terça-feira, 30 de agosto de 2011

Rom-rom/rom-rom/rom-rom...


Difícil, nas férias, foi aguentar as saudades desta amiga!




3 comentários:


  1. O ronron do gatinho


    O gato é uma maquininha
    que a natureza inventou;
    tem pêlo, bigode, unhas
    e dentro tem um motor.

    Mas um motor diferente
    desses que tem nos bonecos
    porque o motor do gato
    não é um motor elétrico.

    É um motor afetivo
    que bate em seu coração
    por isso faz ronron
    para mostrar gratidão.

    No passado se dizia
    que esse ronron tão doce
    era causa de alergia
    pra quem sofria de tosse.

    Tudo bobagem, despeito,
    calúnias contra o bichinho:
    esse ronron em seu peito
    não é doença - é carinho.


    Ferreira Gullar

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  2. Ai, que ternura!
    E o meu motorzinho está mesmo aqui, focinhito por cima do meu ombro, a ver o que escrevo e a manifestar o seu carinho (naquela forma simultanemente ruidosa e suave que só os felinos sabem).
    Vou partilhar com todos os donos de gatos que conheço.
    Beijito.

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  3. Ode ao gato


    Os animais foram
    imperfeitos,
    compridos de rabo, tristes
    de cabeça.
    Pouco a pouco se foram
    compondo,
    fazendo-se paisagem,
    adquirindo pintas, graça, voo.
    O gato,
    só o gato
    apareceu completo
    e orgulhoso:
    nasceu completamente terminado,
    anda sozinho e sabe o que quer.
    O homem quer ser peixe e pássaro
    a serpente quisera ter asas,
    o cachorro é um leão desorientado,
    o engenheiro quer ser poeta,
    a mosca estuda para andorinha,
    o poeta trata de imitar a mosca,
    mas o gato
    quer ser só gato
    e todo gato é gato
    do bigode ao rabo,
    do pressentimento à ratazana viva,
    da noite até os seus olhos de ouro.
    Não há unidade
    como ele,
    não tem
    a lua nem a flor
    tal contextura:
    é uma coisa só
    como o sol ou o topázio,
    e a elástica linha em seu contorno
    firme e subtil é como
    a linha da proa
    de uma nave.
    Os seus olhos amarelos
    deixaram uma só
    ranhura
    para jogara as moedas da noite
    Oh pequeno
    imperador sem orbe,
    conquistador sem pátria
    mínimo tigre de salão, nupcial
    sultão do céu
    das telhas eróticas,
    o vento do amor
    na intempérie
    reclamas
    quando passas
    e pousas
    quatro pés delicados
    no solo,
    cheirando,
    desconfiando
    de todo o terrestre,
    porque tudo
    é imundo
    para o imaculado pé do gato.
    Oh fera independente
    da casa, arrogante
    vestígio da noite,
    preguiçoso, ginástico
    e alheio,
    profundíssimo gato,
    polícia secreta
    dos quartos,
    insígnia
    de um
    desaparecido veludo,
    certamente não há
    enigma
    na tua maneira,
    talvez não sejas mistério,
    todo o mundo sabe de ti e pertence
    ao habitante menos misterioso,
    talvez todos acreditem,
    todos se acreditem donos,
    proprietários, tios
    de gatos, companheiros,
    colegas,
    discípulos ou amigos
    do seu gato.
    Eu não.
    Eu não subscrevo.
    Eu não conheço o gato.
    Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
    o mar e a cidade incalculável,
    a botânica,
    o gineceu com os seus extravios,
    o pôr e o menos da matemática,
    os funis vulcânicos do mundo,
    a casaca irreal do crocodilo,
    a bondade ignorada do bombeiro,
    o atavismo azul do sacerdote,
    mas não posso decifrar um gato.
    Minha razão resvalou na sua indiferença,
    os seus olhos têm números de ouro.


    (Pablo Neruda)

    Beijito, Miss.

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