quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Decidi Outono

"Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever."


José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi

8 comentários:

  1. Os seus dois artigos sobre o José Luís Peixoto "obrigaram-me" a procurar na net mais poesia dele, que só superficialmente conhecia.

    Obrigado por isso, Miss.

    Um leigo como eu gosta ou não gosta apenas "porque sim" ou "porque não", e a verdade é que a poesia dele me deixou uma sensação de "pois, está bem, é linda, mas só fala dele e dos seus problemas", não sei se consigo explicar-me.

    Acho que lhe falta universalidade, aquele dom que permite que estejamos a ler sobre as dores do poeta como se fôssemos nós a tê-las.

    Como acontece, por exemplo, com o "nosso" Torga. Nos seus poemas fala sempre na 1.ª pessoa, mas quando o leio sinto que sou eu a contar aquelas mágoas ou aquelas alegrias.

    Perfil

    Não. Não tenho limites.
    Quero de tudo
    Tudo.
    O ramo que sacudo
    Fica varejado.
    Já nascido em pecado,
    Todos os meus pecados são mortais.
    Todos tão naturais
    À minha condição,
    Que quando, por excepção,
    Os não pratico
    É que me mortifico.
    Alma perdida
    Antes de se perder,
    Sou uma fome incontida
    De viver.
    E o que redime a vida
    É ela não caber
    Em nenhuma medida.


    Miguel Torga

    «[…] o que redime a vida é ela não caber em nenhuma medida.»

    (Vivamos, então, porque, como dizia o outro, vamos estar muito tempo mortos.)

    ResponderEliminar
  2. Temos a obrigação de ser «como a onda que morre para outra começar»...

    Devemo-lo principalmente a nós próprios, porque desfazermo-nos na praia é enterrar a cabeça na areia.

    Pelicano

    Onda que vais morrendo em nova onda,
    mar que vais morrendo noutro mar,
    assim a minha vida se desprenda e do meu sumo
    escorra a vida para as bocas que se finam
    de desejar.

    Ó dia que vais escoando como os rios
    e empalideces rostos e cabelos,
    traze a palavra para a incerteza
    dos que vagueiam à deriva;
    a bandeira amarela se rasgue
    e dos farrapos se gere outra cor.

    Ó dia correndo e findando,
    some-te lá no cimo da fraga
    mas deixa que no teu rasto fique o sangue
    anunciando a esperança noutro dia.

    Sê como a onda que morre para outra começar.

    Fernando Namora

    ResponderEliminar
  3. E ainda há quem diga que a sexta-feira 13 é dia aziago...

    Eu, que não tive tempo nem inspiração para oferecer hoje nada a ninguém, recebo, assim, um recado de um Mestre pronto a aprender mais e uma recordação de Fernando Namora. Recordação não é bem, que eu na poesia sou muito nova, mas gostei muito de certos romances de Fernando Namora. E de ver na televisão os Retalhos da Vida de um Médico. Depois sei que esbarrei um dia triste no Rio Triste. Não sei qual das tristezas era mais forte, mas tive de abandonar o livro...recordei-me agora que nunca o acabei...

    ResponderEliminar
  4. Se eu fosse mestre, Miss...

    Não acredita que tenho aprendido muito por aqui? Pois é verdade.

    Quanto ao "Rio Triste", tem piada que a primeira edição foi composta por mim, há para aí... 25 anos (ou mais?).

    Entrou pelos olhos e saiu pelos dedos!

    Acho que vale a pena acabar de o ler.

    ResponderEliminar
  5. Faleceu ontem dia 12, o poeta angolano Ruy Duarte de Carvalho.

    Não se limitou a passar pela vida, fê-la acontecer, leu o seu sentido e deixou-se engajar na luta pelo rumo que lhe pareceu mais justo — não o que lhe pareceu mais proveitoso para si mesmo.

    Fala da Rainha para Bento Banha Cardoso
    Antes do mais sou fêmea
    e vós sabeis
    que uma mulher dispõe
    de outros recursos.
    Para vosso desfavor
    eu sou mulher
    e rei
    cabo de guerra
    e negra.
    Respondo pela voz de fêmea:
    — aspiro a ver-vos rendido.
    Respondo pela voz do povo:
    — o povo quer-vos vencido.
    Pela voz das tropas respondo:
    - apraz-me ver-vos em fuga.
    Respondo pela voz da raça:
    - a raça quer-vos humilde.
    A guerra é sem quartel
    capitão-mor
    e se eu morrer sem ver-vos
    de abalada
    hei-de parir quem cumpra
    essa alegria.


    Ruy Duarte de Carvalho
    in "Memória de tanta guerra"

    ResponderEliminar
  6. Apetece-me Sophia como apetece um banho de mar ao pôr-do-sol de dia tórrido, com uma luz quente e avermelhada ao fundo, sobre um mar azul.

    Espero

    Espero sempre por ti o dia inteiro,
    Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
    O nevoeiro
    E há em todas as coisas o agoiro
    De uma fantástica vinda.


    Sophia de Mello Breyner Andresen

    (Durma bem, Miss Escrivaninha. Sonhe com esplanadas à beira-mar, brisas marinhas, salada de búzios e vinho verde... Beijito.)

    ResponderEliminar
  7. Se eu fosse Miss, Mestre...

    Bons mergulhos, mesmo no finzinho de dia, tentando banhar-se na estrada de luz, por onde o sol se despede em cada dia!

    ResponderEliminar
  8. A Miss, quando muito, não será é Escrivaninha — faltar-lhe-ão as gavetas e as ferragens (sorte sua, elas enferrujam...).

    Quanto aos mergulhos, para mim não passam de apetites — não estou de férias, ao contrário de certos móveis a quem ainda faltam 15 dias para verem túneis sem luz...

    Beijito.

    ResponderEliminar