quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Perdida por ser achada...

3 comentários:


  1. Perder


    Perder é começar. A minha vida
    foi movimento em cerne opaco e frígido...
    E quando sei que este momento eterno
    em mim percorre sulcos, veias, sonhos,
    outro momento abraça-me o porvir —
    e desconheço a margem onde navegar,
    onde aportar o peso do caminho.

    Perder é começar. Por isso a ténue sombra
    desenha no sigilo os abismais instantes
    onde existiu, uma vez, qualquer destino exacto.


    António Salvado

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  2. Louvor do esquecimento


    Bom é o esquecimento.
    Senão como é que
    O filho deixaria a mãe que o amamentou?
    Que lhe deu a força dos membros e
    O retém para os experimentar.

    Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
    Que lhe deu o saber?
    Quando o saber está dado
    O discípulo tem de se pôr a caminho.

    Na velha casa
    Entram os novos moradores.
    Se os que a construíram ainda lá estivessem
    A casa seria pequena de mais.

    O fogão aquece. O oleiro que o fez
    Já ninguém o conhece. O lavrador
    Não reconhece a broa de pão.

    Como se levantaria, sem o esquecimento
    Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
    Como é que o que foi espancado seis vezes
    Se ergueria do chão à sétima
    Pra lavrar o pedregal, pra voar
    Ao céu perigoso?

    A fraqueza da memória dá
    Fortaleza aos homens.


    Bertold Brecht

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