sábado, 19 de novembro de 2011

Pós-democracia?

"O que está hoje em jogo no apodrecimento imparável da crise do euro já não é a sobrevivência de uma moeda nem mesmo a sobrevivência da integração europeia. É a sobrevivência da democracia.
(...)

Refém da irresponsabilidade da ganância, a Europa não hesita em acolher governos ilegítimos e em adoptar como seu o discurso de que o voto do povo é um empecilho para "o que tem de ser feito". Esta Europa tem medo da democracia. E só a democracia pode resgatar a Europa."
José Manuel Pureza, no DN de ontem.
Um texto "aterradoramente" bom que deve ser lido na íntegra.

2 comentários:

  1. Um bom alerta, sem dúvida. Lamentável é que os partidos políticos (incluindo o BE) venham sendo, eles mesmos, os coveiros da democracia — o único regime em que podem sobreviver todos eles em simultâneo.

    Pôr no topo dos objectivos da actividade político-partidária a tomada do poder tem vindo a resultar no descrédito da democracia:

    • tudo o que os outros fazem está errado, tudo o que nós fazemos está certo — e vira-se a página quando mudamos de cadeira e tudo o que antes erra errado passa a certo e vice-versa;

    • quanto mais os nossos adversários se enterrarem (e com eles o país que governam), melhor para nós, que apareceremos como os únicos capazes de colar os cacos;

    • não nos interessa a consequência dos nossos actos e alinhamentos, interessa é que sirvam de agit-prop (há que anos não usava esta expressão…). Derrube-se o governo, mesmo que o que inevitavelmente vem a seguir seja pior do que este — mas teremos aparecido na TV à hora dos telejornais!

    Com estas trocas e baldrocas, natural é que os cidadãos vão desacreditando da política, confundindo-a com os políticos. E como o sistema tende a convocar mais a inércia do que a militância, isso tem levado ao afastamento e, pior ainda, a deixar nas mãos dos políticos a resolução da política. Reservamos para nós os lamentos, as generalizações de crimes e defeitos congénitos dos políticos, a assunção de que é o "nosso fado" aturá-los.

    Será mesmo fado? Acho que não, acho que está nas nossas mãos vencer a inércia e lutar. "Basta" que sejamos cidadãos.

    Beijito, Miss.

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  2. A cidade é um chão de palavras pisadas


    A cidade é um chão de palavras pisadas
    a palavra criança a palavra segredo.
    A cidade é um céu de palavras paradas
    a palavra distância e a palavra medo.

    A cidade é um saco um pulmão que respira
    pela palavra água pela palavra brisa
    A cidade é um poro um corpo que transpira
    pela palavra sangue pela palavra ira.

    A cidade tem praças de palavras abertas
    como estátuas mandadas apear.
    A cidade tem ruas de palavras desertas
    como jardins mandados arrancar.

    A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
    A palavra silêncio é uma rosa chá.
    Não há céu de palavras que a cidade não cubra
    não há rua de sons que a palavra não corra
    à procura da sombra de uma luz que não há.


    José Carlos Ary dos Santos

    É essa luz, que ainda não há, que urgimos seja encontrada. Procuremo-la!

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