quinta-feira, 23 de julho de 2009

Trabalhando como a Formiga, mas ansiando por ser Cigarra!

"Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base de uns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria de fome.
E, realmente...
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura."

Miguel Torga, Fábula da fábula

1 comentário:

  1. Torga, Homem e Poeta, ser humano excepcional, foi obrigado a ser formiga toda a vida, para manter a verticalidade. Mas "cantava" como um deus...

    O poeta e a cigarra

    O mundo sabe
    que, para ser belo,
    necessita ser escrito.

    Carente,
    o Universo,
    nos pede confirmação
    do nosso incondicional amor.

    A diferença
    entre o poeta e a cigarra
    é apenas a sinceridade.


    Mia Couto


    Mais "clássica", não deixa de ter piada esta versão:

    A cigarra e a formiga

    Tendo a cigarra em cantigas
    Passado todo o Verão
    Achou-se em extrema penúria
    Na tormentosa estação.

    Não lhe restando migalha
    Que trincasse, a tagarela
    foi valer-se da formiga
    que morava perto dela.

    Rogou-lhe que lhe emprestasse,
    pois tinha riqueza e brio,
    algum grão com que manter-se
    ’Té voltar o aceso estio.

    «Amiga (diz a cigarra),
    Prometo, à fé d’animal,
    Pagar-vos antes d’Agosto
    Os juros e o principal.»

    A formiga nunca empresta,
    Nunca dá, por isso ajunta.
    «No verão, em que lidavas?»
    À pedinte ela pergunta.

    Responde a outra: «Eu cantava
    Noite e dia, a toda a hora.»
    «Ah! bravo! (torna a formiga)
    — Cantavas? Pois dança agora.»


    Bocage


    Poeminha de Homenagem à Preguiça Universal

    Que nada é impossível
    não é verdade;
    todo o mundo faz nada
    com facilidade.


    Millôr Fernandes

    ResponderEliminar