segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Surpreendam-me; surpreendam-se...e a magia volta

Uma das coisas aborrecidas em ser professora é que quando definimos um trabalho comum a todos os alunos temos depois de ver ou ouvir muuuuuiiiitos trabalhos iguais ou parecidos.
Assim, o trabalho que consistia numa nota biográfica de uma personagem do século XIX, proporcionou-me muitos Thomas Edison(s) e muitos Graham Bell(s), cujas justificações da escolha invariavelmente diziam "porque o que ele fez teve muita importância para o nosso tempo: hoje, na nossa vida, é muito importante a electricidade e o telefone."
E torna-se monótono. Faz parte do pacote...de ser professora...aturar trabalhos muito parecidos...monotonamente parecidos; e perguntas "de aprofundamento" do género: "Ele casou? Teve filhos?"
Pronto...uma pessoa está preparada, já não estranha...
Mas talvez tudo isto torne muito mais refrescante o aparecimento de um trabalho, uma personagem e uma justificação diferente.
Foi hoje, J.D. apresentou-se para expôr o seu trabalho. Era o último da turma, porque, como sempre, adia tudo o que pode, tentando levar sempre a vida a brincar, mas com um espírito fino e agudo, um apurado sentido de humor e de observação.
- Então e a tua personagem é...
- Mendel.
A minha atenção completa e a estranheza da turma por uma personagem que não tinha ainda sido abordada.
- Quem é? Fez o quê?
- É o que eu vou dizer - J.D. deliciado por perceber que tinha público.
Explicou tudo direitinho. O Mosteiro, o jardim, as experiências, ao longo de anos, com as ervilhas, a observação cuidadosa, os resultados ignorados por um mundo impreparado que chama hoje «pai da genética» a um indivíduo que relegou para o desempenho de tarefas burocráticas, amargurando-lhe o fim da vida.
Gostei de recordar que isto dos incompetentes tomarem as rédeas e tratarem como burros todos os que apresentem algo de diferente é quase uma tradição.
Debatemos, explicámos, eu recordei a viagem em que, pela primeira vez, num museu de ciência - do lado de lá do mar - tinha visto uma exposição sobre Mendel; referimos Darwin, as recentes comemorações...
Eu estava encantada.
De repente lembrei-me que faltava fazer a pergunta sacramental: "E porque escolheste esta personagem? Porque te interessaste por ele?"
O rapaz abriu um sorriso franco: "Oh Professora...porque ele se interessou pelas ervilhas...e eu acho que elas são todas iguais."

4 comentários:

  1. :D

    (quer isto dizer que me ri - e que verifiquei com agrado o aumento da diferença entre as partículas de felicidade e palavras doridas)

    [são esses os breves e mágicos momentos que não nos deixam desistir, não é?]

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  2. Magia? Magia é acordar vivo e sonhar acordado...

    Síntese da felicidade

    Desejo a você
    Fruto do mato
    Cheiro de jardim
    Namoro no portão
    Domingo sem chuva
    Segunda sem mau humor
    Sábado com seu amor
    Filme do Carlitos
    Chope com amigos
    Crônica de Rubem Braga
    Viver sem inimigos
    Filme antigo na TV
    Ter uma pessoa especial
    E que ela goste de você
    Música de Tom com letra de Chico
    Frango caipira em pensão do interior
    Ouvir uma palavra amável
    Ter uma surpresa agradável
    Ver a Banda passar
    Noite de lua cheia
    Rever uma velha amizade
    Ter fé em Deus
    Não ter que ouvir a palavra não
    Nem nunca, nem jamais e adeus.
    Rir como criança
    Ouvir canto de passarinho
    Sarar de resfriado
    Escrever um poema de Amor
    Que nunca será rasgado
    Formar um par ideal
    Tomar banho de cachoeira
    Pegar um bronzeado legal
    Aprender um nova canção
    Esperar alguém na estação
    Queijo com goiabada
    Pôr-do-sol na roça
    Uma festa
    Um violão
    Uma seresta
    Recordar um amor antigo
    Ter um ombro sempre amigo
    Bater palmas de alegria
    Uma tarde amena
    Calçar um velho chinelo
    Sentar numa velha poltrona
    Tocar violão para alguém
    Ouvir a chuva no telhado
    Vinho branco
    Bolero de Ravel
    E muito carinho meu.


    Carlos Drummond de Andrade

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  3. josé luis:
    são de facto estes momentos que devolvem a magia, mas está cada vez mais difícil...

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  4. Mestre:
    Que lindo inventário de partículas de felicidade!...
    Mas, se tivéssemos de escolher só algumas?...
    Muito carinho meu, para si, também.

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