domingo, 8 de agosto de 2010

Chuva de Verão

A chuva começou a cair agora, rasgando a opressão de um tempo cinzento e carregado.

Cada uma, à nossa maneira, estamos as três encantadas.

Os pingos são grossos e esborracham-se na tijoleira quente do terraço com pequenos baques que me fazem lembrar o mar, ondas encapeladas, homens de oleado vestido e os pescadores de Raúl Brandão.

A chuva de Verão é uma névoa de frescor. Não assusta como as tempestades de Inverno, não traz maus pensamentos, nem a ameaça da permanência, não oprime...refresca, liberta.

A Shaneca deitou-se no corredor, entre as janelas semi-abertas a ouvir a chuva, a Menina está na lavandaria, meia dentro de casa, estendendo o focinhito e saboreando a chuva nos bigodes, que parecem ainda maiores; eu desliguei o rádio e resolvi vir para aqui escrever, ao som da chuva, benéfico, terapêutico, quebrando a rotina dos dias de sol, num domingo de Agosto.

11 comentários:


  1. Chove. Há silêncio


    Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
    Não faz ruído senão com sossego.
    Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
    Do que não sabe, o sentimento é cego.
    Chove. Meu ser (quem sou) renego...

    Tão calma é a chuva que se solta no ar
    (Nem parece de nuvens) que parece
    Que não é chuva, mas um sussurrar
    Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
    Chove. Nada apetece...

    Não paira vento, não há céu que eu sinta.
    Chove longínqua e indistintamente,
    Como uma coisa certa que nos minta,
    Como um grande desejo que nos mente.
    Chove. Nada em mim sente...


    Fernando Pessoa

    ResponderEliminar

  2. Chuva de verão


    Raio de sol
    beija a pele de uma criança que ri
    há tanto tempo
    que a água da vida não caía aqui

    (chorus)
    chuva de verão
    no coração
    chuva de verão
    traz emoção

    canta e dança
    todos os dias há razão pra celebrar
    bate no peito
    um coração com força de acreditar

    (chorus)

    dia que tchuba bem, nôs ta voa
    dia que tchuba bem, nôs ta dança
    dia que tchuba bem, nôs ta voa
    dia que tchuba bem, nôs ta dança


    Sara Tavares

    Só encontrei este vídeo, amador e com a música incompleta:

    http://www.youtube.com/watch?v=wLkXaTX4KX0

    (Esquecemos frequentemente aqueles para quem «a água da vida» é um bem raro, um milagre...)

    ResponderEliminar
  3. E agora, um momento (ainda) mais infantil, enquanto a mestra não entra na sala:

    Chuva

    Cai a chuva, ploc, ploc
    corre a chuva ploc, ploc
    como um cavalo a galope.

    Enche a rua, plás, plás
    esconde a lua, plás, plás
    e leva as folhas atrás.

    Risca os vidros, truz, truz
    molha os gatos, truz, truz
    e até apaga a luz.

    Parte as flores, plim, plim
    maça a gente plim, plim
    parece não ter mais fim.


    Luísa Ducla Soares


    Canção da Chuva

    Bate a chuva, tic... tic...
    Nas vidraças da janela.
    Canta a chuva, tic... tic...
    Que linda canção aquela!

    Tic... tic... tic... tic...
    Que linda canção aquela
    De meninas ao despique:
    — Qual de nós será mais bela?

    Meninas a fazer meia
    Com as nuvens de novelo,
    Nenhuma delas é feia!

    Tic... tic... tic... tic...
    Tenho um medo que me pelo,
    Que alguma delas me pique.


    António de Sousa

    ResponderEliminar
  4. A chuva continua pingando, mas apenas poemas...


    A chuva chove


    A chuva chove mansamente ... como um sono
    Que tranquilize, pacifique, resserene ...
    A chuva chove mansamente ... Que abandono!
    A chuva é a música de um poema de Verlaine...

    E vem-me o sonho de uma véspera solene,
    Em certo paço, já sem data e já sem dono...
    Véspera triste como a noite, que envenene
    A alma, evocando coisas líricas de outono...

    ... Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
    Com muita névoa pelos ombros da montanha...
    Paço de imensos corredores espectrais,

    Onde murmurem velhos órgãos árias mortas,
    Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
    Revira in-fólios, cancioneiros e missais...


    Cecília Meireles

    ResponderEliminar
  5. Um fado muito lindo...

    http://www.youtube.com/watch?v=OzrUs08-SWs&feature=related

    Chuva

    As coisas vulgares que há na vida
    Não deixam saudades
    Só as lembranças que doem
    Ou fazem sorrir

    Há gente que fica na história
    da história da gente
    e outras de quem nem o nome
    lembramos ouvir

    São emoções que dão vida
    à saudade que trago
    Aquelas que tive contigo
    e acabei por perder

    Há dias que marcam a alma
    e a vida da gente
    e aquele em que tu me deixaste
    não posso esquecer

    A chuva molhava-me o rosto
    Gelado e cansado
    As ruas que a cidade tinha
    Já eu percorrera

    Ai... meu choro de moça perdida
    gritava à cidade
    que o fogo do amor sob chuva
    há instantes morrera

    A chuva ouviu e calou
    meu segredo à cidade
    E eis que ela bate no vidro
    Trazendo a saudade


    Mariza
    (não consegui confirmar a autoria, mas as indicações na net apontam para a autoria da própria, com música de Jorge Fernando)

    «Só as lembranças que […] fazem sorrir» — espero que a Miss tenha muitas dessas.

    ResponderEliminar
  6. " (...) Cinderela das histórias a avivar memórias, a deixar mistério
    Já o fez andar na lua, no meio da rua e a chover a sério.

    Ela, quando lá o viu, encharcado e frio, quase o abraçou.
    Com a cara assim molhada ninguém deu por nada, ele até chorou..."

    Carlos Paião, Cinderela

    ResponderEliminar
  7. Viva, Miss, «o meu nome é Pedro, e o teu qual é?»

    Grande poeta e compositor, esse médico que tão bem sabia ler almas...

    ResponderEliminar

  8. Chuva de caju


    Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
    Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
    Tereza? Maria?
    Entra, invade a casa, molha o chão,
    Molha a mesa e os livros.
    Sei de onde vens, sei por onde andaste.
    Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos.
    Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
    Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
    E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
    Lama viva, espírito do ar nocturno do mangue.
    Invade a casa, molha o chão,
    Muito me agrada a tua companhia,
    Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
    Quer te chames Tereza ou Maria.


    Joaquim Cardozo

    ResponderEliminar
  9. Um poema-canção: lê-lo sem bater o pezinho ao ritmo da bossa-nova, é quase impossível, não acham?

    A canção do tédio


    Anda uma estrela pelo céu,
    sozinha, arrastando um véu
    de viúva.
    — É a chuva.

    Rola um soluço leve no ar,
    bem longo no seu rolar,
    bem lento.
    — É o vento.

    Perpassa o passo oco de algum
    fantasma, quieto como um
    segredo.
    — É o medo.

    Batem à porta. Abro. Quem é?
    Uma alta sombra, de pé,
    se eleva.
    — É a treva.

    Mas, desde então, alguém está
    comigo. É inútil. Não há
    remédio.
    — É o tédio.


    Guilherme de Almeida

    ResponderEliminar
  10. Raramente podemos ter o melhor dos dois mundos, somos obrigados a escolher. A dúvida persistente: isto ou aquilo?

    Ou isto ou aquilo

    Ou se tem chuva e não se tem sol,
    ou se tem sol e não se tem chuva!

    Ou se calça a luva e não se põe o anel,
    ou se põe o anel e não se calça a luva!

    Quem sobe nos ares não fica no chão,
    quem fica no chão não sobe nos ares.

    É uma grande pena que não se possa
    estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

    Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
    ou compro o doce e gasto o dinheiro.

    Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
    e vivo escolhendo o dia inteiro!

    Não sei se brinco, não sei se estudo,
    se saio correndo ou fico tranquilo.

    Mas não consegui entender ainda
    qual é melhor: se é isto ou aquilo.


    Cecília Meireles

    (Mas, por vezes, raras vezes, podemos chegar ao céu...)

    ResponderEliminar
  11. Ena! Uma chuva de poemas nunca será uma seca! :-)

    E bem precisa é a frescura neste Verão, tão quente...

    ResponderEliminar