sexta-feira, 14 de maio de 2010

Aquaparque

Nasceu de uma emoção, assim, sem esperar.
Quando teve consciência da luz estava à beira de um precipício. Antes de poder decidir o que fazer, sentiu-se empurrada e só teve tempo de se agarrar a uma pestana, por onde foi deslizando, deslizando, até se estatelar na pele macia da face, por onde se deixou escorregar...devagarinho, suavemente, embalada num movimento agradável...relaxante, até.
Não poderia precisar quanto tempo demorou o 'slide', mas o movimento terminou num novo precipício. Suspensa, teve agora tempo de decidir por si o que faria.
Resolveu arriscar. Saltar do queixo, em queda livre, aterrando de novo em pele macia. Continuou a sua rota por um desfiladeiro até chegar a uma planície, tão grande que não se via o fim. Sentiu-se dissolver e incorporar na própria pele que lhe servia de divertimento.
Foi breve aquele momento, mas muito agradável.
Gostaria de repetir.
Será que todas as lágrimas se divertiam assim? Será que era sempre tão emocionante?
Agora era só esperar por outra emoção...Que emoção!

3 comentários:

  1. Muito lindo, mais um conto para o tal livro, não será?

    Lágrima

    A cada hora
    o frio
    que o sangue leva ao coração
    nos gela como o rio
    do tempo aos derradeiros glaciares
    quando a espuma dos mares
    se transformar em pedra.

    Ah no deserto
    do próprio céu gelado
    pudesses tu suster ao menos na descida
    uma estrela qualquer
    e ao seu calor fundir a neve que bastasse
    à lágrima pedida
    pela nossa morte.


    Carlos de Oliveira

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  2. Acho que o mesmo se passa com as outras formas de literatura...

    Os poemas

    Os poemas são pássaros que chegam
    não se sabe de onde e pousam
    no livro que lês.
    Quando fechas o livro, eles alçam voo
    como de um alçapão.
    Eles não têm pouso
    nem porto;
    alimentam-se um instante em cada
    par de mãos e partem.
    E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
    no maravilhado espanto de saberes
    que o alimento deles já estava em ti...


    Mário Quintana

    É a arte do contador: dar-nos a ilusão de que «o alimento deles já estava em ti...»

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  3. Muito bonitos estes poemas.
    Este último deu-me o mote para escrever algumas reflexões sobre «essa coisa» dos conhecimentos ou das aptidões que temos em nós. E que, se dependem também da educação e das oportunidades, parece que têm muito a ver com as personalidades; isso, que nos individualiza em cada um.

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