domingo, 2 de maio de 2010

EÃM ad aid

Qual é a palavra para uma mãe que perde um filho?
Acho que não há.
Um filho que perde a mãe é orfão. Existem orfanatos, para proteger os desafortunados, que perderam a mãe ou os pais cedo demais. Orfanatos. Forma de compensar algo esperado, só que não tão cedo.
É normal os filhos perderem os pais. É a ordem natural da vida. Os mais velhos morrem, os mais novos ficam. Todos estamos, de alguma maneira, preparados para isso. E criámos mecanismos de protecção mais ou menos eficazes. Temos de estar preparados, é natural que aconteça. Tão natural que existe uma palavra, um «estado civil» para isso: ser orfão, a orfandade.
Mas não conseguimos sequer conceptualizar uma mãe sem filho: não tem nome, não é natural...não é concebível. É tão terrível que é inominável!
Hoje é nessas mães que eu penso. Mães sem filhos. Nunca deixaraão de ser mães...e no entanto já não o são, porque não têm quem lhes chame mães.
Penso na minha avó, que perdeu o filho único, penso na D. Maria, que perdeu uma filha, penso na D. Lúcia que perdeu um filho, penso na D. Zita, que muito velhinha, ao perder o segundo filho, me dizia, «Para que vivo eu? Qual o sentido disto?»
Hoje, que as montras todas assinalam a ternura associada às mães e filhos, penso nas mães que ficaram orfãs de filhos, penso no inverso de ser mãe, na destruição brutal dessa instituição que é a maternidade...
Como se chama a uma mãe que o deixou de ser? Não se concebe, não se verbaliza, afasta-se do espírito.
Não se aguenta?... «Aguentamos tudo o que Deus quer que aguentemos», dizia a minha avó, com o fundo da tristeza dos olhos «Esperemos que Ele não mande tudo o que tem para nos mandar».
Não existe palavra para uma mãe que perdeu um filho. É uma pessoa amputada, uma pessoa incompleta, alguém que perdeu - para sempre - uma parte de si...Mãe...que nunca deixa de ser mãe: eãm.

5 comentários:

  1. Muito bom, o texto da Menina!
    De facto, mães são todas as mulheres que alguma vez tiveram ou adoptaram um filho – esteja presente ou ausente, vivo ou morto.
    Como lamento as mães a quem não resta nenhum filho que lhe acaricie a face!

    A mãe e o filho morto


    A pobre mãe cuidava
    Que o filhinho inda vivia,
    E nos braços o apertava
    O coração que batia
    Era o dela, e não do filho,
    Que já do sono da morte
    Havia instantes dormia.

    Olhei, e fiquei absorto
    Na dor daquela mulher
    Que tinha, sem o saber,
    Nos braços o filho morto!

    Rezava, e do fundo d'alma!
    Enquanto a infeliz rezava
    O pobre infante esfriava.
    Quando gelado o sentira,
    O grito que ela soltou,
    Meu Deus! - que dor expressou!

    Pensei então: a mulher,
    Para alcançar o perdão
    De quantos crimes tiver,
    Na fervorosa oração
    Basta que possa dizer:
    "Tive um filhinho, Senhor,
    E o filho do meu amor
    Nos braços o vi morrer!"


    Bulhão Pato

    Não há, estou certo, dor igual!

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  2. Mestre: Deste autor estou familizarizada, sobretudo, com as amêijoas. O Braz e o Gomes de Sá, escreveram mais alguma coisa além de bacalhau?
    (Desculpe, mas o tema era tão sério, que me apeteceu inverter um pouco o tema da conversa)

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  3. Acho que o Brás, o Gomes de Sá e o Zé do Pipo só faziam poemas concretos – e não diga a Escrivaninha que não são saborosos poemas!

    Quanto ao Bulhão Pato, juntar coentros ao azeite com alho e abrir nessa mistura as amêijoas foi um soneto com rima infinita, conhecido até dos mais cábulas.
    Jamais será esquecido!

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