segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Professor Alfredo Tinoco

Fui sua aluna há muitos anos. Continuei a encontrá-lo em eventos relacionados com o assunto que me fez estar sentada nas suas aulas: a Museologia.

Só o ano passado ganhei coragem para lhe dizer (e lhe agradecer) a influência que teve na minha vida. O trabalho que entreguei para a sua disciplina mereceu-lhe, além de uma boa avaliação, um incentivo para que o apresentasse publicamente. Isto é de uma generosidade muito grande! Esse era um dos grandes atributos deste Professor: a Generosidade.

Foi num Congresso de Antropologia, logo pela manhã, que apresentei a minha comunicação, contente por estar pouca gente na sala, pois aquilo para mim era muito difícil. Nunca o teria feito sem o incentivo do Professor.

Morreu esta noite este grande humanista, o Professor Alfredo Tinoco, a quem a Museologia - sobretudo a Nova Museologia - deve muito.

É uma grande perda. Era um homem exemplar no desempenho dos ideais da Democracia pela qual lutou.

Obrigada Professor! Foi um privilégio ter sido sua aluna!

10 comentários:

  1. Por vezes aparecem na nossa vida luzes que marcam os limites pela qual ela se deve reger.

    Podemos ignorá-las ou, pelo contrário, seguir-lhes o exemplo e fazer o possível para estarmos prontos a substituí-las quando elas se extinguem. Ficamos, sempre, a dever-lhes isso — para pelo menos não diminuir o número dos que valem a pena.

    São essas luzes os faróis que indicam portos seguros, mesmo em noites de tempestade. Até porque, se virmos bem, podemos todos dizer:

    Temo por meus olhos
     
    Temo por meus olhos
    diante das puras vestes.
    E no entretanto, desejo.
     
    Temor que sugere o epílogo
    de ser cântaro partido
    ao lado de fonte pródiga.
     
    A não contemplar, prefiro
    definitiva cegueira.
     
    Não como os homens cegos,
    mas como os pés das crianças
    que são cegos, caminhando.


    Thiago de Mello

    A Miss, tenho a certeza, não foi nem será jamais «cântaro partido ao lado de fonte pródiga», pelo que os exemplos do seu amigo agora extinto não caíram em saco roto...

    Perante o desaparecimento de alguém como o descrito, junto o meu ao seu lamento.

    ResponderEliminar
  2. Há tanto tempo que não tínhamos por aqui um poema de Florbela...

    Lágrimas ocultas

    Se me ponho a cismar em outras eras
    
Em que ri e cantei, em que era querida,
    
Parece-me que foi noutras esferas,
    
Parece-me que foi numa outra vida...

    

E a minha triste boca dolorida,
    
Que dantes tinha o rir das primaveras,
    
Esbate as linhas graves e severas
    
E cai num abandono de esquecida!

    

E fico, pensativa, olhando o vago...
    
Toma a brandura plácida dum lago
    
O meu rosto de monja de marfim...
    


    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
    
Ninguém as vê cair dentro de mim!


    Florbela Espanca

    ResponderEliminar
  3. Durmo. Se sonho, ao despertar não sei

    Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
    Que coisas eu sonhei.
    Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
    Para um espaço aberto
    Que não conheço, pois que despertei
    Para o que 'inda não sei.
    Melhor é nem sonhar nem não sonhar
    E nunca despertar.


    Fernando Pessoa

    Miss, não siga as indicações do poeta... Sonhe (pode ser com "mojito" tomado ao pôr-do-sol numa ilha caribenha) e acorde revigorada, mas acorde!

    Beijito. Até amanhã!

    ResponderEliminar
  4. Também tive a sorte de conhecer este Homem! A forma como ele dava uma aula era fantástica! É uma grande perda para a Museologia e para o país! :(

    ResponderEliminar
  5. Boa tarde.

    Hoje apetece-me Eugénio — mesmo sem prenhez que justifique apetites. Mas a poesia é almofada para os nossos sonhos, arma para as nossas lutas, rosa para os nossos perfumes.

    E hoje apetece-me Eugénio...

    Passamos pelas coisas sem as ver

    Passamos pelas coisas sem as ver, 
gastos, como animais envelhecidos: 
se alguém chama por nós não respondemos, 
se alguém nos pede amor não estremecemos, 
como frutos de sombra sem sabor, 
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

    Eugénio de Andrade

    Mais grave ainda: passamos pelas pessoas sem as ver.

    ResponderEliminar

  6. As amoras


    O meu país sabe a amoras bravas
    no verão.
    Ninguém ignora que não é grande,
    nem inteligente, nem elegante o meu país,
    mas tem esta voz doce
    de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
    Raramente falei do meu país, talvez
    nem goste dele, mas quando um amigo
    me traz amoras bravas
    os seus muros parecem-me brancos,
    reparo que também no meu país o céu é azul.


    Eugénio de Andrade

    E quando perdemos um tesouro reparamos que ficámos mais pobres e que, afinal, vivemos num país que ainda possui muita gente boa — e que, portanto, possui muita inteligência e muitas riquezas.

    O cheiro a amoras, a louro, a alecrim, a rosmaninho, mais o apimentado odor dos cravos, farão, quando nos unirmos, o defumadouro que afastará os fantasmas que nos desgovernam e nos empobrecem.

    ResponderEliminar
  7. Continuou "eugeniando"...

    Frente a frente

    Nada podeis contra o amor,
    Contra a cor da folhagem,
    contra a carícia da espuma,
    contra a luz, nada podeis.

    Podeis dar-nos a morte,
    a mais vil, isso podeis
    — e é tão pouco!


    Eugénio de Andrade

    Uma boa noite, Miss!

    Sonhe com nuvens fofinhas despejando água sobre incêndios.

    ResponderEliminar

  8. Surdo, subterrâneo rio


    Surdo, subterrâneo rio de palavras
    me corre lento pelo corpo todo;
    amor sem margens onde a lua rompe
    e nimba de luar o próprio lodo.

    Correr do tempo ou só rumor do frio
    onde o amor se perde e a razão de amar
    — surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
    para onde vais, sem eu poder ficar?


    Eugénio de Andrade

    ResponderEliminar
  9. Professor de História na minha infância e passados mais de vinte anos colega de trabalho na mesma escola.
    Até Sempre Tinoco!

    ResponderEliminar