sábado, 16 de novembro de 2013

Paredes

"Naquele dia instalaram um estendal e um candeeiro. A casa estava quase pronta.
Ela tinha um certo medo de se mudar. Sentia que a mudança de casa era mais do que isso: era o início de uma nova etapa, era o princípio de algo e ela não sabia bem o quê. Temia...mas ao mesmo tempo ansiava pela tal mudança que pressentia. Era um sentimento incómodo, mas ao mesmo tempo era uma desinquietação que a estimulava, a fazia sentir viva...quase diria mais jovem.
O novo colega de trabalho tinha-se disponibilizado desde o início para a ajudar. Deslocado de casa e da família tinha uma disponibilidade encantadora. Envolvia-a em atenções e tinha um sentido prático que ia conseguindo tornar a casa nova dela cada vez mais num lar. E ela fazia de conta que era só gratidão, queria que fosse só gratidão. Sabia que ele tinha uma família, que o esperava aos fins de semana, dos quais gostava, mas os sentimentos cresciam dentro dela como ervas daninhas. Por fim deixara de os combater. Aceitava-os como algo inevitável. Aproveitava sôfrega as ajudas na casa nova. Sabia que assim que se mudasse terminaria o sentido para aqueles encontros, convívios, conversas...
- Não tens um escadote? - perguntou ele
- Ainda não. - respondeu ela com aquele ar desolado e indefeso que adotava perto dele.- Sobraram parafusos das obras. se calhar vou comprar uma daquelas caixinhas com divisórias para os guardar. Podem vir a dar jeito.
- Já demonstras mais preocupação com esta casa do que com a outra!
- Espero ser melhor dona de casa agora. Espero gostar mais de estar em casa. Espero que esta casa me inspire projetos de escrita. Quero ser escritora aqui!
- Sê-lo-ás, vais ver.
Olharam-se longamente. 
Ela fitou as paredes e soube que não tinha de lhes confessar nada."

2 comentários:



  1. SORRISO AUDÍVEL…


    Sorriso audível das folhas
    Não és mais que a brisa ali
    Se eu te olho e tu me olhas,
    Quem primeiro é que sorri?
    O primeiro a sorrir ri.

    Ri e olha de repente
    Para fins de não olhar
    Para onde nas folhas sente
    O som do vento a passar
    Tudo é vento e disfarçar.

    Mas o olhar, de estar olhando
    Onde não olha, voltou
    E estamos os dois falando
    O que se não conversou
    Isto acaba ou começou?


    Fernando Pessoa

    Beijito, Miss. Que seja um bom começo…

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