sábado, 15 de agosto de 2009

Estou exausta!

"Eu só queria dançar contigo,
sem corpo visível
Dançar como amigo,
se fosse possível...
Dois pares de sapatos, levantando o pó,
Dançar como amigo só!"

Sérgio Godinho, Dancemos no Mundo

2 comentários:

  1. Estou cansado

    Estou cansado, é claro,
    Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
    De que estou cansado, não sei:
    De nada me serviria sabê-lo,
    Pois o cansaço fica na mesma.
    A ferida dói como dói
    E não em função da causa que a produziu.
    Sim, estou cansado,
    E um pouco sorridente
    De o cansaço ser só isto —
    Uma vontade de sono no corpo,
    Um desejo de não pensar na alma,
    E por cima de tudo uma transparência lúcida
    Do entendimento retrospectivo...
    E a luxúria única de não ter já esperanças?
    Sou inteligente; eis tudo.
    Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
    E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
    Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


    Álvaro de Campos

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  2. Mais a propósito de uma mente exausta de criar:

    Vanitas

    Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,
    Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,
    E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada
    De gritos de triunfo e gritos de agonia.

    Prende a idéia fugaz; doma a rima bravia,
    Trabalha... E a obra, por fim, resplandece acabada:
    "Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!
    Filha do meu trabalho! ergue-te à luz do dia!

    Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
    Arranquei-te da vida ao ádito profundo,
    Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!

    Posso agora morrer, porque vives!" E o Poeta
    Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,
    E cai - vaidade humana! - ao pé de um grão de areia...


    Olavo Bilac

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