terça-feira, 4 de agosto de 2009

Zeca Afonso

Só agora soube que se assinalaram, no dia 2, 80 anos do nascimento de Zeca Afonso.
Como estou desatenta de toda a comunicação social, não sei se foi devidamente assinalado.
Mas eu tenho de dizer aqui alguma coisa. Não vale a pena dar informações sobre o Zeca, pois elas estão acessíveis por todo o lado, também não vale a pena tentar descrever a grandeza e importância dele, pois não seria capaz.
O que eu tenho mesmo é de pedir perdão ao Zeca.
"Perdão por, naquela noite em que foste à Faculdade de Letras, ter ficado mais impressionada com o teu aspecto de doente do que com o facto de estares ali, por nós, para nós, que não sabíamos nada.
Mas, sobretudo pedir-te perdão por não seguir sempre, como devia, o teu conselho: Lutem sempre; nunca deixem de lutar!
Tu foste ali, doente, com dificuldade, deixar-nos esta mensagem durante a nossa greve; encorajar a nossa luta, que sabias justa. E nós que fizemos? Abanámos o rabinho quando o Governo nos deu uma das saídas profissionais que pedíamos e hoje estamos sentadinhos nos nossos empregos a achar que somos felizes.
Desculpa Zeca. Tu merecias muito mais. Tu merecias um Portugal diferente! Tu merecias o Portugal por que lutaste.
E eu, que te ouvi, ali tão perto, tinha a obrigação de cumprir: Lutar sempre!
Mas, na maior parte das vezes, é tão solitário lutar, que é mais fácil amuar, desmotivar...mas não lutar.
Perdão.Vou tentar ser melhor.
Só tenho, a meu favor, dizer-te que verifico sempre, todos os anos, que os garotos sabem quem tu és, que a tua voz é ainda - e sempre - a voz da Liberdade!"

2 comentários:

  1. Zeca, grande poeta, grande compositor, enorme ser humano!

    Eu não sei que faz o sol

    Eu não sei que faz o sol
    Que não dá na minha rua
    Hei-de me vestir de branco
    Que de branco anda a lua

    Não vi ribeira sem água
    Nem praça sem pelourinho
    Nem donzelas sem amores
    Nem padres sem beber vinho

    Lindos olhos de pau preto
    Nariz de pena aparada
    Dentes de letra miúda
    Boca de carta cerrada

    Lindos olhos tem a cobra
    Quando olha de repente
    Mais vale um bom desengano
    Que andar enganado sempre


    José Afonso
    (acho que é cantado pelo sobrinho, o João Afonso. O Zeca nunca gravou este poema)

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  2. Sempre que leio este poema, "vejo" nele homens como o Zeca.

    Ecce Homo

    Desbaratamos deuses, procurando
    Um que nos satisfaça ou justifique.
    Desbaratamos esperança, imaginando
    Uma causa maior que nos explique.

    Pensando nos secamos e perdemos
    Esta força selvagem e secreta,
    Esta semente agreste que trazemos
    E gera heróis e homens e poetas.

    Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
    Malhando-nos a carne, até que em brasa
    Nossos sexos furiosos se confundam,

    Nossos corpos pensantes se entrelacem
    E sangue, raiva, desespero ou asa,
    Os filhos que tivermos forem nossos.


    José Carlos Ary dos Santos

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