quinta-feira, 3 de junho de 2010

Cruzeiro Seixas: Um Surrealista, meu conterrâneo


Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.

Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.

Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.

Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.

Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.

Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.



Poema (1950) colhido em:
http://canaldepoesia.blogspot.com/2008/10/cruzeiro-seixas-poema.html

Serigrafia (2007), colhida em:

Facebook, Cruzeiro Seixas, Mestre do Surrealismo Português

1 comentário:

  1. Outro surrealista:

    Ortofrenia

    Aclamações
    dentro do edifício inexpugnável
    aclamações
    por já termos chapéu para a solidão
    aclamações
    por sabermos estar vivos na geleira
    aclamações
    por ardermos mansinho junto ao mar
    aclamações
    porque cessou enfim o ruído da noite a secreta alegria por escadas de caracol
    aclamações
    porque uma coisa é certa: ninguém nos ouve
    aclamações
    porque outra é indubitável: não se ouve ninguém


    Mário Cesariny

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