domingo, 25 de abril de 2010

Vermelho!

4 comentários:

  1. Em 1958, Torga descrevia assim o que só viríamos a possuir 17 anos depois, «O não inconformado que se diz a Deus, à tirania, à eternidade.»:


    Flor da Liberdade


    Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
    Também nós... Também nós... E o sol recua.
    Apenas o teu rosto continua
    A sorrir como dantes,
    Liberdade!
    Liberdade do homem sobre a terra,
    Ou debaixo da terra.
    Liberdade!
    O não inconformado que se diz
    A Deus, à tirania, à eternidade.

    Sepultos, insepultos,
    Vivos amortalhados,
    Passados e presentes cidadãos:
    Temos nas nossas mãos
    O terrível poder de recusar!
    E é essa flor que nunca desespera
    No jardim da perpétua primavera.


    Miguel Torga

    Um bom Dia da Liberdade, que até as Escrivaninhas têm direito!

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  2. Obrigada, Mestre.
    Para si também: "Liberdade, no jardim da perpétua primavera."

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  3. O último negócio


    Certa manhã
    ia eu pelo caminho pedregoso,
    quando, de espada desembainhada,
    chegou o Rei no seu carro.
    Gritei:
    — Vendo-me!
    O Rei tomou-me pela mão e disse:
    — Sou poderoso, posso comprar-te.
    Mas de nada lhe serviu o seu poder
    e voltou sem mim no seu carro.

    As casas estavam fechadas
    ao sol do meio dia,
    e eu vagueava pelo beco tortuoso
    quando um velho
    com um saco de oiro às costas
    me saiu ao encontro.
    Hesitou um momento, e disse:
    — Posso comprar-te.
    Uma a uma contou as suas moedas.
    Mas eu voltei-lhe as costas
    e fui-me embora.

    Anoitecia e a sebe do jardim
    estava toda florida.
    Uma gentil rapariga
    apareceu diante de mim, e disse:
    — Compro-te com o meu sorriso.
    Mas o sorriso empalideceu
    e apagou-se nas suas lágrimas.
    E regressou outra vez à sombra,
    sozinha.

    O sol faiscava na areia
    e as ondas do mar
    quebravam-se caprichosamente.
    Um menino estava sentado na praia
    brincando com as conchas.
    Levantou a cabeça
    e, como se me conhecesse, disse:
    — Posso comprar-te com nada.
    Desde que fiz este negócio a brincar,
    sou livre.


    Rabindranath Tagore
    (tradução de Manuel Simões)

    Como diz outro poeta: «Ser livre é poder escolher a sua própria prisão.»

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  4. Isso não é prisão, é apego, que rima com aconchego...

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