quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Calor Abrasador

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário Sá Carneiro, Quase

11 comentários:

  1. Desculpe, Miss Escrivaninha, mas este poema é demasiado bom para ficar pelo princípio...

    Quase

    Um pouco mais de sol — eu era brasa,
    Um pouco mais de azul — eu era além.
    Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
    Se ao menos eu permanecesse aquém...

    Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
    Num grande mar enganador de espuma;
    E o grande sonho despertado em bruma,
    O grande sonho — ó dor! — quase vivido...

    Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
    Quase o princípio e o fim — quase a expansão...
    Mas na minh'alma tudo se derrama...
    Entanto nada foi só ilusão!

    De tudo houve um começo... e tudo errou...
    — Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...
    Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
    Asa que se enlaçou mas não voou...

    Momentos de alma que desbaratei...
    Templos aonde nunca pus um altar...
    Rios que perdi sem os levar ao mar...
    Ânsias que foram mas que não fixei...

    Se me vagueio, encontro só indícios...
    Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
    E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
    Puseram grades sobre os precipícios...

    Num ímpeto difuso de quebranto,
    Tudo encetei e nada possuí...
    Hoje, de mim, só resta o desencanto
    Das coisas que beijei mas não vivi...

    Um pouco mais de sol — e fora brasa,
    Um pouco mais de azul — e fora além.
    Para atingir faltou-me um golpe de asa...
    Se ao menos eu permanecesse aquém...


    Mário de Sá-Carneiro


    «Num ímpeto difuso de quebranto,
    Tudo encetei e nada possuí...
    Hoje, de mim, só resta o desencanto
    Das coisas que beijei mas não vivi...


    (Resumo triste de vida... mas...)

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  2. Está de escachar!


    «[…] Pela escada, o poeta das LAPIDÁRIAS aludiu ao tórrido calor de Agosto. E eu que nesse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha rosa — deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:

    — Sim, está de escachar!

    E ainda o torpe som não morrera, já uma aflição me lacerava, por esta «chulice» de esquina de tabacaria, assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sebo sobre o supremo artista das LAPIDÁRIAS. O homem que conversara com Hugo à beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintilante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes paralelas, em calão teimoso: — «é de rachar»! «está de ananases»! «derrete os untos»!... Atravessei ali uma dessas angústias atrozes e grotescas, que, aos vinte anos, quando se começa a vida e a literatura, vincam a alma — e jamais esquecem.

    […]»

    Eça de Queirós
    in "Correspondência de Fradique Mendes", cap. II

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  3. Então? Tristezas, aflições e embaraços?...

    As melhoras! :-)

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  4. E a Miss acha que ainda há melhoras?

    Não será incurável?

    Cuide-se, que pode também ser contagiosa...

    (Por curiosidade: de que doença estava falando?)

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  5. «Idade de sofrer por essas coisas»...


    Essas coisas

    «Você não está mais na idade
    de sofrer por essas coisas.»

    Há então a idade de sofrer
    e a de não sofrer mais
    por essas, essas coisas?

    As coisas só deviam acontecer
    para fazer sofrer
    na idade própria de sofrer?

    Ou não se devia sofrer
    pelas coisas que causam sofrimento
    pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

    E se não estou mais na idade de sofrer
    é porque estou morto, e morto
    é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?


    Carlos Drummond de Andrade

    (Quero sofrer por essas coisas até se me acabar a idade...)

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  6. Eu estava a falar da tristeza, que, por acaso, é contagiosa. Mas a alegria também!

    Boa noite, até amanhãe (que rima e tudo).

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  7. Caramba! Sincronia também é um bom título para um romance :-)

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  8. Durma bem, Miss, sonhando com o António Silva a gritar: "Você dessincroniza-me todo!"

    (Era assim, não era?)

    Ou sonhando com pátios e cantigas, arraiais e coisas que tais...

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  9. Recordo ainda…


    Recordo ainda... e nada mais me importa...
    Aqueles dias de uma luz tão mansa
    Que me deixavam, sempre, de lembrança,
    Algum brinquedo novo à minha porta...

    Mas veio um vento de Desesperança
    Soprando cinzas pela noite morta!
    E eu pendurei na galharia torta
    Todos os meus brinquedos de criança...

    Estrada afora após segui... Mas, aí,
    Embora idade e senso eu aparente
    Não vos iludais o velho que aqui vai:

    Eu quero os meus brinquedos novamente!
    Sou um pobre menino... acreditai!...
    Que envelheceu, um dia, de repente!...


    Mário Quintana

    (Eu também quero os meus brinquedos, os antigos e os novos, os que mereci e os que a vida me deu sem mérito meu!...)

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  10. Ah...se calhar está só a brincar...

    "Canta o ralo no moliço,
    quando estou à tua beira,
    mas não te rales com isso,
    meu amor, é brincadeira"

    Canta o Ralo no Moliço, Conjunto António Mafra

    :-)

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  11. Miss, não sei a qual das partes se refere, mas sim, claro, «... é brincadeira...».

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