segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ou para apedrejarmos a crise...


"POEMA PARA HABITAR

A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
...que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte."  

Albano Martins

1 comentário:


  1. HABITAR O TEMPO


    Para não matar seu tempo, imaginou:
    vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
    no instante finíssimo em que ocorre,
    em ponta de agulha e porém acessível;
    viver seu tempo: para o que ir viver
    num deserto literal ou de alpendres;
    em ermos, que não distraiam de viver
    a agulha de um só instante, plenamente.
    Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
    habitá-lo, na agulha de cada instante,
    em cada agulha instante: e habitar nele
    tudo o que habitar cede ao habitante.

    E de volta de ir habitar seu tempo:
    ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
    e como além de vazio, transparente,
    o instante a habitar passa invisível.

    Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
    matar o tempo, enchendo-o de coisas;
    em vez do deserto, ir viver nas ruas
    onde o enchem e o matam as pessoas;
    pois como o tempo ocorre transparente
    e só ganha corpo e cor com seu miolo
    (o que não passou do que lhe passou),
    para habitá-lo: só no passado, morto.


    João Cabral de Melo Neto

    Beijito, Miss.

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