segunda-feira, 13 de julho de 2009

As Leis da Publicidade

mudaram ou o novo anúncio do Continente, que compara preços com o Lidl, está contra as leis? Parece-me pelo menos anti-ético...Ou, serão todos da mesma família?

2 comentários:

  1. Eu, etiqueta

    Em minha calça está grudado um nome
    que não é meu de baptismo ou de cartório,
    um nome... estranho.
    Meu blusão traz lembrete de bebida
    que jamais pus na boca, nesta vida.
    Em minha camisola, a marca de cigarro
    que não fumo, até hoje não fumei.
    Minhas meias falam de produto
    Que nunca experimentei
    Mas são comunicados a meus pés.
    Meu ténis é proclama colorido
    de alguma coisa não provada
    por este provador de longa idade.
    Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
    minha gravata e cinto e escova e pente,
    meu copo, minha xícara,
    minha toalha de banho e sabonete,
    meu isso, meu aquilo,
    desde a cabeça ao bico dos sapatos,
    são mensagens,
    letras falantes,
    gritos visuais,
    ordens de uso, abuso, reincidência,
    costume, hábito, premência,
    indispensabilidade,
    e fazem de mim homem — anúncio itinerante,
    escravo da matéria anunciada.
    Estou, estou na moda.
    É doce estar na moda, ainda que a moda
    seja negar minha identidade,
    trocá-la por mil, açambarcando
    todas as marcas registadas,
    todos os logotipos do mercado.
    Com que inocência demito-me de ser
    eu que antes era e me sabia
    tão diverso dos outros, tão mim-mesmo,
    ser pensante, sentinte e solidário
    com outros seres diversos e conscientes
    Da sua humana, invencível condição.
    Agora sou anúncio,
    Ora vulgar ora bizarro,
    em língua nacional ou em qualquer língua
    (qualquer, principalmente).
    E nisto me comprazo, tiro glória
    de minha anulação.
    Não sou — vê lá — anúncio contratado.
    Eu é que mimosamente pago
    para anunciar, para vender
    em bares festas praias pérgulas piscinas,
    e bem à vista exibo esta etiqueta
    global no corpo que desiste
    de ser veste e sandália de uma essência
    tão viva, independente,
    que moda ou suborno algum a compromete.
    Onde terei jogado fora
    meu gosto e capacidade de escolher,
    minhas idiossincrasias tão pessoais,
    tão minhas que no rosto se espelhavam,
    e cada gesto, cada olhar,
    cada vinco da roupa
    resumia uma estética?
    Hoje sou costurado, sou tecido,
    sou gravado de forma universal,
    saio da estamparia, não de casa,
    da vitrina me tiram, recolocam,
    objecto pulsante mas objecto
    que se oferece como signo de outros
    objectos estáticos, tarifados.
    Por me ostentar assim, tão orgulhoso
    de ser não eu, mas artigo industrial,
    peço que meu nome rectifiquem.
    Já não me convém o título de homem.
    Meu nome novo é coisa.
    Eu sou a coisa, coisamente.


    Carlos Drummond de Andrade (1984)

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  2. Poesia com sotaque: que luxo!
    Este autor é outro que eu só conheço em prosa. Tem crónicas deliciosas!
    Obrigada por continuar a contribuir, de forma tão empenhada, para alargar os meus horizontes de palavras.

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