sábado, 13 de agosto de 2011

O Chato do Querubim

Madrid
Pormenor da Porta de Alcalá
"Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
"inda" garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim"

Chico Buarque, Até ao Fim

2 comentários:

  1. Duas linguagens, dois grandes poetas, a mesma mensagem (parece-me...):

    Fala do homem nascido

    (Chega à boca da cena, e diz:)

    Venho da terra assombrada,
    do ventre de minha mãe;
    não pretendo roubar nada
    nem fazer mal a ninguém.

    Só quero o que me é devido
    por me trazerem aqui,
    que eu nem sequer fui ouvido
    no acto de que nasci.

    Trago boca para comer
    e olhos para desejar.
    Com licença, quero passar,
    tenho pressa de viver.
    Com licença! Com licença!
    Que a vida é água a correr.
    Venho do fundo do tempo;
    não tenho tempo a perder.

    Minha barca aparelhada
    solta o pano rumo ao norte;
    meu desejo é passaporte
    para a fronteira fechada.
    Não há ventos que não prestem
    nem marés que não convenham,
    nem forças que me molestem,
    correntes que me detenham.

    Quero eu e a Natureza,
    que a Natureza sou eu,
    e as forças da Natureza
    nunca ninguém as venceu.

    Com licença! Com licença!
    Que a barca se fez ao mar.
    Não há poder que me vença.
    Mesmo morto hei-de passar.
    Com licença! Com licença!
    Com rumo à estrela polar.


    António Gedeão

    "Vou até ao fim!", "Mesmo morto hei-de passar"...

    Beijito.

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  2. Dois poetas determinados...e determinantes!

    Beijito

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