sábado, 24 de julho de 2010

Para afastar as nuvens negras:

1 comentário:


  1. Culpabilidade


    O que é o perdão?

    Vivi na esperança
    de o ter entre os dedos.
    Quem diz que o alcança
    só vive de enredos...

    Fiz mal? Mas a quem?
    Que venham contar-me
    as mágoas geradas
    por meu vil desdém
    e as feridas mostrar-me
    na carne rasgadas.

    Fiz mal? Mas a quem?
    Fui pedra lançada
    no vosso caminho?
    Barrei-vos a estrada
    com traves de pinho?

    Só sei que
    há vozes gritando
    a culpa que sinto
    pesar-me na alma,
    há ecos cavando
    a dor que pressinto
    em noites de calma...

    Só sei que
    suspensos enredos
    da minha agonia,
    urdida ao serão
    em grande segredo,
    tornaram vazia
    a minha intuição.

    Fiz mal? Sim ou não?
    Onde e quando?
    Dizei-mo, dizei-mo!

    Eu sou como a rocha
    virada prò norte,
    que acolhe a rajada
    em concha bem forte
    e a atira prò nada...

    Fiz mal? Sim ou não?
    Até os duendes,
    escondidos e aduncos,
    me negam razão.

    O que é que vós tendes?
    Tremeis como os juncos
    nas bordas do rio.
    Escondeis-vos de mim,
    do meu poderio?

    Do meu poderio!
    Ah! Ah! Ah!
    Tesouros saídos
    de cofre guardado
    em cave nojenta,
    demónios roídos
    de querer aturado
    em bolsa sangrenta?

    Fiz mal? Mas a quem?
    Àqueles que ainda
    não viram a luz
    das coisas imundas?
    De ideias fecundas
    fiz braços em cruz?

    A treva gerada
    em dúvida vã
    que cobre a minha alma
    andou apressada;
    a todos levou
    a ânsia e a calma
    em Deus embarcou?

    Fiz mal? Como e onde?
    E quando? E quando?


    Isabel Gouveia

    (Talvez "pica-pauzando" alguma nave tenha provocado um naufrágio...)

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