quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Pisca-pisca

- Olá Professora! Julgava-a de férias... - o pessoal da oficina do meu carro é muito afável, é sempre muito agradável ir lá.
- Ah...então vocês não souberam que eu perdi o meu companheiro de férias? - disse com ar circunspecto.
Fez-se um silêncio incomodativo e mesmo alguns clientes olharam para mim com espanto.
- Companheiro? Mas... - o Sr. Américo recompôs-se - A senhora sabe que aqui não queremos saber das vidas particulares - Mas lá no fundo pairava um certo espanto. Eu aparecia sempre sozinha; uma das coisas maravilhosas do serviço deles é tratarem o meu carro com o carinho de um órfão de elemento masculino em casa.
- Oh, mas como foi tão falado... - insiti eu, fazendo um grande esforço para me manter séria
- Falado...mas, foi acidente? Não me recordo de nada...
- E que acidente! - e já não consegui manter mais a brincadeira - Desde que fiquei sem o subsídio de férias há um vazio enorme na minha vida. Nem consegui ir para lado nenhum.
Os homens atrás do balcão riram com muito gosto: - Ah, professora. E nós aqui preocupados. Brincalhona!
Mas notei o ar abespinhado de um senhor, cliente, lá no canto do balcão. Seria falta de sentido de humor? Teria estado a passar em revista os seus conhecimentos de quadrilhice a ver em quais eu me enquadraria? Ou teria mesmo perdido alguém e não suportava brincadeiras relacionadas com isso?
Às vezes penso que a boa disposição de uns pode mesmo ser agressiva para outros, dependendo das circunstâncias. Fiquei um bocadinho incomodada, mas lá prossegui a conversa até saber que o barulho estranho do meu «pisca» se destinava a avisar-me que havia uma lâmpada fundida. É uma coisa que um companheiro de férias - que não o subsídio - teria concluído sem ajuda, mas que os afáveis mecânicos se prontificaram a resolver à Sra. Professora, como sempre.

4 comentários:


  1. O DINHEIRO


    O dinheiro é tão bonito,
    Tão bonito, o maganão!
    Tem tanta graça, o maldito,
    Tem tanto chiste, o ladrão!
    O falar, fala de um modo...
    Todo ele, aquele todo...
    E elas acham-no tão guapo!
    Velhinha ou moça que veja,
    Por mais esquiva que seja,
    Tlim!
    Papo.

    E a cegueira da justiça
    Como ele a tira num ai!
    Sem lhe tocar com a pinça;
    E só dizer-lhe: «Aí vai...»
    Operação melindrosa,
    Que não é lá qualquer coisa;
    Catarata, tome conta!
    Pois não faz mais do que isto,
    Diz-me um juiz que o tem visto:
    Tlim!
    Pronta.

    Nessas espécies de exames
    Que a gente faz em rapaz,
    São milagres aos enxames
    O que aquele demo faz!
    Sem saber nem patavina
    De gramática latina,
    Quer-se um rapaz dali fora?
    Vai ele com tais falinhas,
    Tais gaifonas, tais coisinhas...
    Tlim!
    Ora...

    Aquela fisionomia
    É lábia que o demo tem!
    Mas numa secretaria
    Aí é que é vê-lo bem!
    Quando ele de grande gala,
    Entra o ministro na sala,
    Aproveita a ocasião:
    «Conhece este amigo antigo?»
    — Oh, meu tão antigo amigo!
    (Tlim!)
    Pois não!


    João de Deus


    O TC abriu uma nesga de esperança por onde, quem sabe!, pode voltar o seu companheiro de férias — com a ajuda de algum outro juiz sem teias de aranha na moleirinha.

    Mas, pelo sim pelo não, é melhor procurar um assento...

    Beijito, Miss.

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  2. Um assento para esperar ou o correspondente assento do Tribunal de Contas?
    Espero que não me esteja a dar o clássico conselho de que eu devia assentar...
    A língua portuguesa é de facto muito rica!

    Beijito, Mestre.

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  3. Longe de mim sugerir que a Miss era um móvel de tampa aberta...

    A ideia era que esperasse sentada.

    Num banco era o ideal, principalmente se fosse na administração.

    Falar numa cadeira poderia sugerir relvices agora na moda. Não me atreveria.

    A nesga de esperança parece-me existir num facto óbvio: os juízes que irão julgar também quererão receber o que lhes foi roubado.

    Boa sorte, Miss.

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  4. "um móvel de tampa aberta" :-)
    Por vezes salta...a tampa...mas depois tudo se compõe.

    Beijito.

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