terça-feira, 17 de julho de 2012

Eu própria duvido disto, mas achei bonito

Não me corte em fatias.
Ninguém consegue abraçar um pedaço.
Me envolva todo em seus braços
e eu serei o perfeito amor.

Mário Quintana
 
Eu própria é uma expressão algo irritante, que me aborrece assim que a profiro...Claro que não há eu imprópria. Eu, sou sempre própria! Porque é que dizemos isto?
 
Esta não é a minha melhor fatia. Poderá ser esquecida no todo do abraço. Talvez um abraço por alguém maior, que me envolva de tal maneira que eu não consiga falar. Aí, talvez fique menos irritante...
 
Mas, bom (bom, mesmo) era que me  abraçasse de tal maneira que eu não conseguisse pensar.
Só por um bocadinho, pronto.
Mas era...

6 comentários:


  1. O POEMA E A VIDA — I


    Perguntam-me muitas vezes como é possível conciliar a poesia e a política. Eu próprio vivi e sofri esse dilema. Mas um dia percebi que já o tinha resolvido num poema publicado em “Praça da Canção” (o meu primeiro livro) e que se intitulava “Como se faz um poema”.
    Permitam-me citar algumas estrofes:

    Com muita coisa eu fiz o meu poema.
    Rasguei retratos abri um poço
    na planície. Habitei muitos cadernos.
    Fui à guerra e morri. Fui à guerra e voltei.
    Com muita coisa fiz o meu poema.

    Parti vestido de soldado. Eu vi Lisboa
    cheia de lágrimas. E um avião ficou
    por muito tempo voando entre lágrimas e nuvens
    minha amada chorando no aeroporto triste.
    Com muita coisa fiz o meu poema.

    Meu amigo morreu. Já disse como foi.
    A mina rebentou meu amigo ficou
    com as tripas de fora em cima de uma árvore.
    Aprendi na terceira pessoa o verbo morrer.
    Com muita coisa fiz o meu poema.

    Eu vi soldados com as mãos cheias de sangue.
    Mas isso foi de mais. E tive de aprender
    na primeira pessoa o verbo matar. Desde aí
    há certos adjectivos que me doem muito.
    Com muita coisa fiz o meu poema.

    Não vou dizer o tempo que demora um verso.
    Como dizer-vos por exemplo o tempo
    com as chaves metálicas batendo
    Na minha cela que depois rimei com estrela?
    Com muita coisa fiz o meu poema.

    Cidade já rimei com liberdade
    (muita coisa aprendi desde esse tempo)
    Liberdade rimei depois com estrela e cela
    Tristeza fiz rimar com alegria
    Meu poema rimou com minha vida.

    Com muita coisa eu fiz o meu poema.
    Aprendi-o no vento. Aprendi-o no barro.
    Sobretudo na rua. E nalguns livros também.
    Porém foi junto aos homens que aprendi
    como as palavras são terríveis e sagradas.

    Aqui vos deixo o meu poema. Aqui vos deixo
    cidade a não rimar com liberdade
    liberdade a rimar com estrela e cela
    meu poema a rimar com minha vida. Aqui vos deixo
    as coisas com que fiz o meu poema.


    Manuel Alegre

    A propósito do "eu própria" — não é nenhuma asneira, é apenas uma expressão enfática.

    Outro poeta que o utiliza:

    A QUEDA

    E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
    Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
    E giro até partir... Mas tudo me resvala
    Em bruma e sonolência.

    Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro,
    Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
    Eu morro de desdém em frente dum tesouro,
    Morro á mingua, de excesso.

    Alteio-me na côr à fôrça de quebranto,
    Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...
    Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
    Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

    Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
    - Vencer ás vezes é o mesmo que tombar -
    E como inda sou luz, num grande retrocesso,
    Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
    Olho do alto o gêlo, ao gêlo me arremesso...

    . . . . . . . . . . . . . . .

    Tombei...
    E fico só esmagado sobre mim!...


    Mário de Sá-Carneiro


    Beijito, Miss.

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  2. «[…] abre-se em mim a força deste abraço
    Que abarca o mundo!»


    Miguel Torga
    , em «Inocência»

    Beijito, Miss.

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  3. Estive sem Internet. E como fica tempo vazio...ou livre...ou disponível para, por exemplo, terminar aquele romance histórico que estava quase no fim há tanto tempo.
    Agora ela voltou e eu vim espreitar.
    Dar o abraço virtual aos amigos, antes de correr para a esplanada de verão que me espera para abraços reais, de amigos saudosos de férias e de noites em que não se pergunta: "A que horas entras amanhã?"

    Beijitos

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  4. PASSO A PASSO


    A par e passo passo neste espaço
    abrindo a largos golpes largos espaços
    e passas nos meus passos passo a passo
    repassas em abraços os meus braços.
    A peso peso os passos quando piso
    os traços com que traço e já trespasso
    o passeio nos lenços que desfaço
    em lassos laços quando passas
    como um punhal perdido em plena praça.


    Joaquim Pessoa

    Beijito, Miss.
    Que tenha recebido muitos abraços dos tais.

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  5. «Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa.

    Não sei que detalhes demasiadamente pomposos e escolhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor ao ornamental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.»


    Bernardo Soares


    Espero que não tenha deixado separarem-se as fatias...
    Beijito, Miss.

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  6. Olá Mestre.
    Estou agora a reunir as fatias, para ficar inteira de férias.
    Beijito.

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