Será que as palavras ficam presas no tempo?
Terão as palavras alguma coisa a ver com a moda, efémera e volátil?
Evocações do passado também poderão ser palavras que, outrora, marcaram tanto o nosso quotidiano como o som do chiar do baloiço, o pregão da “língua da sogra” na praia ou o cheiro do cozido à portuguesa ao domingo?...
Procurar e (re)contextualizar palavras, embalarmo-nos nelas, divagar sobre elas, são alguns dos objectivos deste projecto.
Por puro prazer!
terça-feira, 25 de junho de 2013
Hoje é um dia muito importante para a Democracia e a Escola Pública, que, a meu ver, não existem em pleno uma sem a outra.
Hoje também é um dia muito importante. Ou deveria ser, se neste jardinzito mal amanhado não estivesse o direito à greve extremamente limitado pelos contratos a prazo e pelos recibos verdes e pelo desemprego e por tudo o que este sistema "liberal" aprontou para esvaziar de direitos o trabalho.
Temos medo, é a verdade. E recorro, como de costume, a um poeta para nos explicar o que isso é:
O MEDO A Antonio Candido "Porque há para todos nós um problema sério... Este problema é o do medo." (Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração)
Em verdade temos medo. Nascemos escuro. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. Há as árvores, as fábricas, Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor, este célebre sentimento, e o amor faltou: chovia, ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo... Nevava. O medo, com sua capa, nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti, meu companheiro moreno, De nós, de vós: e de tudo. Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses, Nosso caminho: traçado. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo, vem, ó terror das estradas, susto na noite, receio de águas poluídas. Muletas do homem só. Ajudai-nos, lentos poderes do láudano. Até a canção medrosa se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo, duros tijolos de medo, medrosos caules, repuxos, ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência, com resplendores covardes, atingiremos o cimo de nossa cauta subida.
O medo, com sua física, tanto produz: carcereiros, edifícios, escritores, este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor, Os mais velhos compreendem. O medo cristalizou-os. Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente, recuando de olhos acesos. Nossos filhos tão felizes... Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade. Depois da cidade, o mundo. Depois do mundo, as estrelas, dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade
Beijito, Miss. Vençamos o medo e verificaremos que o medo se muda para os que agora nos atemorizam.
Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também me não diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
Miguel Torga
Espero que esteja em paz e que seja uma paz possível. Beijito, Miss.
Hoje também é um dia muito importante. Ou deveria ser, se neste jardinzito mal amanhado não estivesse o direito à greve extremamente limitado pelos contratos a prazo e pelos recibos verdes e pelo desemprego e por tudo o que este sistema "liberal" aprontou para esvaziar de direitos o trabalho.
ResponderEliminarTemos medo, é a verdade. E recorro, como de costume, a um poeta para nos explicar o que isso é:
O MEDO
A Antonio Candido
"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."
(Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração)
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade
Beijito, Miss. Vençamos o medo e verificaremos que o medo se muda para os que agora nos atemorizam.
ResponderEliminarPRINCÍPIO
Não tenho deuses. Vivo
Desamparado.
Sonhei deuses outrora,
Mas acordei.
Agora
Os acúleos são versos,
E tacteiam apenas
A ilusão de um suporte.
Mas a inércia da morte,
O descanso da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma,
Também me não diz nada.
A paz possível é não ter nenhuma.
Miguel Torga
Espero que esteja em paz e que seja uma paz possível.
Beijito, Miss.
ResponderEliminarLEMBRETE
Se procurar bem,
você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade
Quem sabe se procurando bem não encontraríamos também a peça de mobília que vai faltando por aqui...
Beijito, Miss.
Ai, Amigo, estou de volta, mas a arrastar a mobília com algum dano para o soalho.
ResponderEliminarBeijito.