,
    dói-me esta solidão de pedra escura,
    estas mãos nocturnas onde aperto
    os meus dias quebrados na cintura.

    E a noite cresce apaixonadamente.
    Nas suas margens nuas, desoladas,
    cada homem tem apenas para dar
    um horizonte de cidades bombardeadas.



    Passeio Alegre

    Chegaram tarde à minha vida
    as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
    que Ulisses teria comparado
    a Nausica, mas só
    no jardim do Passeio Alegre
    comecei a amá-las. São altas
    como os marinheiros de Homero.
    Diante do mar desafiam os ventos
    vindos do norte e do sul,
    do leste e do oeste,
    para as dobrar pela cintura.
    Invulneráveis — assim nuas.



    Entre os teus lábios

    Entre os teus lábios
    é que a loucura acode,
    desce à garganta,
    invade a água.

    No teu peito
    é que o pólen do fogo
    se junta à nascente,
    alastra na sombra.

    Nos teus flancos
    é que a fonte começa
    a ser rio de abelhas,
    rumor de tigre.

    Da cintura aos joelhos
    é que a areia queima,
    o sol é secreto,
    cego o silêncio.

    Deita-te comigo.
    Ilumina meus vidros.
    Entre lábios e lábios
    toda a música é minha.


    Eugénio de Andrade

    Uma boa noite, Miss, cheia de jogos de cintura... dançando o hula-hula.

    Beijito.

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