segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Um Bom Ano Novo

"Sabia que não podia prolongar por mais tempo aquele momento. Não seria socialmente razoável.
Por isso, com muita pena, desprendeu do prego o gordo e fôfo boneco de neve que durante mais de quinze dias lhe dera as boas vindas a casa. Desceu-o e arrumou-o numa caixa colorida que guardou vagarosamente no sotão, juntamente com a sua esperança nas mudanças de «um Bom Ano Novo».
Lá em baixo a porta bateu com estrondo. O arrastar dos pés e os passos irregulares deixavam adivinhar uma figura cambaleante...mais uma vez...
Num acto irreflectido abriu de novo a caixa e introduziu a mão até sentir o toque quente da fazenda branca onde estavam desenhadas as bochechas rosadas do boneco de neve. Ficou assim um bocadinho, com os olhos fechados com força:como se aquele contacto fosse o de uma mão amiga, consoladora, uma companhia. Depois, o inevitável grito rouco do pai chamou o seu nome e nada mais havia a fazer do que abrir os olhos e descer a escada, rumo a todos os dias todos iguais que se seguiriam, por mais um-ano-inteiro, afinal tão velho e gasto como o anterior."

3 comentários:


  1. Dilema

     
    O que muito me confunde
    é que no fundo de mim estou eu
    e no fundo de mim estou eu.
    No fundo
    sei que não sou sem fim
    e sou feito de um mundo imenso
    imenso num universo
    que não é feito de mim.
    Mas mesmo isso é controverso
    se nos versos de um poema
    perverso sai o reverso.
    Disperso num tal dilema
    o certo é reconhecer:
    no fundo de mim
    sou sem fundo.


    Antonio Cícero

    Bom ano de 2012, Miss.
    Beijito.

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  2. O vocábulo exacto


    O vocábulo exacto, os capilares
    por onde passe o vento e o sangue,
    o líquido solar ou este súbito
    desejo de extermínio.

    Assim, quando vós, palavras hirtas,
    estalardes, e meu canto for
    fragmentos dispersos sob a cinza,
    — Adeus! oh barcos onde nunca fui,
    ameias onde resisti.


    José Terra

    Beijito, Miss.

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  3. Olá Mestre!
    Obrigada por não desistir, mesmo quando eu ando arredia...às vezes só à procura da palavra exacta, que, se por vezes chega fáci e em revoadas de boa companhia, outras vezes se faz esquiva, escusa, inadequada...
    Momentos...

    Beijito.

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