segunda-feira, 19 de março de 2012

Dia do Pai

«Mamã, quando eu ser papá, compras-me um cachimbo?», terei dito, muito pequenina, quando contemplava a coleção de cachimbos do meu pai.
Nunca fumei cachimbo, nunca fui papá, mas recordo-me uma criança engraçadinha...e já com um sentido prático: vejam lá se eu queria ser mamã e pedi uma mini-bateria de cozinha? Safa! Estar no cadeirão a fumar cachimbo tinha um ar mais apelativo.

2 comentários:


  1. UM SEGREDO


    Meu pai tinha sandálias de vento
    só agora o sei.
    Tinha sandálias de vento
    e isto nem sequer é uma maneira de dizer
    andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures
    com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios.

    Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
    mas toda a sua ausência era
    o malogro de o ser
    só agora o sei.
    Andava por longe ou sentíamo-lo longe
    vem dar no mesmo
    e no entanto víamo-lo sempre
    ali plantado de imobilidade absorta
    no cepo de carvalho raiado de negro
    a que o caruncho comera o miolo
    como as lagartas esvaziam as maçãs
    estranhamente quieto murcho resignado
    no seu estranho vadiar
    os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
    como um apelo perdido uma coragem abortada.
    Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida
    ausência era
    altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
    tristeza sim tristeza solene e irremediada
    só agora o sei.

    Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
    sulco azul
    que nada distingue do azul onde foi sulcado
    e por isso nem é águia nem ao menos
    o que do seu voo resta para que
    o sonho se faça real.
    Meu pai era um homem com as nostalgias
    do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera
    como as tais lagartas esfarelam as maçãs
    e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
    miraculosamente leves soltas imaginosas
    indo de acaso em acaso de astro em astro
    eram de vento as suas sandálias fabulosas
    levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

    Os outros não o sabiam nem eu o sabia
    só o víamos sentado no cepo velho
    raiado de negro como uma estrela fossilizada
    por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
    sei-o agora tarde de mais
    tarde de mais é uma dor de remorso
    que me consome víscera a víscera
    como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
    Mas de qualquer maneira existe um segredo
    de que ambos partilhamos
    ciosamente avaramente indecifradamente
    como os astutos conspiradores
    que fazem do seu segredo
    um mágico tesouro inviolado.

    Um segredo simples:
    o que sentiste pai
    sinto-o eu agora por ambos
    sinto-o por ti
    sinto-o por mim.

    Ainda que por ele devorados.


    Fernando Namora

    Quantas vezes não nos acontece, este tardar em entender!

    Beijito, Miss. Fume descontraidamente o seu cachimbo e que ele seja de paz.

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  2. Hum...cada vez mais vou compreendendo esses entendimentos...será tarde?

    Adorei.
    Obrigada.
    Beijito, Mestre.

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