sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

"Navegar é preciso; Viver não é preciso", porque para viver não existem sistemas GPS

Como se consegue conciliar o «olho por olho, dente por dente» com a oferta da outra face, no mesmo livro de orientação teórica e metodológica para a vida?
A Bíblia devia ter um aviso, no início, da género:
«A coordenação desta publicação não se responsabiliza pelas opiniões expressas, que são da única e exclusiva responsabilidade dos autores de cada artigo.»
É muito difícil reger a vida por um livro que não prima pela coerência.
Se optarmos pela orientação da moral laica - que parte dos valores cristãos para se firmar no asséptico «politicamente correcto» - tropeçamos frequentemente na hipocrisia social e em todo o tipo de incorrecções mascaradas de civismo «para inglês ver» (ou melhor, e para não afirmar qualquer país, «para uma comunidade internacional e absolutamente plural ver»).
Se quer no plano da imanência quer no da transcendência não existem caminhos claros...estaremos condenados a viver sempre errados? Porque afinal a Verdade é sempre só a nossa verdade...e a Razão é sempre só a nossa razão...Como nos relacionamos com os outros, então?
Felizmente existem o céu, o mar e a música, de que podemos beneficiar sozinhos, sem dar explicações, sem dividir espaços, sem nos preocuparmos com mais nada, a não ser o momento de estar aqui e agora, com a caneta que obedece à nossa mão, com o som que nos faz ir descontraindo e com o ar, que nos entra pelas narinas, sem um plano prévio, sem regras estabelecidas, sem termos de pensar no certo e no errado...
Só estamos, somos, assim.

8 comentários:


  1. Viver sempre também cansa!


    Viver sempre também cansa!
    O sol é sempre o mesmo e o céu azul
    ora é azul, nitidamente azul,
    ora é cinza, negro, quase verde...
    Mas nunca tem a cor inesperada.
    O Mundo não se modifica.
    As árvores dão flores,
    folhas, frutos e pássaros
    como máquinas verdes.
    As paisagens também não se transformam.
    Não cai neve vermelha,
    não há flores que voem,
    a lua não tem olhos
    e ninguém vai pintar olhos à lua.
    Tudo é igual, mecânico e exacto.
    Ainda por cima os homens são os homens.
    Soluçam, bebem, riem e digerem
    sem imaginação.
    E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
    discursos de Mussolini,
    guerras, orgulhos em transe,
    automóveis de corrida...
    E obrigam-me a viver até à Morte!
    Pois não era mais humano
    morrer por um bocadinho,
    de vez em quando,
    e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
    Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
    morrer em cima dum divã
    com a cabeça sobre uma almofada,
    confiante e sereno por saber
    que tu velavas, meu amor do Norte.
    Quando viessem perguntar por mim,
    havias de dizer com teu sorriso
    onde arde um coração em melodia:
    "Matou-se esta manhã.
    Agora não o vou ressuscitar
    por uma bagatela."
    E virias depois, suavemente,
    velar por mim, subtil e cuidadosa,
    pé ante pé, não fosses acordar
    a Morte ainda menina no meu colo...


    José Gomes Ferreira

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  2. Não quer considerar - a pedido de várias famílias, tenho a certeza - a possibilidade de abrir um consultório de terapia pela poesia? Psicopoesia, talvez...

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  3. Os poetas (não eu!) têm o dom da duplicidade: poema lido a rir até nos mostra os dentes, mas também servirá para nos dar a certeza de que o mundo é negro, o amor impossível, a vida uma trampa...
    É uma espécie de banha-da-cobra para o espírito, a Poesia!
    Se não tivermos panarícios, usemo-la como graxa para a alma.

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  4. lamento informar mas creio ter visto pblicidade anunciando descontos de natal para sistemas GPS para viver...
    se comprar um com a função «Grande Prazer de Sonhar» vai ver que muda a frase para "sonhar é preciso, viver também é preciso".

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  5. Viagem


    Aparelhei o barco da ilusão
    E reforcei a fé de marinheiro.
    Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
    O mar...
    (Só nos é concedida
    Esta vida
    Que temos;
    E é nela que é preciso
    Procurar
    O velho paraíso
    Que perdemos.)

    Prestes, larguei a vela
    E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
    Desmedida,
    A revolta imensidão
    Transforma dia a dia a embarcação
    Numa errante e alada sepultura...
    Mas corto as ondas sem desanimar.
    Em qualquer aventura,
    O que importa é partir, não é chegar.


    Miguel Torga

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  6. Ah, Mestre! Até me assustei com tanto desalento. Mas vejo que já encara rumar para outra viagem...talvez alcance o destino que ainda não sabe.
    Eu ainda não decidi que o amor é impossível, só acho que não tem sido possível...
    Ou talvez sejamos - os que assim vivemos desanimados e procurando panaceias poéticas ou outras - demasiado exigentes e como tal não nos contentamos com produtos de segunda, com amores menos que perfeitos. E depois queixamo-nos...
    Vamos tentando velejar, então.
    Navegar é preciso, sem dúvida.

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  7. josé luis
    Sempre a cuidar das minhas «partículas de felicidade»! Sempre a usar o melhor dos jogos de palavras!
    Obrigada pelo conselho.
    Vou procurar o produto e beneficiar do seu uso.
    Origada.

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  8. última hora!
    consegui fotografar um dos tais GPS especiais, que permitem lutar contra a infelicidade e o fardo do tempo... visite o meu fotogrog!

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